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31/01/2016 - 14h01

'Vinte Mil Pedras no Caminho' narra vida de ex-morador da Cracolândia

da Livraria da Folha

Divulgação
Ex-piloto de avião narra como saiu da classe média para acabar vivendo anos na Cracolândia
Ex-piloto de avião narra como saiu da classe média para acabar vivendo anos na Cracolândia

Fabian Nacer nasceu brasileiro de classe média e hoje é um ex-usuário de crack. Usou todo tipo de droga pesada durante mais de vinte anos. Atingiu o fundo do poço quando foi morar na Cracolândia, nos anos 1990. Foram seis anos de rua consumindo crack sem parar. Dormia num bueiro. Chegou a pesar menos de 40 quilos. Foi internado 25 vezes. Convivia diariamente com a violência, a prostituição e a miséria a céu aberto, na maior metrópole do país. Hoje, já recuperado, ele conta sua história em "Vinte Mil Pedras no Caminho".

Publicado pela Geração Editorial, o livro foi escrito em parceria com o jornalista Jorge Tarquini, responsável por dar vida ao best-seller "O Doce Veneno do Escorpião", a biografia da Bruna Surfistinha.

O livro é um relato exclusivo e sem censura sobre a devastação que o crack causou na vida de um homem, de uma família e de incontáveis pessoas que caíram direta ou indiretamente na armadilha da droga, no Brasil dos anos 90.

Hoje, Fabian Nascer é um dos nomes mais fortes do Brasil em termos de reabilitação de usuários de drogas. Ele dá palestras pelo país inteiro, é presença constante em programas de grande audiência na TV e já atendeu a mais de 600 famílias em sua clínica.

Abaixo, leia um trecho de "Vinte Mil Pedras no Caminho" :

*

Na boa: como conheço o roteiro e os personagens, também acho isso um papo "moralista". Fumou um baseado e virou viciado? Não. Ninguém se vicia aos 14, 15, 16 anos... O "homem do saco" é mais real do que esse mito babaca, do que esse discurso desinformado, uma verdadeira história da carochinha. Nem por isso a coisa é tão sem importância como pareceu pra mim.

Comigo foi assim. Foi bacana, foi divertido, mas eu não acordei no dia seguinte pensando em maconha.

"Putz, meu, eu tenho que fumar maconha! Calma... é tudo bem mais lento que o barato do baseado... Não deu pra perceber que havia programado um timer pra explodir bem lá na frente.

A gente esquece da maconha. Vai passar um dia, uma semana, um mês ou mais para pintar de novo aquela ocasião perfeita: amigos reunidos, tudo de bom e surge o baseadinho na roda. Do primeiro pega até o aniversário de primeiro ano dele, não vão ser muitas as ocasiões, as festinhas, em que vai rolar maconha eventualmente. Talvez três ou quatro vezes. Eu chamo isso de 'fase um', quando você não corre atrás da maconha: ela aparece como mágica, num ritual de diversão, risos e amizade - e você embarca. Depois desses três ou quatro baseadinhos, numa tarde chuvosa você está de bobeira, em casa, sem nada pra fazer, e a ideia brota."

"Pô, meu, se eu tivesse um baseadinho agora ia ser da hora..."

Entre um game e outro, um filminho na TV e outro, bate de novo.

"Como é que eu posso arrumar um baseado?"

Liga pra um amigo, que fala pra ligar pro outro e um deles vai ter. Vocês se encontram e fumam um. Não é o acaso que traz a maconha até você: você é que vai atrás dela. Parabéns! Você chegou à "fase dois".

"Tudo bem, foi só essa..." - você está pensando. Tomara! Só que outras tardes de chuva e de ficar "bundando" vão rolar. E vai chegar uma hora em que você vai ficar sem jeito de ir atrás de seus amigos que têm a maconha. E também vai rolar em breve uma viagem, uma festa, uma excursão da escola.

"Se eu tivesse meu baseadinho lá ia ser da hora."

Você liga para quem sempre tem e se informa de como se faz para arrumar e dá um jeito de comprar o primeiro baseado com aquele colega da escola que sempre tem (imagina: ir até uma boca? Tá maluco?) e mudamos de fase: bem ‑vindos à fase três!

Nada, porém, com que se deva preocupar: não é para fumar durante a semana, sem motivo algum. A compra é para um momento especial. E meia dúzia de momentos especiais merecem que a gente tenha nossa própria maconha. Só tem uma coisa que irrita: fi car pagando 10 reais pro colega, por um baseado, é um assalto.

Na boa, babaquice fi car com esse medo bobo. Tem um monte de amigo que vai na boca e nada acontece. Vou também.

TA-DAM!!!!

Musiquinha de mudança de fase. Chegamos à fase quatro. E qualquer hora vira hora: com o chuveiro ligado, vaporzão e você na janela, pro cheiro não dar na vista, muita balinha, colírio, desodorante... E a maconha virou um hábito solitário. E vai seguir a vida inteira fumando um todo dia. Game over.

A maioria não vai precisar de internação, não vai deixar de trabalhar, nada disso. Levou um tempo até eu entender que a maconha virou minha muleta, um band‑aid. Qualquer coisa na minha vida, eu corro pro meu remedinho. Um dia não estava bom, noutro meio assim, no outro meio assado - e no quarto, meio cozido. Se algo me incomodava, lá corria eu pra acender meu baseado.

Virei um cara que postergava tudo, que me achava mais criativo com a maconha, mas na verdade eu não realizava nada. E nunca amadureci. Ninguém que, na adolescência, precise de muleta todo dia amadurece.

Não estou aqui para ficar com papo moralista (nem moral pra isso eu teria). Estou contando como enxergo, visto de dentro e em retrospectiva, o caminho que percorri, as razões pelas quais experimentei e me entreguei a tudo o que apareceu na minha frente.

"Eu não sou você!" - você pode estar pensando nesse momento. Só não vira a página, não. A gente tem mais em comum do que você imagina. Ainda mais se você já passou por alguma das fases dessa experiência - e "escolheu" ficar nela.

Eu escolhi, por desconhecimento, por curiosidade e por pressão do grupo. E fiquei nela por 22 anos, para sair depois de doze quilos de maconha, dez quilos de cocaína, 20 mil pedras de crack, 250 LSDs, incontáveis chás de lírio e cogumelo, heroína, lança, seis anos de rua e vinte e cinco internações. Até o meu novo dia de nascimento: 3 de novembro de 2003.

Nesse meio‑tempo, escolhi sempre ir ao fundo das coisas - até escolher sair de casa para viver na rua, na Cracolândia. As coisas que eu fiz, que tive de fazer, por causa das minhas "escolhas", não escondo que fiz. Mas tenho vergonha de muitas delas. Contá‑las aqui também é um jeito de lamber as feridas.

*

VINTE MIL PEDRAS NO CAMINHO
AUTOR Fabian Penyy Nacer e Jorge Tarquini
EDITORA Geração Editorial
QUANTO R$ 29,90 (preço promocional*)
EBOOK R$ 19,90

* Atenção: Preço válido por tempo limitado ou enquanto durarem os estoques.

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