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30/01/2016 - 14h01

De Dilma Rousseff a Woody Allen: 'Antologia da Maldade' reúne mais de 2 mil citações

da Livraria da Folha

Divulgação
Livro apresenta citações de maldade espirituosa, malícia, atrevimento, ironia, de alguns maus ditos e bom humor
Livro apresenta citações de maldade espirituosa, malícia, atrevimento, ironia, de alguns maus ditos e bom humor

Em "Antologia da Maldade", os economistas Gustavo Franco e Fabio Giambiagi apresentam uma compilação de frases com dois dedos de maldade.

É importante deixar claro que a maldade que dá título ao livro não é a da má índole, mas um composto formado de maldade espirituosa, malícia, atrevimento, ironia, de alguns maus ditos e de muito bom humor.

O livro traz citações de Machado de Assis, Getúlio Vargas, Millôr Fernandes, Winston Churchill, Roberto Campos, Shakespeare, Jorge Luis Borges e muitos outros, entre banqueiros, políticos, consultores, empresários, artistas, escritores, esportistas, filósofos, dramaturgos e cientistas.

Além disso, apresenta as falas de líderes como Fernando Henrique Cardoso, Luiz Inácio Lula da Silva e Dilma Rousseff.

Dividido por temas e organizada em ordem alfabética, "Antologia da Maldade" inclui cerca de 2.700 citações com pensamentos sobre temas diversos, entre eles capitalismo, socialismo, amizade, tradição, religião, corrupção e Mensalão.

Abaixo, confira alguns exemplos de verbetes e leia um trecho da apresentação.

Inflação: "Queremos apenas reduzir uma inflação indecente de 220% para um nível não menos indecente de 150%, e depois o próximo governo continuará a luta." Antonio Delfim Netto, economista e ex-ministro da Fazenda, em 1984

Inveja: "O melhor dos bens é o que não se possui." Machado de Assis, escritor

Mineirice: "Em Minas Gerais, a política é como crochê: não se pode dar um ponto errado, sob pena de ter de começar tudo de novo." Itamar Franco, ex-presidente da República

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A maldade que impregna e dá título a esta antologia não deve assustar o leitor, pois não é a mesma dos celerados shakespearianos, nem tampouco a dos psicopatas e terroristas de tempos recentes, mas um composto formado de uma malícia mais postiça do que real, dois dedos de um atrevimento nem sempre inocente e outro tanto de puro divertimento. É dessa modalidade de maldade que fala Woody Allen, parodiando Marilyn Monroe, quando observa que as pessoas más se divertem mais. É o mesmo mal que Machado de Assis designa como "útil, muita vez indispensável, alguma vez delicioso". É este o minério que, nas páginas seguintes, emerge em estado bruto e com espantosa pureza, de jazidas privilegiadas como Nelson Rodrigues, Winston Churchill, Jorge Luis Borges, Machado de Assis, George Bernard Shaw, Fernando Pessoa, Ambrose Bierce, Roberto Campos e Millôr Fernandes.

Portanto, caro leitor, não há o que temer. Ao contrário, prepare-se para uma jornada leve, ferina, apenas o necessário para ser espirituosa, com as pausas e os desvios que o motorista houve por bem deliberar, mas atentando para algumas curvas perigosas, terrenos movediços e vizinhanças desaconselháveis para as crianças. A coletânea se organiza em verbetes, como é comum em antologias de citações. É interessante observar que, no sentido inverso, na confecção de dicionários, uma arte muito séria e rigorosa, já se tornou comum, quase obrigatório, juntar à definição da palavra a frase de um grande autor à guisa de ilustração: a palavra usada por seus melhores artífices funciona como autenticação para o exato significado de cada um de seus usos. "Toda citação contribui um pouco para a estabilidade ou o engrandecimento da linguagem", ensina o patrono dos lexicógrafos, Samuel Johnson. E toda definição, como observa o nosso patrono, Aurélio Buarque de Holanda, é "muitas vezes sorte. É pegar borboleta no ar, é capturar". Portanto, verbetes e citações são parentes próximos que se encontram nas variadas situações, amiúde fortuitas, e podem ter um relacionamento bastante complexo.

Pois essa rica relação, em nossa antologia, restou largamente contaminada pela maldade espirituosa de que falamos logo acima, pois estabelecemos muitas associações perigosas, talvez ilícitas, nas quais optamos por afastar frases e verbetes das relações canônicas normalmente encontradas. Nem todos os verbetes convencionais, de presença quase obrigatória nas antologias, fazem parte desta coleção, e também não são lá muito tradicionais as frases que o leitor encontrará nas entradas "Ambientalismo", "Capitalismo" e em suas diversas variantes, "Estatismo", "Federalismo", "Heroísmo", "Idealismo", "Jornalismo", "Neoliberalismo", "Socialismo" e inúmeros outros "ismos". Além disso, o leitor encontrará aqui um vocabulário muito singular, conjuntural mas essencial para o nosso tempo, incluindo itens como "Controle da mídia", "Corrupção", "Groucho-marxismo", "Heterodoxia", "Mensalão" e "Petrolão", que estão no cerne das grandes polêmicas contemporâneas no Brasil.

Tanto nesse palavreado incomum quanto nas associações perigosas, o leitor ouvirá bem nítida a voz dos organizadores, sempre como curadoria, ordenamento ou disposição, jamais de forma autoral. Em nossa modesta intervenção, todavia, não há assepsia nem neutralidade: nossa coletânea é também e principalmente comentário, um ponto de vista sobre diversos aspectos de um momento conturbado na história do país. Dessa forma, as ligações entre saberes e verbetes procurará sempre o perigo, como já foi observado, mas em um sentido assemelhado ao que atribuímos à maldade. Portanto, as ilicitudes não devem ser tomadas ao pé da letra, pois não são as do código penal, infelizmente tão abundantes no noticiário político de nossos dias, mas apenas um deslocamento de ponto de vista, ou de contexto.

O comentário é simplesmente irresistível sobre as falas de algumas lideranças políticas da ocasião, como Fernando Henrique Cardoso, Luiz Inácio Lula da Silva e Dilma Rousseff, sem os quais nenhuma coletânea sobre a atualidade estaria completa, sobretudo esta nossa, que enfatiza a maldade. O mesmo vale para as citações argentinas, cuidadosamente colecionadas por um dos organizadores, filho de argentinos, condição que o livra dos vieses brasileiros, mas o habilita a retransmitir exemplares impagáveis da maldade argentina sobre eles próprios. Nos temas econômicos, que são abundantes nesta antologia, há enorme dose de opinião e mesmo algumas tramas, como por exemplo em "Inflação", em que um conjunto de citações de autoridades econômicas do passado fornecerá um belo histórico do pensamento, ou do delírio brasileiro, sobre o momentoso assunto.

Nossa forma de organização contrasta deliberadamente, embora não deixe de homenageá-lo, com o formato paradigmático das coletâneas de intuito inspirativo ou educacional, compostas de pensamentos elevados, alimento para o espírito e memória de grandes momentos da inteligência universal. Claro que fornecemos tais virtudes, no entanto, em dose bem modesta, pois vale lembrar que a homenagem muito seletiva é sempre maldade contra os que foram omitidos.

Uma segunda geração de coletâneas inovou ao trazer uma organização temática e codificada de citações, implicitamente autorizando e incentivando a pequena apropriação indébita que é utilizar-se da fala espirituosa do outro, um sábio do passado, para finalidade e contexto completamente estranhos ao original e de acordo com a conveniência de um leitor situado anos depois. Essas novas antologias ofereciam a matéria-prima já organizada em verbetes e pronta para uso do homem culto e ocupado, ou oferecendo, conforme observou Churchill, "uma coisa boa para o homem de pouca educação". O uso da citação se democratizava e equalizava o território da ilustração.

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ANTOLOGIA DA MALDADE
AUTOR Fabio Giambiagi e Gustavo H. B. Franco
EDITORA Zahar
QUANTO R$ 47,90 (preço promocional *)
E-BOOK R$ 29,90 *

* Atenção: Preço válido por tempo limitado ou enquanto durarem os estoques.

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