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27/01/2016 - 13h20

Livro conta a história de bebês nascidos em Auschwitz; leia trecho

da Livraria da Folha

Em 1944, Priska, Rachel e Hanka chegaram ao campo de concentração de Auschwitz determinadas a sobreviver. Separadas de seus maridos, elas fizeram de tudo para lutar pelas vidas dos bebês que carregavam em seus ventres.

Divulgação
Priska, Rachel e Hanka fizeram de tudo para lutar pelas vidas dos bebês que carregavam em seus ventres
Priska, Rachel e Hanka fizeram de tudo para lutar pelas vidas dos bebês que carregavam em seus ventres

A trajetória de caridades inesperadas e desconfianças foi relatada pela jornalista britânica Wendy Holden em "Os Bebês de Auschwitz". No livro, a autora reconstitui as vidas de Priska, Rachel e Anka antes de 1938, quando Hitler começou a impor restrições aos judeus.

Entre o medo do avanço do Reich e a esperança pelo fim da guerra, elas viveram seus primeiros amores, se casaram e sonharam com o futuro de suas famílias apesar do futuro sombrio que se aproximava.

Além de investigar o passado, Holden acompanha o reencontro de Eva, Mark e Hana, os três sobreviventes nascidos dentro das instalações nazistas. O livro foi escrito a partir de entrevistas, cartas e diários.

Mostrando como pequenos gestos de solidariedade são capazes de salvar vidas, "Os Bebês de Auschwitz" vai além de um relato sobre o horror da guerra e mostra a importância do amor materno, coragem e gratidão.

Abaixo, leia um trecho do livro.

*

"Você está grávida, moça?", perguntou o famigerado doutor de Auschwitz II-Birkenau a Anka Nathanova quando chegou sua vez de ficar nua na frente dele durante a chamada daquela noite, em outubro de 1944, na Alemanha.

A tcheca de 27 anos, com seios grandes que sempre a envergonharam, tentava cobri-los com um braço, enquanto o outro protegia as partes íntimas. Olhando em volta, estupefata, sentia-se uma tola por ter acompanhado o marido Bernd a um lugar daqueles. Apos viver por três anos no gueto de Terezín a uma hora ao norte de Praga, imaginara, ingenuamente, que seriam acomodados num local similar. Como a família já havia sido enviada para o leste, Anka achou que seria melhor eles ficarem juntos.

Desde o momento em que o trem foi parando de modo agonizantemente lento no trilho que conduzia ao "Portão da Morte" de Birkenau, Anka percebeu seu erro. Terezin era um paraíso perto daquilo.

Assim que as trancas de metal dos vagões de carga foram liberadas, as pesadas portas de madeiras se abriram, produzindo um som ameaçador. Homens, mulheres e crianças em total perplexidade precipitaram-se na noite, tropeçando, cambaleantes, como que intoxicados.

"Estávamos no inferno, mas não sabíamos por quê", disse Anka. "Estávamos desembarcando, mas não sabíamos onde. Estávamos com medo, mas não sabíamos de que."

Conduzida àquela boca esfaimada que devorava trens de deportação, um após o outro, no mais eficiente centro de extermínio do regime nazista, Anka ficou aturdida desde o início. Sob os holofotes das torres de vigilância, tudo o que ela ouvia eram os cães latindo, com homens empunhando porretes, aos berros: "Raus! Raus!".

Oficiais alemães impecavelmente vestidos estavam de sentinela, como estatuas de mármore, enquanto os prisioneiros apaniguados tratavam de subjugar a multidão assustada. Todos cruéis e hostis, numa cacofonia de linguagens, entre guardas dando ordens, mulheres e crianças chorando e homens protestando em vão.

Sem tempo para compreender o que estava acontecendo, todos os que desceram daquele trem tiveram o terrível e repentino pressentimento de estar num lugar perigosíssimo, ao serem separados em duas longas filas. Com mulheres e crianças de um lado, homens e meninos mais velhos de outro, os judeus de Terezin foram conduzidos qual rebanho ao oficial da SS, que Anka encontraria mais tarde.

O medico sorridente, em cujas mãos guardava o destino dos presentes, estava parado de pernas abertas, observando a aproximação dos recém-chegados. Ele era o único que não lhes olhava diretamente, como se eles não existissem. Interrogando cada um rapidamente e perguntando se havia "Zwillinge" (irmãos gêmeos), meneava um chicote indicando para que lado cada pessoa deveria ir. "Links" significava esquerda e "rechts", direita. Pelo menos dois terços dos recém-chegados, incluindo homens, mulheres e crianças, foram mandados para a esquerda, mas Anka foi para o lado direito.

Ao passar perto do médico, Anka sentiu uma empolgação quase palpável por parte dele, como se o momento de selecionar as espécies de sua última remessa fosse a melhor parte de seu dia. Ao fundo, chamas altas como casas queimavam em duas enormes chaminés. Uma cerca elétrica de arame farpado duplo excluía qualquer possibilidade de fuga. No ar, um cheiro doce e estranho, que por mais que se respirasse pela boca, Anka jamais conseguiria apagar das narinas - nem da memória. Menos de uma hora depois de entrar no que chamou de "o inferno de Dante", lá estava o sempre diligente dr. Mengele a sua frente de novo, dessa vez esperando que ela confessasse que estava esperando um filho.

Evitando contato visual, olhando para baixo em direção as botas dele, que chegavam até o joelho, Anka reparou que brilhavam tanto que ela conseguia ver sua própria nudez refletida ali. Apertando os olhos perante aquela humilhação, ela também sacudiu a cabeça em sinal negativo e respondeu: "Nein". Mengele suspirou, em aparente exasperação, e seguiu adiante.

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"Guten morgen hübsche dame, sind sie schwanger?" (Bom dia, moca bonita, você está grávida?)

Rachel Friedman ouviu uma pergunta parecida no outono de 1944, quando Mengele deu aquele sorriso que parecia reservado as mulheres raspadas e nuas enfileiradas diante dele como manequins em Auschwitz II-Birkenau.

Rachel, sem saber o que dizer nem para onde olhar, manteve a cabeça baixa. À sua volta, centenas de mulheres na mesma situação, todas obrigadas a esperar de pé, por horas, em campo aberto. Como todas elas, afligia-lhe estar despida na frente de tantas pessoas desconhecidas. Com 25 anos, sentiu-se repentinamente grata pelo fato de o marido Monik não ter sido transportado com ela do gueto em que moravam na Polônia ocupada. Ele não veria sua humilhação.

Como Priska Lowenbeinova - uma dos milhares de mulheres com o mesmo destino -, Rachel tinha apenas alguns segundos para decidir o que responder ao oficial nazista antes que ele indicasse, com um rápido gesto de mão, se ela viveria ou morreria. Ela nem tinha certeza absoluta de que estava grávida de Monik - e, se estivesse, seria de poucas semanas. Além disso, não tinha a mínima ideia do que significaria responder que sim.

Chegara a ouvir historias terríveis do que acontecia nos campos nazistas, mas não conseguia acreditar que fosse verdade. E, por mais absurdos que fossem os rumores, ninguém mencionava o nome do dr. Mengele, o destino das mulheres grávidas sob sua supervisão ou as experiências médicas brutais realizadas com crianças - principalmente gêmeos. Isso viria à tona mais tarde.

A única coisa que Rachel sabia, ao observar o médico vestido de forma impecável examinando pessoalmente diversas prisioneiras, era que seu sorriso não correspondia a seu olhar. Aliás, toda a sua conduta era a de um fazendeiro diligente examinando seu gado, sem nenhum escrúpulo. Manuseava os seios das mulheres, avaliando seu físico e gerando grande constrangimento.

Com os coturnos lustrados e o uniforme engomado, apresentava todas as características de um homem disciplinado e metódico. Embora alguns dos nazistas que vagavam pelo perímetro da lamacenta área de chamada parecessem estar bêbados ou coisa pior, Mengele não precisava anestesiar seus sentidos. Pelo contrário, ele parecia gostar do trabalho. Passava assobiando pelas filas de prisioneiras, parando somente para dar ordens as que trajavam uma espécie de pijama listrado.

Qualquer mulher visivelmente grávida ou exposta pelo leite que pingava de seus seios quando apertados eram levadas dali por aqueles homens de expressão impassível. O semblante das mulheres era tudo menos impassível. O medo em seus olhos ao serem agrupadas num canto foi suficiente para convencer Rachel da resposta.

Quando Mengele lhe fez a pergunta, agitando a luva, impaciente, para a esquerda e para a direita, ela tapou os seios com as mãos e respondeu calmamente: "Nie".

Mengele não encostou um dedo na mulher gravida à sua frente. Ao dirigir-se a próxima vitima, não olhou mais para Rachel Friedman.

*

OS BEBÊS DE AUSCHWITZ
AUTOR Wendy Holden
EDITORA Globo Livros
QUANTO R$ 33,90 (preço promocional*)

* Atenção: Preço válido por tempo limitado ou enquanto durarem os estoques.

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