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28/02/2016 - 20h01

'O Nobre Deputado' revela artimanhas de políticos corruptos; saiba mais

da Livraria da Folha

Divulgação
Livro é narrado pelo nobre deputado Cândido Peçanha, uma personificação do que o autor viu e ouviu na carreira política
Livro é narrado pelo nobre deputado Cândido Peçanha, uma personificação do que o autor viu e ouviu na carreira política

Em "O Nobre Deputado", o juiz Márlon Reis, idealizador do projeto da Lei da Ficha Limpa, conta como um corrupto nasce, cresce e se reproduz na política brasileira.

O livro é dividido em duas partes: na primeira, o autor explica de onde vem o dinheiro. Na segunda, revela como alguns políticos conseguem converter esse dinheiro em votos.

'O número de políticos que têm uma liderança real é irrelevante', escreve juiz

"Você sabia que o resultado de qualquer eleição no Brasil já está definido muito antes do encerramento da votação? Antes até da abertura das urnas? Isso nos faz pensar que a vontade do eleitor não vale muito no processo. O que conta é a quantidade de dinheiro arrecadado para a campanha vencedora, que usa a verba num esquema infalível de compra de votos. Arrecadou mais, pagou mais. Pagou mais, levou. Simples assim", consta na sinopse do livro.

"O Nobre Deputado" é narrado por Cândido Peçanha, uma personificação de tudo aquilo que o autor viu e ouviu na carreira política.

Abaixo, leia um trecho sobre a compra de votos em seções eleitorais.

*

O mito do voto secreto

Encerrada a votação, o candidato pode vencer ou perder. Independentemente desse resultado, ele vai cobrar a lealdade daqueles que deveriam ter votado nele.

Como fazer isso? Você pode argumentar que, com o sigilo do voto, não dá para exigir do eleitor que entregue o voto comprado. Você anda confiando demais na propaganda do TSE. Valendo-se de algumas artimanhas, é possível rastrear os votos empenhados.

Algumas seções têm 150, 200, 250, 400 eleitores. No máximo. Nesse bairro ou povoado, todos conhecem todos pelo nome e sobrenome. Os pais e irmãos de cada morador são conhecidos em toda a comunidade.

Então, como o líder comunitário acertou uma dada quantidade de votos, essa votação terá que aparecer. Se não aparecer, haverá problema para os moradores.

Assim, o eleitor decide não arriscar. Se ele votar em quem o líder está pedindo, pode vir a conseguir algum benefício pessoal no futuro. Mas, se traí-lo, corre o risco de ser descoberto. Aí, além de perder qualquer vantagem, pode sofrer represálias.

Além do mais, uma parte enorme do eleitorado acredita que dá para saber em quem ele votou. É gente inocente induzida a pensar que é impressa uma marca pessoal na urna eletrônica - e que essa marca pode cair nas mãos de gente do partido. A primeira coisa que o cabo eleitoral faz é anotar o número do seu título. A segunda é dizer: "Olha, eu vou lá à seção eleitoral para saber se esse voto apareceu."

O eleitor fica receoso e calcula: "Se não aparecer nenhum voto na urna para esse candidato, saberão que eu não votei." Então, pelo menos na sua cabeça, ele perderá o acesso àquela pessoa capaz de resolver seus problemas emergenciais.

A tática é mais valiosa ainda quando aplicada no atacado. Digamos que dez pessoas da mesma família votem na mesma seção. Deixamos claro que exigiremos todos os dez votos naquela urna. Cada um fica com medo pelo destino dos outros. Os laços familiares são os mais fortes que existem - as pessoas preferem trair sua consciência a prejudicar um ente querido. Então todos esses votos estão praticamente no bolso.

O pagamento a posteriori funciona que é uma maravilha. Dizemos a um certo número de eleitores que eles só receberão seu pagamento depois que tivermos verificado se todos honraram o compromisso. Eles não apenas votam como ficam de olho para que todos os outros façam o mesmo. Ficam com medo de que algum dos demais traia o combinado e todos se prejudiquem. Alguns até convencem outras pessoas a colaborar conosco, para cobrir o prejuízo de um eventual traidor.

Outra prática que não foi aposentada até hoje é dar uma parte de um artigo ao eleitor e prometer a peça faltante para depois da eleição. Tem gente que recebe um pé de sapato, uma panela de pressão sem tampa ou uma bicicleta sem rodas com o compromisso de, em caso de vitória do candidato - muita ênfase nesta parte -, conseguir o outro pedaço. É cruel, eu sei. Mas acontece, e muito frequentemente, em todo o Brasil. Se você pensa que isso é coisa do passado, só posso dizer uma coisa: você perdeu!

Digo a você que em plena Serra Gaúcha, região próspera e civilizada, isso ocorre. Houve um prefeito naquela região que fez campanha distribuindo cédulas de R$ 50 cortadas ao meio. A outra metade do dinheiro foi entregue após o pleito. Acabou eleito com uma larga margem - não dá para não aceitar o fato de que o sujeito foi muito engenhoso.

O voto não é sigiloso no Brasil, pois há muitas formas de monitorá-lo. E todo o esquema de compra de votos funciona justamente por causa dessa possibilidade de controle.

Uma vez que o eleitor assumiu o compromisso de dar o voto para um candidato, basta verificar se ele compareceu, o que é fácil de fazer. Aí é só checar se o candidato foi votado naquela urna. Simples, não?

Imagine as sessões instaladas nas comunidades do interior, em povoados ou distritos. Às vezes elas reúnem menos de 400 eleitores. É pouquíssima gente, todo mundo mora ali, e há um líder comunitário monitorando tudo para o candidato. É assim que eu faço. Tenho o monitoramento de tudo. E, por isso, eu sempre venço.

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O NOBRE DEPUTADO
AUTOR Márlon Reis
EDITORA LeYa
QUANTO R$ 25,90 (preço promocional *)

* Atenção: Preço válido por tempo limitado ou enquanto durarem os estoques.

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