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15/02/2016 - 13h13

'Vale-Tudo da Notícia' revela escândalo de grampos e subornos na mídia britânica

da Livraria da Folha

O que você pensaria ao ouvir a notícia de que um editor do jornal britânico "News of the World" invadia caixas postais de telefones atrás de furos sobre a realeza? Provavelmente acharia um absurdo, mas, sejamos sinceros: a notícia não seria tão aterradora assim.

O problema surgiu quando o repórter Nick Davies decidiu investigar os detalhes da história e descobriu uma quantidade absurda de crimes e corrupção que afetava boa parte da imprensa britânica, com ramificações no gabinete do primeiro-ministro e no alto escalão da Scotland Yard.

Divulgação
Livro mostra como o poder de manipular o acesso à informação é uma das mais perigosas moedas da sociedade
Livro mostra como o poder de manipular o acesso à informação é uma das mais perigosas moedas da sociedade

Jornalistas usando prostitutas para extrair segredos dos clientes, detetives revirando o lixo de celebridades e funcionários de hospitais vazando prontuários médicos são apenas alguns dos podres relatados em "Vale-Tudo da Notícia".

Definido pelo repórter Nick Davies como "a história mais estranha" que escreveu, o livro mostra como o poder de manipular o acesso à informação é, atualmente, uma das mais perigosas moedas da sociedade.

"Esta é uma história sobre poder e verdade. Para ser mais preciso, é sobre o abuso de poder e os segredos e mentiras que o protegem [...] Quando uma empresa, sindicato, o governo ou qualquer braço do Estado é flagrado violando as regras, pode ser atacado, exposto, constrangido e possivelmente cerceado. Segredos e mentiras não são algo opcional. São peças centrais da estratégia", escreve o autor.

Nick Davies já recebeu diversos prêmios do British Press Awards, além de ter sido agraciado com outras oito honrarias pela cobertura do escândalo das escutas telefônicas. Atua hoje como correspondente especial do "The Guardian".

Abaixo, leia um trecho.

*

De fevereiro de 2008 a julho de 2009

Eu estava sentado em um estúdio da rádio BBC me preparando para vomitar. Queriam que eu falasse sobre um livro que tinha acabado de escrever, Flat Earth News, que tratava da extensão e das origens da falsificação, da deturpação e da propaganda na mídia. Em teoria, eu me sentia contente por estar ali: tinha passado dois anos quebrando a cabeça para produzir o livro, que era lançado naquele momento, em fevereiro de 2008. Aquela era a oportunidade de convencer as pessoas a ler o resultado. Mas só de pensar na entrevista já me sentia sufocado pela ansiedade.

Eu falaria ao vivo no rádio em cadeia nacional. Pior ainda: falaria no programa Today. A rainha ouve o Today, o primeiro-ministro, embaixadores, toda a maldita elite da Grã-Bretanha toma o café da manhã ouvindo o Today. E o que era ruim ficaria péssimo: alguns minutos antes, enquanto eu andava de um lado para o outro fora do estúdio, me preparando para meu purgatório, me avisaram que tinham convidado Stuart Kuttner para debater comigo. Kuttner!!!

Eu não o conhecia pessoalmente, mas já tinha ouvido falar muito dele. Kuttner era uma figura que vivia na sombra - o chefe de redação do News of the World, o jornal de Rupert Murdoch, sempre à espreita, atrás do trono do patrão, o sujeito que guardava os segredos, que resolvia os problemas, que cuidava da parte mais suja do negócio. Impossível não descrever Stuart Kuttner sem usar logo palavras como "durão", "implacável", "um tipo muito desagradável".

A entrevista começou. Controlei os nervos e comecei a falar. Kuttner interveio algumas vezes para informar à nação que eu provavelmente vinha de outro planeta, porque ele com certeza não reconhecia a indústria jornalística descrita por mim. A seguir, falei sobre os "truques obscuros", enumerando os poucos retalhos de informação que eu havia descoberto sobre detetives particulares que por anos haviam trabalhado para a maioria dos jornais ingleses, ajudando-os de forma ilegal a obter furos. Kuttner me interrompeu na hora: "Se isso acontece, não deveria acontecer. Aconteceu uma vez no News of the World. O repórter foi demitido e preso. O editor se demitiu."

É claro que pensei que ele estava mentindo. Ele estava certo quanto ao fato de apenas um jornalista do News of the World ter sido condenado e preso (Clive Goodman, editor responsável pela cobertura da família real), porém nunca fez sentido para mim a ideia de um "solitário repórter picareta". Goodman fora preso um ano antes, em janeiro de 2007, por interceptar as mensagens de voz de três pessoas que trabalhavam no Palácio de Buckingham. O detetive particular que o ajudara, Glenn Mulcaire, tinha sido preso não apenas por invadir as mensagens de voz daquelas três vítimas da casa real, mas também devido a escutas ilegais de mensagens de cinco pessoas que nada tinham a ver com a realeza. O que motivara Mulcaire? Ninguém chegou a sugerir que ele invadira as caixas de mensagens de pessoas de fora da família real a mando do editor. Então quem lhe pediu que o fizesse? Outros repórteres? Editores? Vozes misteriosas em sua mente?

Kuttner se lançou contra mim como uma metralhadora retórica alucinada. O jornalismo britânico, declarou, é "uma profissão muito honrada". Um jornal como o News of the World era na verdade um tipo de vigilante moral, atento a qualquer desvio de comportamento dos poderosos. "Vivemos em uma época de corrosão da política e da vida pública - de degradação", alertou.

E assim, no clímax da discussão, a entrevista foi encerrada. Poderia ter sido o fim da história. Eu não acreditava naquela baboseira de o News of the World ser uma defesa contra a degradação da vida pública, mas meu foco não era o jornal. Eu não o lia e não queria escrever sobre ele. Só me sentia aliviado por estar fora daquele estúdio e feliz por ter podido divulgar meu livro Flat Earth News, que discute sobretudo os jornais mais sérios e as profundas falhas em suas formas de operar. Contudo, Stuart Kuttner tinha acabado de cometer um erro, um erro muito grave: "Aconteceu só uma vez", dissera. Sintonizado nas ondas de rádio em algum lugar, um ouvinte desconhecido, de quem eu nunca tinha ouvido falar, escutara as palavras de Kuttner e ficara tão furioso que resolveu me procurar, o que fez alguns dias depois. "Gostaria de conversar com você. Acho que vai gostar do que tenho a contar", disse.

Passou-me o número do celular, porém alertou para que eu nunca deixasse mensagens de voz.

*

VALE-TUDO DA NOTÍCIA
AUTOR Nick Davies
TRADUTOR Marcelo Levy
EDITORA Intrínseca
QUANTO R$ 43,90 (preço promocional *)
E-BOOK R$ 34,90 *

* Atenção: Preço válido por tempo limitado ou enquanto durarem os estoques.

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