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24/02/2016 - 11h46

Para historiador, colapso da União Soviética foi tudo menos obra dos Estados Unidos

da Livraria da Folha

No Natal de 1991, em um discurso, o presidente norte-americano George H. W. Bush declarou a vitória dos Estados Unidos na Guerra Fria. No mesmo dia, Mikhail Gorbatchov havia renunciado a seu posto de primeiro e último presidente soviético.

Divulgação
Para o historiador Serhii Plokhy, o colapso da União Soviética foi tudo menos obra dos Estados Unidos
De acordo com o historiador Serhii Plokhy, o colapso da União Soviética foi tudo menos obra dos Estados Unidos

A conclusão de que o fim da Guerra Fria estava ligado à desintegração da União Soviética (e ao triunfo do capitalismo sobre o comunismo) teve força na opinião pública norte-americana e persiste desde então, com consequências desastrosas para a situação dos Estados Unidos no mundo. É o que afirma o historiador Serhii Plokhy em "O Último Império".

"O presidente interpretou a renúncia de Mikhail Gorbatchov e a descida da bandeira soviética como uma vitória na guerra que os Estados Unidos haviam travado com o comunismo durante mais de quarenta anos. Além disso, Bush associou o colapso do comunismo ao fim da Guerra Fria e felicitou o povo americano pela vitória dos seus valores. Ele usou a palavra 'vitória' três vezes em três frases consecutivas", escreve.

No livro, ele revela que o colapso da União Soviética foi tudo menos obra dos Estados Unidos. Munido de documentos inéditos e entrevistas, ele apresenta uma interpretação dos últimos meses da União Soviética e argumenta que o colapso veio da incapacidade de as duas maiores repúblicas soviéticas, a Rússia e a Ucrânia, concordarem quanto à continuidade da existência de um Estado Unificado.

"Essa interpretação nova, nascida em plena campanha de Bush pela reeleição, gerou uma narrativa pública influente, se não dominante, do fim da Guerra Fria e da emergência dos Estados Unidos como única superpotência mundial. Essa narrativa, em grande parte mítica, vinculou intimamente o fim da Guerra Fria ao colapso do comunismo e à desintegração da União Soviética", opina.

Abaixo, leia um trecho de "O Último Império".

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Encontro em Moscou

"Summit", em inglês, é o topo de uma montanha. A expressão também tem sido empregada com o sentido de "cúpula" para denotar uma realização suprema, mas só em 1953 entrou para o vocabulário da diplomacia. Nesse ano em que dois valentes alpinistas finalmente conquistaram o Everest, Winston Churchill falou, no parlamento britânico, em certa disposição para a paz "na cúpula das nações". Dois anos depois, a palavra adquiriu popularidade ao ser aplicada a uma reunião de líderes soviéticos e ocidentais em Genebra. A política internacional mundial precisava muito de um nome novo para as reuniões diplomáticas de altíssimo nível, que desde a década de 1930 vinham se tornando uma característica das relações internacionais. "Cúpula" resolvia o problema. Ainda que governantes se reunissem desde tempos imemoriais para discutir relações mútuas, tais encontros eram raros antes das viagens aéreas. O avião não só revolucionou a guerra, como teve o mesmo efeito na diplomacia, que almejava evitar guerra. E assim a diplomacia tomou os céus.

As modernas reuniões de cúpula nasceram em setembro de 1938, quando o premiê britânico Neville Chamberlain foi de avião à Alemanha a fim de tentar convencer Adolf Hitler a não atacar a Tchecoslováquia. Durante a Segunda Guerra Mundial, Winston Churchill e Franklin D. Roosevelt deram um novo impulso à prática da diplomacia pessoal, que ainda não tinha um nome adequado. As cúpulas chegaram ao auge durante a Guerra Fria, quando os encontros de Nikita Kruschev com John F. Kennedy e de Leonid Brejnev com Richard Nixon chamaram a atenção da mídia mundial, mas só no final do conflito os soviéticos adotaram o termo ocidental. Durante o verão de 1991, numa mudança extraordinária e sintomática das transformações políticas e ideológicas ainda maiores em Moscou e em todo o mundo, os jornais soviéticos abandonaram sua expressão predileta, "reunião de altíssimo nível", substituindo-a pela "cúpula" inglesa. Foi uma vitória de Pirro de uma expressão fadada a praticamente desaparecer das relações internacionais na década seguinte.

A "reunião de altíssimo nível" que fez os soviéticos alterarem sua terminologia diplomática estava agendada para 30 e 31 de julho de 1991, e seria realizada pelo quadragésimo primeiro presidente dos Estados Unidos, George Herbert Walker Bush, e o primeiro presidente da União Soviética, Mikhail Sergueievitch Gorbatchov. Embora a cúpula estivesse sendo preparada havia bastante tempo, sua data final foi decidida poucas semanas antes do evento. Até a última hora, as autoridades soviéticas e americanas tiveram dificuldade em alinhavar os derradeiros pormenores do tratado histórico que os dois presidentes firmariam em Moscou. Bush queria fazê-lo o mais depressa possível. Ninguém sabia quanto tempo Gorbatchov ficaria no Kremlin e quanto tempo duraria a oportunidade de chegar a um acordo.

A Casa Branca apresentou o encontro entre Bush e Gorbatchov à imprensa como a primeira cúpula pós-Guerra Fria. O tratado que George H. W. Bush assinaria com Mikhail Gorbatchov destinava-se a lançar as duas superpotências numa nova era de confiança e cooperação mútuas, a começar por questões sensíveis, como as armas nucleares. O START I (sigla em inglês para Strategic Arms Reduction Treaty), um tratado de redução de armas estratégicas, que finalmente ficou pronto para assinatura depois de nove anos de negociações, previa a redução de aproximadamente trinta por cento do arsenal nuclear geral e de até cinquenta por cento dos mísseis intercontinentais soviéticos, quase todos apontados para os Estados Unidos. No tratado de 47 páginas, acompanhado de outras setecentas páginas de protocolos, os dois presidentes concordariam tanto em frear a corrida armamentista quanto em começar a revertê-la.

O confronto entre os dois países mais poderosos do mundo, que, iniciado logo depois da Segunda Guerra Mundial, deixara o planeta à beira de um Armagedom atômico, estava quase chegando ao fim. Com a queda do Muro de Berlim, em novembro de 1989, a reunificação alemã estava em curso, e com a adoção da "doutrina Sinatra" por Mikhail Gorbatchov, que deixava os clientes europeus orientais de Moscou livres para "fazerem à sua maneira" e enfim saírem dos braços do Kremlin, o conflito no núcleo da Guerra Fria estava resolvido. As tropas soviéticas começaram a sair da Alemanha Oriental e de outros países da região, mas os arsenais atômicos não foram efetivamente influenciados por essas mudanças no clima político. O famoso dramaturgo russo Anton Tchekhov já havia observado certa vez que se uma arma aparece no palco no primeiro ato, ela certamente é disparada no ato seguinte. As duas superpotências haviam colocado muitas armas nucleares no palcos mundiais. Cedo ou tarde haveria um segundo ato com outros atores que talvez quisessem dispará-las.

As armas nucleares eram um elemento essencial da Guerra Fria, responsável por suas guinadas mais perigosas e pelas duas superpotências, as primeiras a possuírem armas atômicas, não terem entrado em conflito direto e aberto, sabendo que o risco de aniquilamento nuclear era grande demais. Com uma Alemanha dividida no centro da disputa geopolítica da Guerra Fria, os Estados Unidos, que possuíam a bomba atômica desde o verão de 1945, sentiam-se em segurança frente à preponderância esmagadora das forças convencionais soviéticas na Europa Central e Oriental, ocupadas e logo submetidas ao domínio comunista de Joseph Stalin. Porém, se os americanos se sentiam seguros, os soviéticos nem tanto. Intensificando o esforço para obter a bomba atômica, com o auxílio de segredos tecnológicos roubados dos Estados Unidos em 1949, o bloco oriental conseguiu produzir sua própria arma nuclear.

Agora o mundo tinha duas potências nucleares, e, se a Guerra da Coreia era um indício do que estava por vir, elas estavam em rota de colisão. Cada uma tentava suplantar a outra desenvolvendo uma nova geração de armas atômicas. Na década 1950, os dois países obtiveram a bomba de hidrogênio, muito mais poderosa e mais difícil de controlar que a bomba atômica. Quando os soviéticos puseram o Sputnik em órbita, no outono de 1957, demonstrando que possuíam mísseis capazes de jogar bombas nos Estados Unidos, o mundo entrou numa fase nova e significativamente mais perigosa de rivalidade entre as duas superpotências. Com a morte de Stalin em 1953, seus sucessores se mostraram mais abertos para a possibilidade de diálogo com o Ocidente, mas, entusiasmados com os recentes sucessos alcançados na tecnologia de mísseis (foram os primeiros a porem em órbita um satélite não tripulado e em seguida um tripulado), eles costumavam ser imprevisíveis e, portanto, ainda mais perigosos que seu predecessor.

Sob o comando de Kruschev e Kennedy, as duas potências chegaram à beira de uma guerra nuclear com a instalação de mísseis soviéticos em Cuba em outubro de 1962. A essa altura, a competição soviético-americana se espraiava pelo mundo afora. Tinha começado por causa do destino da Europa Oriental, capturada e nunca mais libertada pelos soviéticos, e avançara para a Ásia quando a China se tornou comunista, em 1949, e a Coreia foi permanentemente dividida alguns anos depois. Na década de 1950, o desmoronamento dos impérios britânico e francês abriu o resto da Ásia e da África para a disputa entre as grandes potências, e, quando Cuba, governada por Fidel Castro, recorreu à assistência militar e à inspiração ideológica da União Soviética, a América Latina se transformou num campo de batalha.

A crise cubana de outubro de 1962 se resolveu com um acordo - os soviéticos concordaram em retirar seus mísseis de Cuba e os americanos, da Turquia -, mas tanto Kennedy quanto Kruschev ficaram abalados com a experiência. Era preciso fazer alguma coisa para reduzir as tensões e o risco de guerra nuclear. Em 1963, os dois chefes de Estado assinaram o primeiro acordo para controlar a corrida armamentista, o Limited Nuclear Test-Ban Treaty, que proibia parcialmente testes nucleares. Esse documento havia sido negociado durante oito anos, e foi um começo muito modesto, mas não deixou de ser um passo na direção certa. Desde então, ao mesmo tempo que continuavam a competir globalmente e a travar guerras "por procuração" em todo o mundo, do Vietnã até Angola, as duas superpotências continuaram negociando para reduzir seus arsenais nucleares, consolando-se com a doutrina de destruição mútua assegurada (MAD, na sigla em inglês), segundo a qual os dois países tinham armas suficientes para se destruírem reciprocamente e, por conseguinte, eram obrigados a negociar, a fim de sobreviverem.

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O ÚLTIMO IMPÉRIO
AUTOR Serhii Plokhy
TRADUTOR Luiz Antônio Oliveira
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