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27/03/2016 - 18h05

Em 'O Pensamento Selvagem', Lévi-Strauss examina a lógica por trás dos mitos

da Livraria da Folha

Claude Lévi-Strauss analisou como poucos os fundamentos racionais do mito. Em "O Pensamento Selvagem", o antropólogo procurou descrever como essa forma de pensar o mundo possui um sistema lógico interno, tão complexo quanto os conceitos científicos.

Utilizando analogia com o bricolage, Lévi-Strauss apresenta um dos conceitos fundamentais para compreender sua teoria: o totemismo. Abaixo, leia trecho.

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A Lógica das Classificações Totêmicas

Reprodução
Lévi-Strauss ministra curso no Collège de France, em 1982
Lévi-Strauss ministra curso no Collège de France, em 1982

Sem dúvida, existe qualquer coisa de paradoxal na idéia de uma lógica cujos temos consistem em sobras e em pedaços, vestígios de processos psicológicos ou históricos e, como tais, desprovidos de necessidade. Contudo, quem diz lógica diz instauração de relações necessárias. Mas como tais relações se estabeleceriam entre termos que nada destina a cumprir essa função? Só se podem encadear proposições de maneira rigorosa, se seus termos foram prévia e inequivocamente definidos. Não nos propusemos, nas páginas anteriores, a impossível tarefa de descobrir as condições de uma necessidade a posteriori?

Mas, em primeiro lugar, essas sobras e pedaços assumem esse caráter apenas aos olhos da história que os produziu e não do ponto de vista da lógica a que servem. É somente em relação ao conteúdo que podem ser chamados heteróclitos, pois, no que concerne a forma, existe entre eles uma analogia que o exemplo do bricolage permitiu definir; essa analogia consiste na incorporação à sua própria forma de uma certa dose de conteúdo que é aproximadamente igual para todos, As imagens significantes do mito, os materiais do bricaleur, são elementos definíveis por um duplo critério: eles serviram, como palavras de um discurso que a reflexão mítica "desmonta", à maneira do bricoleur que cuida das peças de um velho despertador desmontado e eles ainda podem servir para o mesmo uso ou para um uso diferente, por pouco que sejam desviados de sua função primeira.

Em segundo lugar, nem as imagens do mito, nem os materiais do briculeur provêm do puro devir. Esse rigor que parece lhes faltar quando os observamos no momento de seu novo uso possuíram-no outrora, quando faziam pane de outros conjuntos coerentes; e o que é mais, eles o possuem sempre, na medida em que não são materiais brutos mas produtos já elaborados: termos da linguagem ou, no caso do bricolage, termos de um sistema tecnológico, portanto expressões, condensadas de relações necessárias cujos limites repercutirão de diferentes maneiras sobre cada um de seus níveis de utilização. Sua necessidade não é simples e unívoca; ela existe, entretanto, como a invariância de ordem semântica ou estética que caracteriza o grupo de transformações a que se prestam e das que vimos não serem ilimitadas.

Essa lógica trabalha um pouco à maneira do caleidoscópio, instrumento que também contem sobras e pedaços por meio dos quais se realizam arranjos estruturais. Os fragmentos são obtidos num processo de quebra e destruição, em si mesmo contingente, mas sob a condição de que seus produtos ofereçam entre si certas homologias: de tamanho, de vivacidade de cor, de transparência. Eles não tem mais um ser próprio em relação aos objetos manufaturados que falavam uma "linguagem" da qual se tornaram os restos indefiníveis; mas, sob um outro aspecto, devem tê-lo suficientemente para participar de maneira útil da formação de um ser de tipo novo: este consiste em arranjos nos quais, por um jogo de espelhos, os reflexos equivalem a objetos, vale dizer, nos quais signos assumem o lugar de coisas significadas; esses arranjos atualizam possibilidades cujo número, mesmo bastante elevado, não é todavia ilimitado, pois que é função de disposições e equilíbrios realizáveis entre corpos cujo número é por sua vez finito; enfim e sobretudo, esses arranjos engendrados pelo encontro de fatos contingentes (o giro do instrumento pelo observador) e de uma lei (a que preside a construção do caleidoscópio, que corresponde ao elemento invariante dos limites de que falávamos há pouco) projetam modelos de inteligibilidade de algum modo provisórios, pois que cada arranjo se exprime sob a forma de relações rigorosas entre as suas partes e essas relações tem como conteúdo apenas o próprio arranjo, ao qual, na experiência do observador, não corresponde nenhum objeto (se bem que seja possível que, por esse viés, determinadas estruturas objetivas sejam reveladas antes de seu suporte empírico, ao observador que jamais as tenha visto antes. como por exemplo certos tipos de radiolárias e diatoméias).

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O PENSAMENTO SELVAGEM
AUTOR Claude Lévi-Strauss
EDITORA Papirus
QUANTO R$ 62,90 (preço promocional*)

* Atenção: Preço válido por tempo limitado ou enquanto durarem os estoques.

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