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07/03/2016 - 19h05

Leia Mulheres: Movimento feminista ganha livro com relatos para promover sororidade

da Livraria da Folha

Toda mulher já se sentiu insegura na hora de sair sozinha na rua. O risco de ser abordada ou assediada infelizmente é uma realidade, e o medo aumenta quando é tarde da noite e poucas pessoas estão transitando pela rua. Um dia, a jornalista Babi Souza viveu, mais uma vez, essa realidade: precisou caminhar por um caminho escuro até o ponto de ônibus, e percebeu que estava cercada de outras mulheres que também sentiam o mesmo medo que ela.

Divulgação
Através da internet, movimento se espalhou para todo o Brasil e virou símbolo de união feminina e feminismo
Através da internet, movimento se espalhou para todo o Brasil e virou símbolo de união feminina e feminismo

"Antes que o veículo parasse de fato, percebi que todas as passageiras já estavam de pé, agarradas a suas bolsas e prontas para sair correndo, como na largada de uma pista de corrida. Quase pude percebê-las transformando o semblante de cansaço em uma expressão fechada, agressiva, algo que transmitisse um pouco de segurança", afirma.

Foi nesse dia que ela teve a ideia de criar o movimento Vamos Juntas?. A premissa é simples: da próxima vez em que você estiver sozinha, olhe para os lados. Pode ter outra mulher andando na mesma direção. Por que vocês não vão juntas?

No livro, que leva o nome do movimento, ela revela que em pouquíssimo tempo o projeto ganhou milhares de fãs pela internet.

Tudo começou com uma imagem, que foi curtida, comentada e compartilhada "com uma intensidade assustadora". A partir daí, o Vamos Juntas? se espalhou para todo o Brasil, se tornando símbolo de união feminina e feminismo.

"Em duas semanas e meia, chegamos a 100 mil seguidores de todos os cantos do país. Foi um crescimento estrondoso! No momento em que meu telefone não parava mais de tocar e meu perfil no Facebook não me deixava trabalhar de tantas notificações, pressenti que algo incrivelmente interessante estava começando a acontecer. E estava mesmo", escreve no primeiro capítulo.

Publicado pela Galera Record, o livro reúne dados sobre o feminismo e traz relatos de mulheres que aprenderam a enxergar companheiras umas nas outras.

Babi Souza é um dos destaques da seleção Leia Mulheres da Livraria da Folha. Na lista, é possível encontrar outros nomes de peso da literatura clássica e contemporânea, como Patricia Highsmith, Lygia Fagundes Telles, Alice Munro e Zélia Gattai.

Abaixo, leia um trecho.

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Quem está do nosso lado no momento em que a gente mais precisa? Podem ter certeza de que será uma mãe, uma irmã, uma amiga ou, simplesmente, uma mulher como qualquer outra que, independentemente de raça, credo, condição econômica e até mesmo política, se compadece da nossa dor. Nem todo mundo que é mulher é assim, e mesmo quem é assim de um modo geral pode não ser assim todo o tempo. Mas é um fato que as mulheres, nos momentos mais difíceis, exercitam ou adquirem uma cumplicidade com a própria condição feminina.

Acontece que muita gente foi ensinada a acreditar no mito da rivalidade feminina. Trata-se de um mito próprio da ideologia da dominação masculina que se sustenta em mil invenções sobre uma suposta natureza feminina avessa à condição das mulheres como seres capazes de apoiar e ajudar umas às outras. Ora, a manutenção do poder patriarcal precisa que se evitem certos pensamentos e ações que as mulheres possam ter. A união das mulheres é tida nesse contexto como um perigo que se deve evitar.

Não devemos, contudo, com a crítica do mito da rivalidade feminina, criar o mito da mulher naturalmente compadecida. Como se as mulheres não fossem seres humanos iguais a outros quaisquer, que experimentam todos os tipos de afetos, dos mais bonitos, como a compaixão, até os mais odientos e perversos.

É fato que as mulheres foram ensinadas a serem mulheres e que isso envolvia o aprendizado do cuidado, de uma maneira de ser que implicava a proteção do outro. Com os homens formados para caçar, conquistar, dominar, mandar e matar, isso se perdia de vista. As profissões femininas derivaram desses aprendizados reservados às mulheres e dos controles externos para que as mulheres não se aventurassem em nada muito diferente do que se exigia no mundo da casa.

Isso tudo num sistema sexista e machista em que se tentava moldar o caráter de meninos e meninas. Aquilo que hoje chamamos de gênero tem a ver com esses papéis criados para o bem do patriarcado que servia aos homens. E todo mundo sabe aonde isso nos levou.

Ora, as mulheres desenvolveram habilidades relativas ao cuidado, porque foram trancadas dentro de lares e neles aprenderam a proteger maridos e filhos e, sobretudo, a servi-los. Contos de fadas, romances e filmes, narrativas sobre mulheres feitas pelos homens, nos mostram como é fácil criar lendas e fortalecer mistificações sobre o caráter subalterno e submisso das mulheres. Inventou-se por esse caminho a ideologia da mulher sensível e maternal, mas também da megera, da ressentida, da mal-amada.

Esses termos usados ao longo da história para menosprezar e humilhar mulheres serviram sempre para o mesmo objetivo que era separar as mulheres delas mesmas, evitar que estivessem juntas, que se unissem e assim ajudassem umas às outras a entender os jogos de poder nos quais estavam envolvidas. Quando puderam se unir, acabaram fazendo o que deviam e queriam fazer: reinvindicar direitos. Brigaram por espaço, por tempo, por si mesmas.

Quem usa o poder e a dominação sabe muito bem que a união é um perigo político. Todas as vezes na história em que as mulheres se uniram, o mundo mudou. E mudaram o sentido do poder.

Hoje, a luta feminista se dá nas duras esferas do poder, mas também no cotidiano, ali onde é preciso mudar a cultura nas suas estruturas mais sutis nas quais o preconceito avança.

Hoje, o que chamamos de sororidade, o "olhar carinhoso para a mulher ao lado", apresentada de um modo tão convidativo nesse livro, tem tudo a ver com a ação ética - que é também política - de eliminar o jogo de preconceitos lançados com os piores interesses sobre as muheres, muitas vezes esperando que elas mesmas venham a jogá-lo. As mulheres não vão mudar esse estado de coisas que as aviltam, sozinhas. A conquista de si mesmas, da autonomia, da soberania é algo que se pode fazer com as outras. A sororidade é uma prática diária de respeito às outras e de companheirismo em tempos de barbárie por meio da qual se busca uma vida melhor e mais justa para todo mundo.

Marcia Tiburi

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VAMOS JUNTAS?
AUTOR Babi Souza
EDITORA Galera Record
QUANTO R$ 29,70 (preço promocional *)

* Atenção: Preço válido por tempo limitado ou enquanto durarem os estoques.

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