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07/04/2016 - 14h36

Sem levantar bandeiras, autor discute preconceito e misoginia em série folclórica

NILSEN SILVA
da Livraria da Folha

Você provavelmente cresceu ouvindo histórias com criaturas míticas como boitatá, lobisomem, curupira e capelobo. Parte do folclore brasileiro especialmente viva no interior do Brasil, essas lendas foram repassadas de geração para geração e, em muitos casos, serviam para transmitir lições importantes. Em outros, para dar um bom susto nas crianças.

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Autor da série "O Legado Folclórico", Felipe Castilho odeia pessoas que param do lado esquerdo da escada rolante
Autor da série "O Legado Folclórico", Felipe Castilho odeia pessoas que param do lado esquerdo da escada rolante

Considerado por muitos como o precursor da literatura infantil no Brasil, Monteiro Lobato brincou com elementos folclóricos em sua série mais famosa, "Sítio do Pica-Pau Amarelo", que apresenta uma linguagem simples e uma atmosfera que une realidade e fantasia. Outro escritor que ganhou destaque por explorar a cultura brasileira em sua obra foi Câmara Cascudo. Historiador e jornalista apaixonado por tradições populares, foi um dos grandes estudiosos do folclore nacional e tornou as superstições acessíveis para diversos leitores - e escritores.

Um deles é Felipe Castilho. O escritor paulista, que assina a série "O Legado Folclórico", publicada pela editora Gutenberg, cresceu lendo os trabalhos do autor. Hoje, afirma que suas releituras são fonte de inspiração.

Em entrevista à Livraria da Folha, ele explica que sempre se questionou por que ninguém aproveitava a riqueza do folclore brasileiro para criar uma história épica ou totalmente moderna. Foi aí que Felipe decidiu escrever a história que sempre quis ler.

Assim surgiu o primeiro volume da série, "Ouro, Fogo & Megabytes". A coleção, que terá quatro livros, já conta com três lançados. A história gira em torno de Anderson, um garoto tão viciado em um jogo de RPG online que ocupa o segundo lugar no ranking mundial. Por suas habilidades, ele é convidado para participar de uma missão secreta na companhia de um grupo de ecoativistas nada convencionais.

"Eu queria fazer algo que a molecada de hoje em dia achasse bacana, mas que também tivesse uma camada de ficção adulta. É uma história que contém crianças, mas isso não significa que seja infantil, e é de 11 a 110 anos", explica.

A união de história brasileira, linguagem acessível e referências à cultura pop chamou a atenção de alguns professores, que decidiram adotar os livros como opção de leitura nas escolas numa tentativa de estimular o gosto pela leitura entre os alunos. Os livros de "O Legado Folclórico" já foram lidos em escolas de diversos estados, entre eles Rio Grande do Norte, Bahia, Pernambuco, Sergipe, Ceará, Rio de Janeiro, São Paulo, Minas, Santa Catarina e Rio Grande do Sul.

"Nada é melhor do que trabalhar com um livro que o aluno também pediu. Eu entendo a necessidade de ler os clássicos, mas acho que eles são apresentados cedo demais. Isso acaba matando o gosto e a espontaneidade da leitura", opina. Para Felipe, muitos professores já perceberam que uma leitura obrigatória, em muitos casos, provoca o efeito reverso; em vez de instigar o aluno, pode causar desmotivação.

"É gente que leu Harry Potter e sabe a importância de um livro que conversa com o cotidiano para dar um gancho à criançada. Isso faz diferença aos poucos", diz.

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Apaixonado por livros, Felipe Castilho cresceu com lendas folclóricas e decidiu escrever a história que sempre quis ler
Apaixonado por livros, o autor Felipe Castilho cresceu com lendas folclóricas e decidiu escrever a história que sempre quis ler

Com resquícios da cultura africana, indígena e rural, mitos nacionais são fundamentais para entender nosso passado e, de algum modo, o presente. Felipe explica que a discussão sobre o folclore é uma maneira de "enganchar" os jovens no passado e "trazer algo de bacana com isso". Porém, ele diz que é preciso ter cuidado.

"Se usar da maneira correta, não tem resistência, eles não hesitam em falar sobre isso. Mas uma molecada que já está com pensamento avançando, jogando God of War e vendo sangue... não dá para chegar com um negócio fofinho, 'esse é o Saci e ele gosta de dar nó no rabo da égua e azedar o leite da sua mãe'. Acho que é necessário estar na mesma frequência".

Ele também ressalta os benefícios de escrever livros que se passam no Brasil. Nas prateleiras das livrarias, é fácil encontrar histórias ambientadas em grandes cidades do mundo - Nova York, nos Estados Unidos, e Londres, na Inglaterra, são, provavelmente, as mais comuns. São lugares que já moram no imaginário do mundo inteiro, e não é necessário fazer força para construir um cenário.

"Eu sinto que no dia em que eu for pra Londres eu vou chegar e conhecer muita coisa. Mas, se você escrever sobre um local que você conhece, é possível apresentar diversos lugares... tem um benefício turístico até. O André Vianco, por exemplo, fez o Brasil conhecer Osasco", diz.

Embora haja resistência, Felipe acredita que é necessário dar uma chance. "No cinema é sempre Nova York que é destruída. Eles [os jovens] vão ter resistência porque é tudo o que eles veem. A pessoa nunca vai mudar de ideia se ela não der uma chance. O que eu posso fazer é continuar fazendo o que eu faço do jeito certo, escrever bem, e quando alguém estiver disposto... vai funcionar".

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No terceiro livro da série, "Ferro Água & Escuridão", o autor mostra o interior do Sergipe sem demagogia ou falsa visão
No terceiro livro da série, "Ferro Água & Escuridão", o autor mostra o interior do Sergipe sem demagogia ou falsa visão

"Ouro, Fogo & Megabytes", primeiro livro da série, foi ambientado em São Paulo, que o autor chama de cidade sede. Na sequência, "Prata, Terra & Lua Cheia", Anderson visita um mundo imaginário. E no terceiro volume, "Ferro, Água & Escuridão", os personagens vão para o Sergipe - o menor estado, mas que o autor diz ser o lugar com "mais lendas por metro quadrado".

"Eu queria mostrar a força do nordestino. É um lugar maravilhoso, e eu queria misturar isso na literatura fantástica e fazer isso num contexto mais urbano. Eu levei os personagens tanto para a grande Aracaju como para o interior, e pude mostrar o lugar sem demagogia, sem uma falsa visão", explica. Felipe diz que sempre foi muito bem acolhido pelo Nordeste, e que a região foi uma influência muito grande.

Além de incentivar o leitor a entrar em contato com o folclore, o autor não deixa a representatividade de lado. Anderson, o protagonista do livro, é negro e vem de uma família de classe média. Ao longo da história, personagens de outras etnias e grupos sociais também aparecem.

"O protagonista e o antagonista são de classes sociais inversas. O Anderson é de classe média, mas se identifica com a luta do pessoal que é órfão. Do outro lado tem uma megacorporação de um milionário que controla tudo, tem tanta grana que é invisível. Quero mostrar que caráter não é questão de classe social, é questão do que é importante pra você".

Em "Ferro, Água & Escuridão", Felipe observa que conseguiu explorar isso mais a fundo: entre outros temas, o livro fala sobre misoginia. Para ele, é importante promover essas discussões com os leitores. Muitos reproduzem um mau discurso porque aprenderam o machismo em casa.

"Eu não precisei nem fazer força. Tudo convergiu num ponto em que eu pude falar sobre todos esses assuntos. E não é panfletário. Eles têm uma ação, eles têm consequências. Não levanto bandeira nenhuma, só a bandeira de quem não tem voz".

Reprodução
Ilustração de Thiago Cruz para o livro "Ferro, Água & Escuridão", terceiro volume da série "O Legado Folclórico"
Ilustração de Thiago Cruz para o livro "Ferro, Água & Escuridão", terceiro volume da série "O Legado Folclórico"

Assim como os mitos eram respostas para fenômenos da natureza que gerações passadas não sabiam como explicar, Felipe - influenciado por J.K. Rowling, Terry Pratchett, Douglas Adams, Mario Prata e Neil Gaiman - aproveitou para criar em cima do mundo contemporâneo, explicando nossa forma de pensar com lendas e interpretações.

"No terceiro livro eu explico o que aconteceu no cangaço como uma guerra ideológica. Quem dizimou o cangaço foi uma guerra entre gorjalas e cangaceiros. Eu uso os mitos pra explicar algumas coisas, assim como a J.K. Rowling faz. Ela dá a entender que a Segunda Guerra Mundial foi uma briga de bruxos. Eu dou dicas sobre o passado do Brasil. O patrão [Saci] foi um grande responsável pela abolição da escravatura, por exemplo".

Além da série "O Legado Folclórico", Felipe tem novos projetos em andamento. Ele cita um projeto com uma pegada steampunk, outro em parceria com o ilustrador Tainan Rocha - com quem criou a HQ "Imagine Zumbis na Copa" -, um quadrinho infanto-juvenil e até mesmo planos para livros infantis.

Apaixonado por palavras desde a infância, Felipe sempre foi um leitor de histórias de folclore. Incentivado pela mãe, que apresentou mitos egípcios, gregos, nórdicos e, claro, brasileiros, ele diz que sempre enxergou o folclore como parte dessas histórias. "Ela me entregou tudo aquilo como uma série de lendas, e todas elas eram poderosas. Eu acho que depois de um tempo, naturalmente, acabei alimentando a vontade de escrever. A vontade de escrever às vezes é só uma vontade infantil... só depois que a gente alimenta uma vontade de fazer algo grande com isso".

Felipe, pelo jeito, não deixou nenhuma vontade de lado. Deu certo.

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