Saltar para o conteúdo principal
 
12/07/2016 - 10h35

'O Século de Sangue' recorda os conflitos mais sangrentos das últimas décadas; leia trecho

da Livraria da Folha

Divulgação
Entre os conflitos recordados pelo livro estão guerras globais, como a Segunda Guerra Mundial, e embates localizados
Entre os conflitos recordados pelo livro estão guerras globais, como a Segunda Guerra Mundial, e embates localizados

Muita coisa mudou nos últimos cem anos. Além de enormes avanços civilizatórios como a internet, a penicilina e a pílula anticoncepcional, o homem desenvolveu a capacidade de se autodestruir.

Organizado por Emmanuel Hecht e Pierre Servent, "O Século de Sangue" narra 20 dos conflitos mais sangrentos de 1914 até os dias de hoje. Há guerras globais, como a Segunda Guerra Mundial, e embates localizados - todos fundamentais para desenhar o mapa do mundo da forma que ele tem hoje.

Um dos conflitos citados pelos autores é a Guerra Civil Russa, que aconteceu entre 1918 e 1920. O embate, que começou logo após a Revolução de Outubro, envolveu o novo regime e uma oposição armada unida por trás da bandeira branca dos nostálgicos do Império decaído.

"Graças ao 'comunismo de guerra' (terror, propaganda, primeiros gulags...), Lenin e Trotski saem vencedores, ao término de um conflito de três anos que fez centenas de milhares de vítimas e permitiu ao poder soviético fortalecer sua legitimidade. No sangue".

Abaixo, leia um trecho do livro.

*

A Primeira Guerra Mundial: o batismo do século
(1914-1918)
Jean-Yves Le Naour

Eles não queriam isso. Diante da extensão dos sofrimentos, dos milhões de mortos, da ruína das economias e do naufrágio da civilização, os responsáveis europeus protestaram e recusaram-se a endossar a culpa pela catástrofe. Eles não queriam isso, e todos alegaram que foram os outros que quiseram a guerra, que simplesmente foi necessário se defender, responder à agressão e lutar pela sobrevivência num combate sem piedade. Se é justo considerar que nenhum governo procurava a conflagração deliberadamente, é forçoso reconhecer, com Jules Isaac, que "a obsessão da guerra dominava a todos, os rondava" e que cada um atribuía ao outro os projetos de agressão. Numa palavra, os europeus se julgavam "em estado de legítima defesa", e a guerra podia surgir, no clima de tensão do ano de 1914, como uma solução, uma solução terrível e radical, certamente, mas talvez como a melhor das soluções. Já era o bastante! Após uma "breve tempestade", para retomar os termos do chanceler alemão Bethmann-Hollweg, as nuvens se dissipariam, a Europa seria remodelada e a paz reinaria para sempre. "Nós não desejamos a guerra, mas entraremos nela para acabar com ela", prevenia o general Moltke, a quem eram confiadas as rédeas do exército do Reich. Raymond Poincaré lhe respondia que "é possível a um povo ser pacífico apenas sob a condição de estar sempre pronto para a guerra". É com esse tipo de raciocínio que iam estrangular-se uns aos outros, convencidos da legitimidade de sua causa e da malignidade do adversário. Quando o horror se impôs, e a guerra ficou violenta, devorando incansavelmente as vidas e as riquezas do continente, os olhos se abriram, mas não era mais possível recuar. A máquina infernal estava lançada. Ela condicionaria todo o século XX, um século de ferro e de sangue levado às fontes batismais das trincheiras de Champagne, de Verdun e de outros lugares. Não, os dirigentes provavelmente não queriam uma tal tragédia, mas não quiseram a paz o suficiente.

-

Por quê?

Milhares de obras se dedicaram às causas da Grande Guerra, e, no entanto, estas continuam enigmáticas e escapam às tentativas de análise. Se a Segunda Guerra Mundial é simples de compreender, com a responsabilidade evidente do nazismo e do expansionismo hitlerista, sua predecessora é complexa, e mesmo incompreensível. É verdade que, durante muito tempo, ao mergulhar nas origens do drama, os próprios historiadores não quiseram compreender, mas somente identificar responsáveis. Fazer a pergunta nesses termos equivalia inevitavelmente a responder apontando a culpa da Alemanha para os franceses, e dos russos para os alemães. O artigo 231 do Tratado de Versalhes1 fazia naturalmente de Berlim o berço do mal, mas essa afirmação nacionalista originária de uma paz de vencedores não tinha sentido histórico. E a Sérvia, que usou de todos os meios para provocar a Áustria, visando a desintegração do império dos Habsburgos? E a Áustria, que usou o atentado de Sarajevo como pretexto para liquidar seu insuportável vizinho eslavo, arriscando arrastar todas as potências a um incêndio que os cérebros fervilhantes acreditavam limitar-se aos Bálcãs? E a Rússia, que tomou para si a responsabilidade de mobilizar-se para apoiar a Sérvia, provocando com isso a mobilização da Alemanha para socorrer seu aliado austro-húngaro? E a França, que nada fez para reter a Rússia, dando a impressão de que apoiava suas decisões mais brutais? É claro que a Alemanha teve sua parte de culpa, e esta foi determinante. Após ter dissuadido a Áustria, que já em 1913 queria acertar contas com a Sérvia - "Os senhores fazem barulho demais com o meu sabre", respondera Guilherme II aos diplomatas austríacos -, Berlim deu carta branca a Viena em julho de 1914 para acabar de uma vez por todas com a agitação sérvia que ameaçava o Império de desagregação. O Kaiser não imaginava que uma guerra europeia poderia acontecer: ele acreditava que a Tríplice Entente recuaria no último momento, e, com essa convicção, jogava dados com a paz.

O sistema de blocos de aliança - Tríplice Entente contra a Tríplice Aliança - era então apontado como a engrenagem fatal que engolia todas as potências quando uma delas se envolvia no conflito. Mas essa explicação não se sustenta: essa mecânica dos blocos, que espíritos preguiçosos identificam como a causa da guerra, é antes uma consequência do que um fator desencadeador. Na verdade, desde 1908, por várias vezes essa engrenagem pôde ser interrompida. Todas as crises que precederam a de 1914 foram resolvidas pacificamente. Na realidade, a questão é: por que, em 1914, não se quis evitar o confronto? A escolha da guerra foi feita, com ou sem conhecimento de causa, mas foi uma escolha. Ninguém, exceto os britânicos, acreditava na possibilidade de salvar a paz, e ninguém, com exceção de Londres, mexeu uma palha para achar uma solução. Também não há, aí, fatalidade, obrigatoriedade, ou ainda destino inevitável; são simplesmente escolhas assumidas, mas que, diante da precipitação dos acontecimentos, davam a impressão de que eram arrancadas aos dirigentes. Estes, por sua vez, não controlavam mais as forças que haviam desencadeado, as quais, finalmente, eram incapazes de dominar. Guilherme II, o fanfarrão, caiu na própria armadilha, os militares substituíam os diplomatas, estava aberta a caixa de Pandora.

Todas as demais considerações sobre as origens do conflito também são insatisfatórias. A Alsácia-Lorena? Na verdade, os franceses não pensavam mais nisso antes que o confronto fizesse ressurgir naturalmente a velha ferida. A competição colonial? Mas essa tinha oposto de início a França à Grã-Bretanha! O confronto das ambições econômicas na era do capitalismo imperial? Mas isso seria esquecer que os liberais pregavam a paz como mais lucrativa para os negócios e para o câmbio. Finalmente, os fatores objetivos são insuficientes para compreender como a Europa se jogou na fornalha entre 28 de julho e 4 de agosto de 1914. Talvez seja conveniente evocar fatores subjetivos, raramente destacados pelos historiadores, em particular um clima de medo sufocante, de suspeição mútua, à luz do qual são interpretados os menores fatos e gestos dos vizinhos temíveis. Quando a França decide alongar de dois para três anos a duração de seu serviço militar em 1913, é porque está aterrorizada pela Alemanha, que conta com 25 milhões de habitantes a mais. Ora, Berlim vê nessa medida a prova de que a França prepara a guerra, o que reforça pouco a pouco a ideia de que o conflito é inevitável. Foi esse sentimento de fatalidade, progressivamente construído de 1911 a 1914, que tornou a guerra irresistível.

A grande ilusão

A guerra? No fundo, os contemporâneos não sabiam o que era. Havia mais de quarenta anos de paz armada entre as grandes potências, ninguém imaginava a violência de um conflito na era industrial. Uma grande ilusão preside assim a mobilização: de todos os lados acredita-se numa guerra curta, dura e brutal, sem dúvida, mas que não deveria passar de três a seis meses. Além desse prazo, todos os especialistas, civis e militares, concordam em considerar que significaria a ruína total dos beligerantes, perspectiva apocalíptica julgada inconcebível. Haverá, então, uma ou duas grandes batalhas, formidáveis choques frontais que decidirão o resultado do conflito. Parte-se simplesmente do modelo da guerra heroica do século XIX, os generais sonhando com as furiosas cargas de cavalaria com o sabre desembainhado, e soldados da infantaria armados de baionetas. "Deem-me 700 mil homens e eu dou uma volta na Europa", dizia então o general de Castelneau, quando a Escola de Guerra pregava a estratégia da ofensiva intensa, do ataque permanente que impõe sua vontade ao adversário, do impulso corajoso que faz prevalecer o valor moral sobre o valor material. Acreditando que a guerra é vencida pelas pernas dos soldados, os estrategistas franceses, que continuavam a se maravilhar com a narrativa das campanhas napoleônicas, têm simplesmente um século de atraso. Entretanto, as guerras da Crimeia, de Secessão e de 1870-1871 já anunciavam essa nova era industrial de guerra baseada na técnica, aliada à rapidez crescente dos deslocamentos. Os estrategistas franceses, levianos demais, confiantes demais, vão logo descobrir a potência do fogo, a da artilharia em geral e a da artilharia pesada em particular, capaz de imobilizar um exército muitos quilômetros antes de chegar ao campo de batalha. Toda a coragem do mundo é inoperante contra o fogo industrial. Os soldados de infantaria franceses, lançados para a frente, serão sacrificados inutilmente, antes que o comando compreenda a ineficácia de suas posições. Mais 350 mil soldados franceses morrem assim a partir de 1914.

*

O SÉCULO DE SANGUE
ORGANIZADOR Emmanuel Hecht e Pierre Servent
TRADUTOR Angela M. S. Corrêa
EDITORA Contexto
QUANTO R$ 45,90 (preço promocional*)

* Atenção: Preço válido por tempo limitado ou enquanto durarem os estoques.

-

 
Voltar ao topo da página