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16/03/2018 - 09h01

Físico investiga mistérios da natureza do tempo em livro

da Livraria da Folha

Divulgação
Físico italiano procura mostrar como percepção do tempo é relativa e depende mais da perspectiva do que do universo físico
Autor procura mostrar como percepção do tempo é relativa e depende mais da perspectiva do que do universo físico

A realidade não costuma ser o que parece, escreve o físico Carlo Rovelli em "A Ordem do Tempo".

A Terra parece plana, mas é esférica e o Sol parece se mover no céu, mas somos nós que giramos, ele continua no livro publicado pela editora Objetiva.

A ideia abre caminho para ele revelar algo que descobriu nos livros de física quando estava na universidade. A estrutura do tempo também não é o que parece.

Escrito em um tom poético, o livro investiga os mistérios do tempo buscando responder a uma série de perguntas como por que nos lembramos do passado e não do futuro? O que significa o "fluxo" do tempo? Nós existimos no tempo ou o tempo existe dentro de nós?

Unindo ideias da filosofia, ciência e literatura, Carlo aponta que embora pensemos no tempo como uniforme e universal, movendo-se continuamente do passado para o futuro e medido por relógios, a percepção de fluxo temporal depende da nossa perspectiva, da estrutura do nosso cérebro e das nossas emoções, mais do que do universo físico.

Físico teórico e membro do Instituto Universitário Francês e da Academia Internacional de Filosofia da Ciência, Carlo Rovelli nasceu na Itália e é especialista no estudo da gravidade quântica. Leciona na Universidade de Pittsburgh, mora na França e é autor dos livros "Sete Breves Lições de Física" e "A Realidade Não É o que Parece".

Leia abaixo um trecho de "A Ordem do Tempo".

*

Talvez o maior mistério seja o tempo

Até as palavras que agora dizemos
o tempo, em sua voracidade,
já levou embora
e nada retorna
(I, 11)

Paro e não faço nada. Nada acontece. Não penso em nada. Ouço o passar do tempo.

O tempo é isso. Familiar e íntimo. Sua força nos arrasta. A sucessão de segundos, horas e anos nos projeta na vida, depois nos arrasta para o nada Vivemos nele como peixes na água. O que somos, somos no tempo. Sua cantiga alimenta, descortina o mundo, perturba, assusta, acalenta. O universo se transforma levado pelo tempo, segundo a ordem do tempo.

A mitologia hindu representa o fluxo cósmico na imagem do deus Shiva que dança: sua dança sustenta o curso do universo, é a passagem do tempo. O que há de mais universal e evidente que esse curso?

Mas as coisas são mais complicadas. A realidade não costuma ser o que parece: a Terra parece plana, mas é esférica; o Sol parece se mover no céu, mas somos nós que giramos. Da mesma forma, a estrutura do tempo não é o que parece: é diferente do curso uniforme universal. Fiquei espantado ao descobrir isso nos livros de física, na universidade. O funcionamento do tempo é diferente do que parece.

Naqueles mesmos livros descobri também que ainda não sabemos como o tempo funciona de fato. A natureza do tempo talvez continue sendo o maior mistério de todos. Estranhos fios o conectam aos outros grandes mistérios não resolvidos: a natureza da mente, a origem do universo, o destino dos buracos negros, o funcionamento da vida. Mas algo de essencial insiste em nos levar à natureza do tempo.

O fascínio é o que alimenta o nosso desejo de conhecer, e a descoberta de que o tempo não é como pensávamos suscita uma infinidade de perguntas. A natureza do tempo esteve no centro do meu trabalho de pesquisa em física teórica a vida toda. Nas páginas a seguir, falo sobre o que compreendemos do tempo, os caminhos que estamos trilhando para tentar entendê-lo melhor, o que ainda não sabemos e aquilo que penso vislumbrar.

Por que nos lembramos do passado e não do futuro? Somos nós que existimos no tempo ou é o tempo que existe em nós? O que realmente significa dizer que o tempo "passa"? O que liga o tempo à nossa natureza de indivíduos?

O que percebo, quando percebo o passar do tempo?

O livro está dividido em três partes diferentes. Na primeira, resumo o que a física moderna compreendeu sobre o tempo. É como segurar um floco de neve: à medida que o estudamos, ele derrete por entre os dedos até desaparecer. Em geral pensamos o tempo como algo simples, fundamental, que passa uniforme e indiferente a tudo, do passado para o futuro, medido pelos relógios. No decorrer do tempo vemos uma sucessão ordenada dos eventos do universo: passados, presentes, futuros; o passado, estabelecido; o futuro, aberto Bem, tudo isso se revelou falso.

Os aspectos característicos do tempo, um depois do outro, mostraram aproximações, enganos decorrentes da perspectiva, como a planura da Terra ou o movimento circular do Sol. O aumento do conhecimento levou a uma lenta desintegração da noção de tempo. O que denominamos "tempo" é uma complexa coleção de estruturas e de camadas. À medida que o estudo do tempo avançou, essas camadas se perderam, uma depois da outra, um pedaço após o outro. A primeira parte do livro é um relato dessa desintegração do tempo.

A segunda parte descreve o que sobra no fim. Uma paisagem vazia e exposta ao vento, que parece ter perdido qualquer vestígio de temporalidade. Um mundo estranho, desconhecido; mas nosso mundo. É como chegar ao alto da montanha, onde há apenas neve, rochedos e céu. Ou como deve ter sido para Armstrong e Aldrin quando se aventuraram na areia imóvel da Lua. Um mundo essencial que resplandece uma beleza árida, límpida e perturbadora. A física em que trabalho, a gravidade quântica, é o esforço de compreender e dar um sentido coerente a esta paisagem extrema e belíssima: o mundo sem tempo.

A terceira parte do livro é a mais difícil, mas também a mais viva e a que mais se aproxima de nós. No mundo sem tempo, deve existir, porém, algo que depois dê origem ao tempo que conhecemos, com a ordem, o passado diferente do futuro, o fluxo suave. De algum modo, o tempo deve se manifestar ao nosso redor, em nossa escala, através de nós.3

Esta é a viagem de volta, rumo ao tempo perdido na primeira parte do livro em busca da gramática elementar do mundo.

Como num romance policial, vamos atrás do culpado que gerou o tempo. E descobrir cada uma das peças que compõem o tempo que conhecemos, não como estruturas elementares da realidade, mas como aproximações adequadas às criaturas desengonçadas e atrapalhadas que somos nós, mortais, como aspectos da nossa perspectiva, e talvez também aspectos - determinantes - daquilo que somos. Porque no final, possivelmente, o mistério do tempo diz respeito mais ao que somos do que ao cosmos. Talvez, como no primeiro e maior de todos os romances policiais, Édipo rei, de Sófocles, o culpado seja o detetive.

Neste ponto, o livro se torna uma explosão de ideias, às vezes luminosas, às vezes confusas; venham comigo, e levarei vocês até onde, a meu ver, chega o nosso saber atual sobre o tempo, até o grande oceano noturno e estrelado daquilo que ainda não sabemos.

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A ORDEM DO TEMPO
AUTOR Carlo Rovelli
EDITORA Objetiva
QUANTO R$ 34,90 *

* Atenção: Preço válido por tempo limitado ou enquanto durarem os estoques.

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