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28/05/2018 - 12h29

Em livro, narrador deve enfrentar fantasmas do passado político da Argentina

da Livraria da Folha

Divulgação
Jovem escritor precisa lidar com consequências da ditadura militar na Argentina e enfrentar fantasmas do passado
Jovem escritor precisa lidar com consequências da ditadura militar na Argentina e enfrentar fantasmas do passado

Publicado pela editora Todavia, "O Espírito dos Meus Pais Continua a Subir na Chuva" apresenta um relato que cruza vida privada e responsabilidade política, história nacional e lembrança pessoal.

A partir de uma história com tintas autobiográficas, o autor, o argentino Patricio Pron, provoca uma reflexão sobre o passado político do país.

Na trama, um jovem escritor que retorna ao seu país de origem para visitar o pai moribundo inicia uma busca obsessiva por um homem misteriosamente desaparecido.

Quando a verdade se revela, o narrador é forçado a enfrentar fantasmas do passado e lembranças há muito escondidas sobre a história de sua própria família.

Doutor em filologia românica, Patricio Pron morou na Alemanha e vive em Madri, na Espanha, onde escreve para o jornal El Pais.

Foi eleito pela revista "Granta" um dos 22 melhores jovens escritores da língua espanhola, e já publicou romances e coletâneas de contos traduzidos para o inglês, alemão, francês e italiano.

Leia abaixo um trecho de "O Espírito dos Meus Pais Continua a Subir na Chuva".

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Eu pensava que a péssima memória do meu pai era apenas uma desculpa para se livrar dos raros inconvenientes ocasionados por uma vida cotidiana que havia muito tempo ele tinha deixado nas mãos da minha mãe: aniversários, datas festivas, compras domésticas. Se meu pai tivesse uma agenda, eu pensava, cada folha se soltaria no dia seguinte, um objeto incandescente, o tempo todo em chamas, como o diário de um piromaníaco. Eu pensava que tudo era um embuste do meu pai, que era sua forma de se livrar de coisas que por alguma razão eram demais para ele, e entre elas eu incluía eu e meus irmãos, mas também um passado do qual eu mal sabia duas ou três coisas - infância em uma cidade pequena, carreira política interrompida, anos trabalhando em jornais que pareciam esses pugilistas que passam mais tempo caídos na lona do que em pé lutando, um passado político sobre o qual eu achava que não sabia nada e talvez não quisesse saber - que nem de longe explicavam quem era realmente meu pai, o abismo em que tinha caído e como tinha saído dele com a língua de fora e pedindo arrego. Quando falei com minha irmã no hospital, no entanto, me ocorreu que sempre houve algo errado com meu pai e que talvez sua falta de memória não fosse fingida, e também pensei que essa descoberta chegava tarde demais, tarde demais para mim e tarde demais para ele, e que é assim que as coisas sempre acontecem, mesmo que seja triste dizer isso.

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Na realidade, havia mais uma lembrança, embora não fosse exatamente uma lembrança direta, algo que tivesse nascido de uma experiência e se fixado na memória, e sim algo que eu tinha visto na casa dos meus pais, uma fotografia. Nela, eu e meu pai estamos sentados em um pequeno muro de pedra; atrás de nós, um abismo e, um pouco mais adiante, montanhas e colinas que - embora a fotografia fosse em preto e branco - provavelmente eram verdes, vermelhas e marrons. Eu e meu pai estamos sentados no muro da seguinte forma: ele de lado, com os braços cruzados; eu, de costas para o abismo, com as mãos embaixo das coxas. Quem olhar a fotografia com atenção verá que ela tem uma certa intensidade dramática que não deve ser atribuída à paisagem - embora ela seja tão dramática quanto se possa imaginar - e sim à relação entre nós: meu pai olha a paisagem; eu olho para ele, e no meu olhar há um pedido muito específico: que ele preste atenção em mim, que me faça descer desse muro onde minhas pernas balançam sem tocar o chão e que para mim parece - um exagero inevitável, já que sou só um menino - que vai cair a qualquer momento e me arrastar com ele para o abismo. Na fotografia, meu pai não olha para mim, não repara sequer no fato de que estou olhando para ele e na súplica que só consigo expressar dessa maneira, como se nós dois estivéssemos condenados a não nos entender, a nem sequer conseguir enxergar um ao outro. Na fotografia, meu pai tem o mesmo cabelo que eu terei um dia, o mesmo torso que terei no futuro, agora, quando eu for mais velho do que ele era quando alguém - minha mãe, provavelmente - tirou essa fotografia enquanto subíamos uma montanha de cujo nome não me lembro. Talvez naquele momento, enquanto eu pensava nele em um avião, ele estivesse sentindo de mim o medo que eu tive naquele dia em uma montanha da província de La Rioja, por volta de 1983 ou 1984. Enquanto eu viajava naquele avião de volta a um país que meu pai quis que fosse também o meu - e que para mim era igual àquele abismo diante do qual nós dois posávamos em uma fotografia sem conseguirmos nos entender -, eu não sabia ainda, no entanto, que meu pai conhecia o medo muito melhor do que eu pensava, que meu pai tinha vivido com ele e lutado contra ele e, como todo mundo, tinha perdido essa batalha de uma guerra silenciosa, que foi sua e de toda a sua geração.

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Eu não voltava a esse país havia oito anos, mas, quando o avião pousou no aeroporto e nos cuspiu para fora, tive a impressão de que fazia mais tempo que não andava por lá. Uma vez descobri que os minutos que a gente passa em uma montanha-russa ou em alguma diversão desse tipo são, na nossa percepção, mais longos dos que os minutos que a gente passa lá embaixo olhando as pessoas que gritam agarradas a um carrinho de metal, e naquele momento tive a impressão de que o país tinha entrado em uma montanha-russa e continuava dando voltas de cabeça para baixo, como se o operador da máquina tivesse enlouquecido ou estivesse no horário de almoço. Vi jovens velhos, que vestiam roupa nova e velha ao mesmo tempo, vi um tapete azul que parecia novo mas que já estava sujo e gasto nos lugares onde as pessoas pisavam, vi cabines com vidros amarelados e policiais jovens mas velhos que olhavam os passaportes com desconfiança e às vezes os carimbavam e às vezes não; até o meu passaporte já parecia velho e, quando ele foi devolvido, tive a impressão de que me entregavam uma planta morta, que já não tinha qualquer chance de voltar à vida; vi uma jovem que usava minissaia e entregava a quem passava um biscoito com doce de leite, e quase dava para ver a poeira dos anos pousada em cima desse biscoito e desse doce. Ela me disse: Quer provar um biscoitinho? E eu fiz que não com a cabeça e me afastei praticamente correndo em direção à saída. Quando saí, tive a impressão de ver passar ao meu lado a caricatura obesa e envelhecida de um jogador de futebol, e tive a impressão de que dezenas de fotógrafos e jornalistas o perseguiam e que o jogador usava uma camiseta com uma fotografia dele mesmo em outra época, uma fotografia que aparecia monstruosamente desfigurada pela pança do jogador e exibia uma perna exageradamente grande, um torso curvo e esticado e uma mão enorme, que batia em uma bola para fazer um gol em uma Copa do Mundo qualquer, um dia qualquer em alguma primavera do passado.

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O ESPIRITO DOS MEUS PAIS CONTINUA A SUBIR NA CHUVA
AUTOR Patricio Pron
EDITORA Todavia
QUANTO R$ 42,90 (preço promocional*)

* Atenção: Preço válido por tempo limitado ou enquanto durarem os estoques.

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