Saltar para o conteúdo principal
 
07/07/2018 - 12h01

Leia trecho do romance "O Pai da Menina Morta"

da Livraria da Folha

Em "O Pai da Menina Morta", um narrador sem nome faz um relato do vazio após a morte súbita de sua filha, uma menina de oito anos, inteligente e amorosa.

No romance de Tiago Ferro, publicado pela editora Todavia, acompanhamos os ecos dessa devastação na família e círculo de amigos dos pais.

O livro foi escrito a partir de uma tragédia vivenciada pelo autor em 2016 - sua filha de oito anos morreu em decorrência de uma miocardite - inflamação no músculo do coração capaz de causar uma parada cardíaca.

Além da experiência do luto, a obra trata de temas como autoimagem, sexualidade, humor, confissão, memória e fabulação.

Leia abaixo um trecho do livro "O Pai da Menina Morta".

Divulgação
Autor viveu tragédia semelhante a do narrador do livro; romance fala sobre temas como autoimagem e memória
Autor viveu tragédia semelhante a do narrador do livro; romance fala sobre temas como autoimagem e memória

*

[ madrugada de quarta para quinta-feira. pronome de tratamento: você. morte. ]

Você liga para o seu pai do corredor do Instituto da Criança. A sua filha está sendo atendida por uma equipe com mais de cinco pessoas, entre médicos e assistentes. Um deles fica exclusivamente aplicando massagem cardíaca. Um outro fala para ele como estão as medições de frequência do coração e pulmonar. É a segunda vez que injetam adrenalina com uma seringa enorme no joelho direito dela. A seringa fica ali espetada. Quando o médico interrompe a massagem, o sinal sonoro de uma das máquinas se faz constante e a linha no monitor com altos e baixos fica reta como a do horizonte. Ele parece precisar de dois ou três segundos para processar essas mensagens e retomar o esforço que restabelece o som entrecortado por silêncios e o traço irregular na cor verde que atravessa o fundo preto.

Pai, vem pra cá já. A Minha Filha tá morrendo.

Na ponta do corredor a Lina carrega a sua outra filha no colo enquanto berra desesperada. No! Dios no! Da sala vizinha onde estão salvando a sua filha sai uma mulher de quarenta anos. Ela fala para você que vai dar tudo certo. Ela está rezando pela sua filha. Você quer acreditar, mas uma estranha resignação já começa a entorpecer os seus sentidos. Você agradece.

A equipe médica deixa você entrar e sair livremente da sala, o que é estranho. Alguma coisa muito séria deve estar acontecendo. Na verdade é tão grave que os protocolos já estão sendo abandonados um a um.

A médica responsável vem até o corredor e fala para você que o procedimento-padrão é tentar a reanimação por até vinte minutos. Mas eles não vão desistir.

Ninguém sabe dizer em qual momento a equipe do hospital amputou os seus dois pés. Você não consegue se mover. Está difícil até mesmo de se equilibrar. A dor é fria e você já não sente o seu corpo. Os dois tocos de perna enterrados no chão emborrachado espalham uma gosma amarela por todo o corredor do hospital. Ninguém mais consegue se aproximar. O cheiro de infecção que sai dos seus ferimentos é nauseante. A mulher da sala ao lado interrompe a reza e vomita em um saco plástico do supermercado Dia. A essa altura ninguém mais naquele prédio acredita no procedimento-padrão.

Quinze minutos depois, a mesma médica vai te chamar para entrar na sala. Seus pais estão com a sua outra filha lá fora. A médica te instrui a conversar com aquele corpo animado pela massagem cardíaca que nunca para. Para pedir para ela voltar. A Lina entra junto e vocês não se olham. Hija mia! Vamos, filha. Vamos pra casa. Minha voz está saindo? Não, não está. É você deitado nessa maca morrendo. Sua filha está em casa assistindo televisão. Ela não imagina que o câncer já comeu todos os seus órgãos abdominais.

Quarenta minutos depois eles desistem. A menina está morta.

Na entrada do hospício dois enfermeiros com porte físico de cavalos da guarda iraniana arrancam a sua roupa de uma vez. Entregam para você um camisolão branco-sujo e um cobertor xadrez puído e malcheiroso. Agora entra. O seu pai fica dentro do carro estacionado na frente do hospital chorando convulsivamente. A sua outra filha o consola. A sua mãe parece querer dar algum sentido para aquilo tudo perguntando para a equipe médica o que havia acontecido. Afinal, ela estava bem. Por que o coração parou? Qual a causa? Lázaro realmente ressuscitou? Por que Jesus perdeu tempo transformando água em vinho em vez de salvar uma criança? A Lina chora sem parar sentada em uma cadeira de escritório com rodinhas na sala para onde levaram vocês. Ela nunca mais será capaz de pronunciar uma palavra em português. É um cubículo abafado onde os plantonistas dormem depois de ingerir drogas lícitas em quantidades ilícitas. Você volta para a sua filha. Três assistentes estão arrumando os equipamentos, já indiferentes ao corpo estendido de calcinha e camiseta na maca muito branca e brilhante por causa da luz ainda acesa sobre ela. Você toca nela. Ainda está quente. Um fio de sangue seco liga o nariz à boca. O sangue some do seu rosto e do seu corpo. Nada mais liga você a nada. Aguenta firme. Volta para a salinha e fala para a Lina que nada acabou. Faça isso. Não racionalize. Não é hora. De onde você tirou a firmeza para falar essas palavras com tamanha convicção? Estava no roteiro. Você se pergunta se disse realmente essa frase ou não. Mortos não falam. Em três meses ninguém mais vai se lembrar de você.

Agora é preciso ir ao outro prédio assinar alguns papéis. A burocracia não morre. Apareceram amigos e parentes. Como? Alguém ligou. Isso pouco importa agora para você. É madrugada em São Paulo. Responda: cremar ou enterrar?

Você vai para a casa dos seus pais. Não sabe como chegou lá. A sua mãe oferece a você um comprimido verde para ajudar a dormir. A toca do coelho está fechada. Toma. E agora? Vai para a cama. Como se estivesse voltando de uma festa. É a única saída possível. O suicídio nesse momento não é uma boa ideia. Beije as suas filhas e durma. Amanhã você se vira com a ressaca.

Você é um péssimo pai. Deixou a sua filha cair, bater a cabeça, se afogar, ser picada por uma cobra venenosa.

Você deixou a sua filha sozinha em uma maca fria no Instituto da Criança coberta com um lençol de solteiro branco.

*

O PAI DA MENINA MORTA
AUTOR Tiago Ferro
EDITORA Todavia
QUANTO R$ 42,90 (preço promocional*)

* Atenção: Preço válido por tempo limitado ou enquanto durarem os estoques.

-

 
Voltar ao topo da página