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06/07/2018 - 09h01

Em romance autobiográfico escritor revê passado marcado por violência

da Livraria da Folha

Divulgação
Em romance autobiográfico, escritor revê cenas de violência homofóbica e machista que teve de encarar na infância
Em romance autobiográfico, escritor revê cenas de violência homofóbica e machista que teve de encarar na infância

Considerado uma das vozes mais proeminentes da literatura francesa, Édouard Louis revisita seu passado em "O Fim de Eddy".

No romance publicado pelo selo Tusquets, da editora Planeta, Eddy Bellegueule é um garoto que tenta a todo custo se fazer de durão.

O objetivo é se encaixar, fazer parte de uma pequena comunidade na França nos anos 1990, onde imperam expressões de machismo, racismo e homofobia.

A frase de abertura do livro dá a tônica do que está por vir. "De minha infância não guardo nenhuma lembrança feliz", afirma o narrador-personagem.

A violência que o rapaz tem que enfrentar se contrapõe com o despertar de sua sexualidade e comportamento sensível.

Além de ter sido traduzido para mais de 20 idiomas, o livro deu origem a "Marvin", longa francês dirigido por Anne Fontaine e vencedor do Queer Lion, do Festival de Veneza.

Nascido em 1992, na vila operária de Hallencourt, no norte da França, Édouard Louis é formado pela École des Hautes Études en Sciences Sociales. Sua obra lida com temas como sexualidade, sistema de classes sociais e todas as formas de violência.

Leia abaixo um trecho de "O Fim de Eddy".

*

Encontro

De minha infância não guardo nenhuma lembrança feliz. Com isso não quero dizer que eu nunca tenha, durante aqueles anos, experimentado um sentimento de felicidade ou alegria. Mas o sofrimento é simplesmente totalitário: ele faz com que tudo que não se enquadra no seu sistema desapareça.

No corredor apareceram dois garotos, o primeiro deles grande de cabelos ruivos, e o outro, pequeno com os ombros caídos. O grande e ruivo escarrou Toma essa na tua cara.

O escarro desceu lentamente pelo meu rosto, amarelo e espesso, como esses catarros ruidosos que obstruem a garganta dos idosos ou doentes, de cheiro forte e nauseabundos. As risadas agudas, estridentes dos dois garotos Olha lá pegou a cara toda do filho da puta. O catarro escorre do meu olho até os meus lábios, quase entrando na minha boca. Não ouso limpar. Eu poderia fazer isso, bastaria uma esfregada da manga. Bastaria uma fração de segundo, um gesto minúsculo para que o escarro não entrasse em contato com meus lábios, mas eu não o faço, por medo de que eles se ofendam, por medo de que eles se irritem ainda mais.

  • * * *

Eu não imaginava que eles fariam isso. Não que a violência me fosse estranha, longe disso. Eu havia, desde sempre, tão longe quanto chega minha lembrança, visto meu pai brigar, na saída do café, com outros homens bêbados, quebrar-lhes o nariz ou os dentes. Homens que haviam olhado para minha mãe de forma insistente demais e que meu pai, dominado pelo álcool, fulminava, quem você pensa que é para olhar minha mulher desse jeito, seu filho da puta de merda? Minha mãe tentava acalmá-los, fica calmo, querido, fica calmo, mas seus protestos eram ignorados. Os companheiros do meu pai, em um determinado momento, terminavam necessariamente por intervir, essa era a regra, isso também era ser um amigo de verdade, um bom companheiro, lançando-se à batalha para separar meu pai do outro, vítima de sua bebedeira, com o rosto a essa altura já coberto de feridas. Eu via meu pai, quando nossos gatos davam cria, enfiar os gatinhos recém-nascidos numa sacola de supermercado e bater a sacola contra uma mureta de concreto até ela ficar cheia de sangue e os miados cessarem. Eu o havia visto degolar porcos no jardim, beber o sangue ainda quente que ele extraía para fazer chouriço (o sangue nos seus lábios, no seu queixo, na sua camiseta), Isto é a melhor parte, quando o sangue acaba de sair do bicho estrebuchando. Os gritos do porco agonizante quando meu pai lhe cortava a traqueia se ouviam no vilarejo inteiro.

Eu tinha dez anos. Eu era novo na escola. Quando eles apareceram no corredor eles não me conheciam. Eu não sabia nem mesmo seus nomes, o que era incomum no pequeno estabelecimento escolar que mal contava duzentos alunos e onde todo mundo logo aprendia a se conhecer. Seu passo era lento, eles sorriam, eles não transpareciam agressividade alguma, tanto assim que primeiro eu pensei que eles vinham se apresentar. Eu não entendia: por que esses alunos mais velhos vinham falar justo comigo, que era novo? O pátio do recreio funcionava igual a todos no resto do mundo: os grandes não andavam com os pequenos. Minha mãe dizia, falando dos operários, Ninguém se interessa por nós, a arraia-miúda, muito menos os peixes grandes.

No corredor, eles me perguntaram quem eu era, se era eu o tal Bellegueule de quem todo mundo falava. E me fizeram a pergunta que eu em seguida passei a me repetir incansavelmente, por meses, por anos, É você o veado?

Quando a pronunciaram eles a inscreveram em mim para sempre, como um estigma, aquelas marcas que os gregos infligiam a ferro em brasa ou a faca no corpo dos indivíduos desviantes, perigosos para a comunidade. E percebi a impossibilidade de me desfazer desse estigma. Foi a surpresa que me atravessou, mesmo que aquela não fosse a primeira vez que me diziam algo semelhante. A gente nunca se acostuma às ofensas.

Um sentimento de impotência, de perda de equilíbrio. Eu sorri - e a palavra veado ressoava, explodia na minha cabeça, palpitava dentro de mim na frequência dos meus batimentos cardíacos. Eu era magro, eles devem ter considerado que minha capacidade de defesa fosse parca, quase nula. Nessa época meus pais costumavam me chamar de "Esqueleto" e meu pai repetia sem parar as mesmas piadas Dá pra você passar detrás de um cartaz sem descolar ele da parede. No vilarejo, como na minha família, o peso era uma característica valorizada. Meu pai e meus dois irmãos eram obesos, assim como muitas mulheres da família, e se dizia com a boca cheia É melhor não se deixar morrer de fome, taí uma boa doença.

*

O FIM DE EDDY
AUTOR Édouard Louis
EDITORA Planeta
QUANTO R$ 34,90 (preço promocional*)

* Atenção: Preço válido por tempo limitado ou enquanto durarem os estoques.

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