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08/08/2018 - 17h55

'Paris Ocupada' retrata vida intelectual parisiense sob a ocupação nazista

da Livraria da Folha

Divulgação
Autor descreve os tempos de horror na capital francesa, onde ruas, cafés e museus padeciam sob o domínio nazista
Autor descreve os tempos de horror na capital francesa, onde ruas, cafés e museus padeciam sob o domínio nazista

Em setembro de 1939, com a invasão da Polônia por Hitler, começou a Segunda Guerra Mundial. O avanço nazista pela Europa foi veloz e, em junho de 1940, Paris e parte da França foram ocupadas por alemães.

Capital cultural e intelectual do mundo, a Cidade Luz entrou em crise. O governo e boa parte da população francesa capitularam, e outra parte se envolveu no movimento clandestino de resistência. Museus se esvaziaram para proteger as grandes obras de arte dos nazistas. A população conviveu com intervenções políticas, toques de recolher, perseguições a judeus e outras minorias, prisões arbitrárias, violência e medo.

Em "Paris Ocupada", Dan Franck descreve os tempos de horror na capital francesa, onde ruas, cafés e museus padeciam sob o domínio nazista. No livro, ele retrata personagens diversos como traidores e heróis, membros da resistência, artistas, editores que corriam atrás de papel para imprimir livros e escritores que viviam sob a sombra do medo.

Abaixo, leia um trecho do livro.

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3 de setembro de 1939

Agosto de 1939: o mundo entra em pânico. Nas embaixadas e chancelarias, nos palácios presidenciais e ministeriais, portas são batidas diante da guerra iminente. O Acordo de Munique foi ratificado no ano anterior, sem que a tensão entre as nações diminuísse de maneira duradoura. Após invadir a Áustria e o território dos sudetos, Hitler ameaça a Polônia. Em 23 de agosto, para espanto geral, ele assina um pacto de não agressão com Moscou.

No dia 29, Berlim envia um ultimato para Varsóvia: o Reich quer Danzig. A Polônia protesta. O secretário de Estado do Foreign Office, lorde Halifax, comunica-se ininterruptamente com o seu homólogo polonês.

Na França, Édouard Daladier, presidente do Conselho, nomeia o general Weygand comandante das operações no Mediterrâneo oriental e o envia para Beirute.

Em Roma, Benito Mussolini propõe a realização de uma nova Conferência de Munique.

Londres mobiliza seus reservistas do exército regular.

Paris requisita as linhas férreas para futuros transportes de tropas e equipamentos.

Na noite de 30 para 31 de agosto, Joachim von Ribbentrop, ministro das Relações Exteriores do Reich, convoca Sir Henderson, o embaixador britânico em Berlim. Algumas horas depois, o ministro plenipotenciário inglês envia um telegrama desesperado para Londres: a questão polonesa parece sem solução.

Em 31 de agosto, em sua sala da Chancelaria, Hitler envia um aviso confidencial ao comando militar alemão: o ataque contra a Polônia terá início no dia seguinte, às 4h45.

Em 1º de setembro de 1939, na hora marcada, as divisões de infantaria e motorizadas fixam base em Varsóvia.

Em Londres, pela manhã, o exército, a marinha e a força aérea são mobilizados.

Em Paris, o Conselho dos Ministros decreta mobilização geral e declara estado de emergência na França e na Argélia.

No dia seguinte, o primeiro-ministro britânico, Neville Chamberlain, telefona para Édouard Daladier, sugerindo-lhe que a França e a Inglaterra declarem guerra à Alemanha. Paris pede um prazo de 48 horas: o tempo necessário para finalizar a mobilização de suas tropas.

À noite, Henderson recebe a ordem de solicitar novo encontro com o ministro das Relações Exteriores alemão para o dia seguinte, um domingo. Às nove horas, o emissário britânico encontra o porta-voz do ministério. Este recebe o comunicado oficial do governo britânico, transmitindo-o de imediato ao grande chefe do Reich: Londres informa a Berlim que, se em 3 de setembro, às onze horas da manhã, o Führer não tiver se comprometido a retirar as tropas alemãs da Polônia, os dois países entrarão em guerra.

Uma hora após o recado britânico, o sr. Coulondre, embaixador da França em Berlim, manda parar seu carro em frente ao Ministério das Relações Exteriores. Ribbentrop o recebe. O enviado francês traz o ultimato de seu governo, igual ao de Londres. O ministro comunica a resposta sem pestanejar: a Alemanha não vai evacuar a Polônia.

Começa a Segunda Guerra Mundial.

Pacifismos

Três meses e meio depois da declaração de guerra, em Paris, o tribunal militar se reúne nas instalações da segunda câmara correcional para julgar o sr. Henri Jules Louis Jeanson, roteirista, dialogista e jornalista, réu por ter escrito insanidades nas colunas do jornal Solidarité internationale antifasciste. Essa gazeta, fundada pelo anarquista Louis Lecoin, três anos antes fizera campanha a favor do envio de armas para os libertários espanhóis da Federação Anarquista Ibérica (FAI). Aqueles que escrevem em suas páginas são, portanto, duplamente culpados: em 1936, por terem criticado a decisão de não intervenção do governo francês na Espanha; em 1939, por defenderem teses pacifistas em um país em guerra.

A acusação não censura Henri Jeanson por ter escrito os roteiros de Pépé le Moko ou de Hôtel du Nord. O que está em questão é sua pena de jornalista, com a qual traçou palavras inclassificáveis a respeito da autoridade militar encarregada de velar pela segurança nacional. Em tempos de guerra, não se pode escrever impunemente nestes termos ao presidente do Conselho:

Provavelmente incorporam minha modesta pessoa a uma parte do território e não pretendem dispensar meu vulto de soldado de segunda classe das próximas corveias de trincheiras ou dos caprichos do sargento-ajudante da semana.

Mil perdões, meu Daladier.

Essa parte do território que é o meu corpo imperfeito não posso colocar à sua disposição.

Minha mãe me deu sob custódia. Eu vou conservá-la até o meu último suspiro. Meu corpo é meu. Propriedade privada.

Essas linhas valeram a cadeia a Henri Jeanson. Detido em novembro de 1939, foi levado à prisão de la Santé e trancafiado como preso comum.

Transcorrido um mês, defende sua pele de pacifista diante de uma assembleia de adversários repletos de medalhas e estrelas. A acusação leu e assinalou algumas frases escritas no Solidarité internationale antifasciste, no Canard enchaîné e em outros jornais com os quais o réu colabora: "A guerra justifica a existência dos militares suprimindo-os"; "Por que os generais são tão tolos? Porque são recrutados entre os coronéis" etc.

Razão para enfurecer os militares agaloados.

Em sua defesa, Henri Jeanson pode se valer de inúmeros testemunhos, uns mais honrosos que outros: François Mauriac, Joseph Kessel, Tristan Bernard, Louis Jouvet, Arletty... Inúmeros artistas que tomaram a pena - ou a palavra - para defender o amigo, aferrado às próprias convicções: ele é e continuará sendo um pacifista.

A testemunha mais marcial veio com uniforme de capitão: Antoine de Saint-Exupéry. Seu terceiro livro publicado, Terra dos homens, acaba de receber o Grande Prêmio da Academia Francesa: enorme sucesso.

[...]

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PARIS OCUPADA
AUTOR L&PM Editores
EDITORA Dan Franck
QUANTO R$ 43,90 (preço promocional*)

* Atenção: Preço válido por tempo limitado ou enquanto durarem os estoques.

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