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04/08/2018 - 16h18

Como não ser joguete do tempo em 'Sêneca e o Estoicismo'

da Livraria da Folha

Divulgação
Em "Sêneca e o Estoicismo", Paul Veyne analisa os impasses e as contradições que afetaram Sêneca
Em "Sêneca e o Estoicismo", Paul Veyne analisa os impasses e as contradições que afetaram Sêneca

Nascido em Córdoba, cidade da península Ibérica conquistada pelos romanos, Sêneca foi um escritor renomado, homem de negócios bem-sucedido, uma importante figura pública e o maior filósofo do seu tempo.

Em "Sêneca e o Estoicismo" Paul Veyne analisa os impasses e as contradições que afetaram Sêneca, intelectual que foi preceptor de Nero e quase sempre esteve ao lado do poder imperial. No livro, ele também contextualiza a doutrina estoica na história das ideias clássicas.

"Trata-se de uma obra de maturidade, de um Veyne que depurou a escrita, acumulou enorme erudição e aprimorou aquele seu método que recomenda descrever o passado tendo sempre em mente que as vidas dos homens e mulheres sobre as quais os historiadores se debruçam são tão prosaicas e cotidianas quanto as nossas", escreve Jean Marcel Carvalho França no texto de orelha do livro. Ele é autor de "História da Maconha no Brasil".

Abaixo, leia um trecho de "Sêneca e o Estoicismo".

*

A todo instante a existência nos impõe deveres e nos assedia com solicitações ou tentações; irei distrair-me no teatro esta noite? Devo ir ao centro da cidade para um compromisso de cunho exclusivamente social? Não posso entregar isso ao acaso, uma vez que tenho uma tarefa suprema, devendo submeter meus verdadeiros ou supostos deveres ao juízo exclusivo da razão; qualquer tentação é uma ameaça à minha segurança interior e qualquer ação me habitua um pouco mais ao bem ou ao mal. Viver o dia a dia é habituar-se sempre um pouco mais a um estilo de vida não racionalizado, que é o dos "loucos" que todos somos. A nova existência, a do estoico, é objeto de um controle incessante. Como diz Sêneca, "uma infinidade de incidentes sobrevém a todo momento e exige nossa precaução, e é à filosofia que devemos pedir conselho". A condição da felicidade é que a fortaleza interior decrete o estado de sítio permanente.

Texto revelador. Na vida de um estoico, cada minuto tem seu preço; o tempo é precioso não porque é curto e receamos que ele falte (todo minuto representa um ganho, que consiste em ter empregado racionalmente o tempo), mas porque não devemos desperdiçá-lo irrefletidamente. Imaginemos o emprego do tempo de um homem comum, até mesmo honesto, porém que não abraçou o projeto estoico; esse homem terá certo número de tarefas sociais a cumprir; seus deveres de Estado, de pai de família e da vida cotidiana.

No intervalo entre essas tarefas fixas que a existência vulgar lhe impõe, nosso homem está livre e não precisa prestar contas de seu tempo; o percurso de sua vida é obstaculizado, pontualmente, por deveres avulsos, entre os quais o espaço é neutro. Para um estoico, em contrapartida, nenhum intervalo temporal é neutro: se, momentaneamente, ele está ocioso, como se diz, em que deverá racionalmente empregar esse tempo? Tem o direito de descansar, vá lá, mas assim mesmo convém que a razão julgue se tal repouso é de fato necessário. O estoico é comparável a um motorista que não pode despregar os olhos da estrada um só instante, pois a todo momento pode surgir uma placa de sinalização ou algum incidente que ameace sua segurança. O motorista não deve relaxar sua atenção um instante sequer, sua atenção deve ser total. A palavra-chave foi pronunciada: atenção, tensão ou tônus.

A primeira carta a Lucílio tem por finalidade colocar imediatamente o discípulo num estado de atenção que não permitirá um minuto de distração. O tempo não é um fluido gratuito, ela parece dizer; deixá-lo vazar gota a gota irrefletidamente é solapar o princípio de um emprego do tempo planejado. Convém ter "a alma sempre pronta e tensa, como a dos atletas durante os combates de boxe".

Estabelecido o princípio do planejamento, a segunda carta a Lucílio passa a elaborar o emprego do tempo: cumpre diariamente habituar-se à ideia de que a pobreza e a morte não são nada, impregnando-se das leituras que serão feitas nesse sentido. Um minuto perdido é mais que um desperdício de tempo, é um início de desabituação à atenção. Se resolvermos sair para dar um passeio, realizaremos com isso um ato plenamente virtuoso, desde que a decisão tenha sido tomada com "prudência", com discernimento. Não perder tempo significa não mais se permitir ser joguete dos incidentes para, assim, pairar acima do tempo. Podemos suspeitar, sem exagerar na malícia, que um estoico fazia incessantemente três coisas ao mesmo tempo: por exemplo, comia, controlava-se ao comer e transformava isso numa pequena epopeia.

Travamos assim uma "guerra ininterrupta contra o prazer e a Fortuna". Se nos entregássemos um momento ao repouso, "isso significaria um retrocesso e nos colocaríamos em grande perigo". O estoicismo nada tem de uma espera resignada, à la Vigny; é combativo, pois tem o projeto construtivo de adequar o homem ao que a natureza o preparara para ser. A filosofia é uma conduta e não um saber fortuito; ela é essa empreitada, esse novo modo de vida.

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SÊNECA E O ESTOICISMO
AUTOR Paul Veyne
TRADUTOR André Telles
EDITORA Três Estrelas
QUANTO R$ 32,90 (preço promocional *)

* Atenção: Preço válido por tempo limitado ou enquanto durarem os estoques.

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