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06/08/2018 - 12h02

Em livro, Mia Couto narra guerra no sul do Moçambique no fim do século 20

da Livraria da Folha

Primeiro livro da trilogia "As Areias do Imperador", "Mulheres de Cinzas" é um romance histórico sobre a época em que o sul de Moçambique era governado por Ngungunyane, o último dos líderes do Estado de Gaza.

Divulgação
romance histórico sobre a época em que o sul de Moçambique era governado por Ngungunyane, o último dos líderes do Estado de Gaza
Romance histórico sobre a época em que o sul de Moçambique era governado por Ngungunyane, o último dos líderes do Estado de Gaza

Na trama, o sargento português Germano de Melo é enviado ao vilarejo de Nkokolani para a batalha contra o imperador que ameaçava o domínio colonial. Lá ele encontra Imani, uma jovem de 15 anos que aprendeu a língua dos europeus e se torna sua intérprete.

A garota pertence à tribo dos VaChopi, uma das poucas que se opôs à invasão de Ngungunyane. Mas, enquanto um de seus irmãos lutava pela Coroa de Portugal, o outro se unia ao exército dos guerreiros do imperador africano.

Conforme o envolvimento entre Germano e Imani vai crescendo, eles percebem que também precisam enfrentar as diferenças entre seus mundos. Mas, num país assombrado pela guerra dos homens, a única saída para uma mulher é passar despercebida.

Mia Couto nasceu em 1955, na Beira, em Moçambique. É biólogo, jornalista e autor de mais de 30 livros, entre prosa e poesia. Seu romance "Terra Sonâmbula" é considerado um dos dez melhores livros africanos do século 20.

Abaixo, leia um trecho de "Mulheres de Cinzas".

Desenterradas estrelas

*

Todas as manhãs se erguiam sete sóis sobre a planície de Inharrime. Nesses tempos, o firmamento era bem maior e nele cabiam todos os astros, os vivos e os que morreram. Nua como havia dormido, a nossa mãe saía de casa com uma peneira na mão. Ia escolher o melhor dos sóis. Com a peneira recolhia as restantes seis estrelas e trazia-as para a aldeia. Enterrava-as junto à termiteira, por trás da nossa casa. Aquele era o nosso cemitério de criaturas celestiais. Um dia, caso precisássemos, iríamos lá desenterrar estrelas. Por motivo desse património, nós não éramos pobres. Assim dizia a nossa mãe, Chikazi Makwakwa. Ou simplesmente a mame, na nossa língua materna.

Quem nos visitasse saberia a outra razão dessa crença. Era na termiteira que se enterravam as placentas dos recém -nascidos. Sobre o morro de muchém crescera uma mafurreira. No seu tronco amarrávamos os panos brancos. Ali falávamos com os nossos defuntos.

A termiteira era, contudo, o contrário de um cemitério. Guardiã das chuvas, nela morava a nossa eternidade.

Certa vez, já a manhã peneirada, uma bota pisou o Sol, esse Sol que a mãe havia eleito. Era uma bota militar, igual à que os portugueses usavam. Desta vez, porém, quem a trazia calçada era um soldado nguni. O soldado vinha a mando do imperador Ngungunyane.

Os imperadores têm fome de terra e os seus soldados são bocas devorando nações. Aquela bota quebrou o Sol em mil estilhaços. E o dia ficou escuro. Os restantes dias também. Os sete sóis morriam debaixo das botas dos militares. A nossa terra estava a ser abocanhada. Sem estrelas para alimentar os nossos sonhos, nós aprendíamos a ser pobres. E nos perdíamos da eternidade. Sabendo que a eternidade é apenas o outro nome da Vida.

Chamo -me Imani. Este nome que me deram não é um nome. Na minha língua materna "Imani" quer dizer "quem é?". Bate-se a uma porta e, do outro lado, alguém indaga:

- Imani? Pois foi essa indagação que me deram como identidade. Como se eu fosse uma sombra sem corpo, a eterna espera de uma resposta.

Diz-se em Nkokolani, a nossa terra, que o nome do recém -nascido vem de um sussurro que se escuta antes de nascer. Na barriga da mãe, não se tece apenas um outro corpo. Fabrica-se a alma, o moya. Ainda na penumbra do ventre, esse moya vai-se fazendo a partir das vozes dos que já morreram. Um desses antepassados pede ao novo ser que adote o seu nome. No meu caso, foi -me soprado o nome de Layeluane, a minha avó paterna.

Como manda a tradição, o nosso pai foi auscultar um adivinho. Queria saber se tínhamos traduzido a genuína vontade desse espírito. E aconteceu o que ele não esperava: o vidente não confirmou a legitimidade do batismo. Foi preciso consultar um segundo adivinho que, simpaticamente e contra o pagamento de uma libra esterlina, lhe garantiu que tudo estava em ordem. Contudo, como nos primeiros meses de vida eu chorasse sem parar, a família concluiu que me haviam dado o nome errado. Consultou -se a tia Rosi, a adivinha da família. Depois de lançar os ossículos mágicos, a nossa tia assegurou: "No caso desta menina, não é o nome que está errado; a vida dela é que precisa ser acertada".

Desistiu o pai das suas incumbências. A mãe que tratasse de mim. E foi o que ela fez, ao batizar -me de "Cinza". Ninguém entendeu a razão daquele nome que, na verdade, durou pouco tempo. Depois de as minhas irmãs falecerem, levadas pelas grandes enchentes, passei a ser chamada de "a Viva". Era assim que me referiam, como se o facto de ter sobrevivido fosse a única marca que me distinguia. Os meus pais ordenavam aos meus irmãos que fossem ver onde estava a "Viva". Não era um nome. Era um modo de não dizer que as outras filhas estavam mortas.

O resto da história é ainda mais nebuloso. A certa altura o meu velho reconsiderou e, finalmente, se impôs. Eu teria por nome um nome nenhum: Imani. A ordem do mundo, por fim, se tinha restabelecido. Atribuir um nome é um ato de poder, a primeira e mais definitiva ocupação de um território alheio. Meu pai, que tanto reclamava contra o império dos outros, reassumiu o estatuto de um pequeno imperador.

Não sei por que me demoro tanto nestas explicações. Porque não nasci para ser pessoa. Sou uma raça, sou uma tribo, sou um sexo, sou tudo o que me impede de ser eu mesma. Sou negra, sou dos VaChopi, uma pequena tribo no litoral de Moçambique. A minha gente teve a ousadia de se opor à invasão dos VaNguni, esses guerreiros que vieram do sul e se instalaram como se fossem donos do universo. Diz-se em Nkokolani que o mundo é tão grande que nele não cabe dono nenhum.

A nossa terra, porém, era disputada por dois pretensos proprietários: os VaNguni e os portugueses. Era por isso que se odiavam tanto e estavam em guerra: por serem tão parecidos nas suas intenções. O exército dos VaNguni era bem mais numeroso e poderoso. E mais fortes eram os seus espíritos, que mandavam nos dois lados da fronteira que rasgou a nossa terra ao meio. De um lado, o Império de Gaza, dominado pelo chefe dos VaNguni, o imperador Ngungunyane. Do outro lado, as Terras da Coroa, onde governava um monarca que nenhum africano haveria nunca de conhecer: Dom Carlos I, o rei de Portugal.

[...]

*

MULHERES DE CINZAS
AUTOR Mia Couto
EDITORA Companhia das Letras
QUANTO R$ 37,90 (preço promocional *)

* Atenção: Preço válido por tempo limitado ou enquanto durarem os estoques.

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