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04/08/2018 - 12h01

Amós Oz analisa o extremismo em livro; leia trecho de 'Como Curar um Fanático'

da Livraria da Folha

Em "Como Curar um Fanático", Amós Oz oferece uma visão única sobre a natureza do extremismo e propõe uma aproximação ponderada para a solução do conflito entre Israel e Palestina.

Divulgação
Amós Oz propõe uma aproximação respeitosa e ponderada para a solução do conflito entre Israel e Palestina
Amós Oz propõe uma aproximação respeitosa e ponderada para a solução do conflito entre Israel e Palestina

Iluminando questões complexas com clareza, o autor argumenta que o conflito é uma disputa por território que não será resolvida com maior compreensão, mas por meio de um doloroso compromisso.

Publicado originalmente em 2012, o livro ganhou uma nova edição que traz um ensaio inédito, escrito em resposta aos atentados do Estado Islâmico em Paris, em novembro de 2015.

Amós Oz nasceu em Jerusalém, em 1939. Desde os anos 1960 tem se dedicado a uma extensa produção literária, que inclui romances, ensaios e críticas. Como escritor e ativista político, é o intelectual israelense mais renomado de nossos dias.

Em "Judas", o autor examina o Estado de Israel desde a sua fundação até as guerras que ainda abalam o Oriente Médio. O protagonista, Shmuel Asch, passa por problemas pessoais e financeiros no inverno de 1959. A dificuldade o obriga a abandonar a sua pesquisa na universidade: um estudo sobre Jesus sob a ótica dos judeus.

Já em "Os Judeus e as Palavras", o escritor e sua filha, a historiadora Fania Oz-Salzberger, contam as histórias por trás dos nomes, textos, disputas e ditados mais duradouros do judaísmo.

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EM LOUVOR ÀS PENÍNSULAS

Esta é uma manhã de choque e de tristeza. Nossos corações voltam-se para as vítimas inocentes, suas famílias, Paris, a França, a humanidade.

Eis algumas linhas que escrevi imediatamente após o Onze de Setembro, e quero repeti-las e reiterá-las hoje: A única força no mundo capaz de conter e mesmo se sobrepor aos islamitas fanáticos são os muçulmanos moderados. Estamos todos esperando agora que os muçulmanos moderados ergam suas vozes, e mesmo passem a agir.

Senhoras e senhores, permitam-me começar com uma nota pessoal. Durante muitos anos tenho acordado às quatro horas da manhã. Uma caminhada antes do amanhecer põe muitas coisas em sua proporção correta. Por exemplo, se nas notícias da noite de véspera um político usou palavras do tipo "para todo o sempre", "por toda a eternidade", ou "jamais, em 1 milhão de anos", posso ouvir às quatro da manhã as pedras no deserto, ou as estrelas sobre o parque da cidade rindo silenciosamente da percepção que aquele político tem do tempo.

Volto para casa, ainda antes do nascer do sol, preparo uma xícara de café, sento à minha escrivaninha e começo a me fazer perguntas. Não pergunto a que ponto está chegando o mundo, ou qual será o caminho certo a seguir. Eu me pergunto: "E se eu fosse ele? E se eu fosse ela? O que sentiria, desejaria, temeria e esperaria? Do que teria vergonha, esperando que ninguém jamais soubesse?".

Meu trabalho consiste em me pôr no lugar de outras pessoas. Ou mesmo estar em suas peles. A força que me impele é a curiosidade. Eu fui uma criança curiosa. Quase toda criança é curiosa. Mas pouca gente continua a ser curiosa em sua idade adulta e em sua velhice.

Agora, todos sabemos que a curiosidade é condição necessária, até mesmo a primeira das condições, para todo trabalho intelectual ou científico. Mas quero acrescentar que em minha opinião a curiosidade também é uma virtude moral. Uma pessoa interessada é uma pessoa um pouco melhor, um progenitor melhor, um parceiro, vizinho e colega melhor do que uma pessoa não curiosa. Um amante melhor também.

Permitam-me sugerir que a curiosidade, juntamente com o humor, são dois antídotos de primeira linha ao fanatismo. Fanáticos não têm senso de humor, e raramente são curiosos. Porque o humor corrói as bases do fanatismo, e a curiosidade agride o fanatismo ao trazer à baila o risco da aventura, questionando, e às vezes até descobrindo que suas próprias respostas estão erradas.

Isso me leva ao papel preponderante da literatura, em particular, e da arte, em geral. Seu maior mérito não é propor uma reforma social ou fazer uma crítica política. Como se sabe, o quintal da filosofia e da teologia está entulhado de esqueletos de romancistas e poetas que quiseram competir com filósofos e teólogos, com ideólogos, ou mesmo com profetas. Muito poucos entre eles tiveram êxito, mas isso não está em questão. Uma literatura ruim pode incluir mensagens morais muito importantes e positivas, e continuar a ser literatura ruim.

A característica que define a boa literatura, ou arte, é a capacidade de fazer se abrir um terceiro olho em nossa testa. Que nos faça ver coisas antigas e batidas de um modo totalmente novo. Gam lemar'e noshan iesh rega shel huledet, "Mesmo uma visão antiga tem um instante de nascimento", como expressou o grande poeta israelense Nathan Alterman. A grande literatura tem se posto nos lugares e nas peles dos outros, estranhos, às vezes odiosos, seres humanos, dom Quixotes, os Iagos, os Raskolnikovs deste mundo. A literatura ruim não vai fazer se abrir um terceiro olho. Vai simplesmente repetir o que já sabemos, e nos mostrar apenas o que já vimos.

O que a literatura ruim efetivamente faz é fixar o punhado de clichês morais e psicológicos que a fofoca nos inflige. Sim, a fofoca é prima da literatura de má qualidade, embora a literatura tenha vergonha desse parente e não o cumprimente quando se cruzam na rua.

A fofoca também é uma filha da curiosidade. Mas a fofoca ama os clichês, que adora reiterar nossos preconceitos e nos assegurar de que tudo e todos continuam a ser a mesma coisa. A boa literatura faz o oposto da fofoca: ela nos conta algo que não sabíamos, sobre nós mesmos e sobre os outros. Ou algo que não queríamos saber.

Porque, enquanto a fofoca se basta com a profundidade da pele, a literatura consegue às vezes realizar o milagre de cavoucar sob a pele. E enquanto a fofoca pretende nos agradar e lisonjear, a literatura tenta nos perturbar.

Assim, um boato dirá: "Oh, o homem está ficando velho!". Um romancista medíocre escreverá: "A velhice é uma coisa tão triste!". Mas Tchékhov pode escrever sobre um velho médico curvando-se para uma moça desmaiada, tomando seu pulso, erguendo-se e pronunciando estas três palavras devastadoras: "Eu esqueci tudo".

Quando escrevo, não estou me dirigindo principalmente às emoções de meus leitores, embora esteja falando também para as emoções. Não estou me voltando em especial ao intelecto de meus leitores, embora esteja falando também para ele. Primeira e primordialmente estou me dirigindo à sua curiosidade. Eu lhes digo, como um bom guia de turismo diz a seu grupo, que percebam algo de novo numa cena que já lhes é familiar. Que imaginem como ela pareceria se estivéssemos bem alto na montanha que se ergue acima de nós ou lá embaixo, naquele porão onde uma mulher pendura suas roupas para secar.

[...]

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COMO CURAR UM FANÁTICO
AUTOR Amós Oz
EDITORA Companhia das Letras
QUANTO R$ 21,90 (preço promocional *)

* Atenção: Preço válido por tempo limitado ou enquanto durarem os estoques.

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