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01/08/2018 - 13h45

"Transformei-me em um católico para sobreviver", relata judeu em livro; leia trecho

da Livraria da Folha

Divulgação
Levantamento vigoroso de Ari Shavit relata o passado e o presente de Israel e os desafios futuros da nação
Levantamento vigoroso de Ari Shavit relata o passado e o presente de Israel e os desafios futuros da nação

Em "Minha Terra Prometida" o jornalista Ari Shavit conta a história de Israel a partir de 16 datas cruciais da construção do Estado judeu.

Resultado de uma vigorosa investigação, o livro é uma publicação da editora Três Estrelas.

Consagrada pela crítica europeia e norte-americana, a obra virou best-seller nos EUA e é considerada uma das principais sobre a condição israelense.

Com uma narrativa empolgante, Shavit apresenta um painel ao mesmo tempo triunfal e trágico de Israel.

O autor conta uma história que vai do final do século 19, com uma visita de um antepassado à Terra Santa em 1897, até os dias atuais.

Ao longo das 496 páginas, somos apresentados a outros personagens como um jovem agricultor judeu que ajudou a expandir a economia na região nos anos 1920 e até mesmo um palestino que foi vítima das expulsões promovidas pelo Exército israelense em Lida, em 1948.

"Minha Terra Prometida" traz relatos vívidos de judeus em Israel, alguns deles sobreviventes do nazismo. Leia um trecho a seguir.

*

Conjunto habitacional, 1957

Encontro-me com o professor Ze'ev Sternhell em seu modesto apartamento em Jerusalém. Sternhell é um reputado estudioso do fascismo europeu e um aclamado ativista político contra o fascismo israelense. Ele é alto e elegante, um verdadeiro gentleman. Durante três dias consecutivos escutei sua história de vida, buscando compreender a minha. Ao escutar Sternhell, busco compreender o enredo judaico-israelense do século XX.

"Eu era o amado e paparicado temporão de uma família judaica da Galícia",* conta-me Sternhell. "O meu avô era um comerciante de tecidos bem-sucedido e o meu pai era sócio dele. Minha mãe ficava em casa e me criou com a ajuda de uma empregada e de uma babá. A minha irmã mais velha, Ada, que era treze anos mais velha do que eu, era como uma segunda mãe para mim. Eu era cumulado de amor. Até hoje a minha lembrança mais pungente é do meu pai me segurando nos braços e apertando a bochecha dele na minha.

"De repente estourou a guerra. Fui acordado no meio da madrugada. Todas as luzes ficaram acesas enquanto o meu pai se despedia de nós, trajado com o uniforme do exército polonês. Depois que ele voltou da derrota, dali a algumas semanas, tudo veio abaixo. Meu pai morreu, meu avô morreu. Os russos ocuparam a Polônia Oriental e tomaram posse de metade da nossa grande casa. Já não tínhamos babá nem empregada. Minha mãe teve de trabalhar. Minha mãe e minha irmã fizeram o melhor que puderam para me proteger. Em um mundo que tinha perdido toda noção de estabilidade, elas eram minha única âncora restante.

"Quando eu estava com seis anos, no verão de 1941, a Operação Barbarossa se iniciou bem ao pé da nossa casa, que ficava às margens do rio Wisla. Lembro-me das vidraças se estilhaçando, das bombas incendiárias, da incrível força da Alemanha nazista. E dali a horas vimos extensos comboios com prisioneiros de guerra russos aterrorizados. Alguns meses depois fomos transportados para o gueto. A transição foi abrupta: da nossa esplêndida casa para um canto no gueto, com sua terrível superlotação, seu fedor, a fome.

"Aí vieram as Ações. O gueto foi exterminado por etapas, e a cada vez era uma ordem diferente de caçada. Lembro-me de quando nós mesmos fomos caçados. Minha mãe, Ada e eu nos escondemos durante três dias em um buraco subterrâneo, uma espécie de gruta. Havia algumas outras pessoas se escondendo com a gente, enquanto lá fora o gueto ia sendo dizimado. Havia uma fenda pela qual eu via a caçada. Vi homens sendo baleados, crianças sendo baleadas. Eu era uma criança de seis anos escondida embaixo da terra observando por uma fenda outras crianças escondidas em topos de árvores que eram baleadas e mortas e caíam no chão.

"Nem sei dizer quais eram os meus sentimentos. Cresci no mundo bem ordenado de uma próspera família europeia de classe média. E então, após cinco anos de felicidade, aquele mundo desmoronou da noite para o dia. Aquilo que achávamos ser inviolável foi violado. Aquilo que achávamos ser a ordem natural das coisas foi transtornado. E tudo aconteceu de um dia para outro. No gueto a gente perdia a nossa base humana, a nossa identidade humana. A gente deixava de ser humano. Eu não era mais um ser humano. E, naquele mundo pós-desmoronamento, o negócio era a sobrevivência a todo custo.

"Depois da primeira Ação veio outra. Era um dia quente de verão e os alemães estavam caçando judeus outra vez. Era uma autêntica caçada, como uma caça à raposa ou uma caça à lebre. Aí veio a ordem para que todo mundo que não tivesse permissão de trabalho se juntasse em determinado local do gueto. Minha mãe e minha irmã foram. Lembro-me como se tivesse acontecido ontem. Lembro-me da minha irmã falando para a minha mãe: 'Somos jovens, vamos trabalhar, vamos sobreviver'. Elas sabiam que estavam me deixando. Sabiam que só Deus sabia o que ia acontecer. Mas não queriam me assustar. E queriam ter esperança. Queriam acreditar que iam voltar. E eu também. Nem me ocorreu que elas não iam voltar, que eu jamais ia vê-las de novo. Elas me abraçaram e me beijaram e me deixaram com a minha tia. Fiquei observando-as enquanto elas se afastavam, diminuindo cada vez mais à distância.

"Minha tia fez o possível para tentar compensar a ausência da minha mãe. Meu tio era extremamente hábil e nos resgatou do gueto. Mas ainda que meu tio e minha tia se esforçassem para amenizar o golpe, a partir do momento em que minha mãe e minha irmã se foram, eu fiquei sozinho. A partir dos sete anos, eu não tinha ninguém com quem conversar. Sabia que eu tinha de sobreviver por conta própria. Embora eu fosse uma criança, sabia que não podia contar com ninguém nem me voltar para ninguém. Era uma vida de completa solidão.

"Nos meses seguintes aconteceu algo que beirou o milagre. Meu tio descobriu o proprietário de uma casa em Lvov, que tinha sido oficial do exército polonês e estava disposto a dar assistência aos judeus. No terrível clima antissemita da Polônia àquela época, isso era algo raríssimo. Também havia uma família proletária que nos ajudava. Essas duas famílias nos salvaram. Nossos documentos falsificados diziam que éramos arianos e que a nossa identidade era católica polonesa. Para que não fôssemos apanhados, minha tia me ensinou histórias e orações católicas. Era crucial que os vizinhos nos vissem vivendo como católicos. Aos poucos, aquilo deixou de ser um jogo. Eu gostava daquilo: Páscoa, Natal, presentes de Natal, a história de Jesus, a imagem de Maria. O catolicismo é genial. Você não fica sozinho do jeito que os judeus e os protestantes ficam. Jesus se sacrificou por você e Maria toma conta de você constantemente. Você pede a ela que o salve. E quando você é uma criança no meio de uma guerra horrível, com carnificina por toda parte, e seu pai morreu e sua mãe desapareceu, você fica facilmente tentado a crer naquilo tudo. Espera que aquilo vai lhe trazer salvação. E se ajoelha diante do altar e diz tudo aquilo que toda criança católica diz.

"A Polônia do pós-guerra era pavorosamente antissemita. Ainda que os nazistas tivessem sumido, podia-se farejar o ódio aos judeus em cada esquina. Lembro-me de uma mulher gritando para judeus: 'A gentalha saiu dos buracos... Pena que Hitler não acabou com vocês!'. Lembro-me de judeus que retornavam dos campos nazistas ocultando sua identidade e, ao serem descobertos, eram xingados e surrados. Havia constantes rumores sobre pogroms de pós-guerra. Era nítido que os judeus não tinham futuro na Polônia. Depois de tudo por que tínhamos passado e tudo o que tínhamos visto, sabíamos que não podíamos mais ser judeus. Tínhamos de substituir a nossa velha identidade amaldiçoada por uma nova.

"Fui oficialmente batizado. Meu nome polaco passou a ser Zvigniew Orlowski. Eu era coroinha na catedral de Cracóvia. Rezava com o padre e o ajudava com a hóstia sagrada. Todo dia eu me ajoelhava. Ser um servo de um servo de Deus me proporcionava proximidade com Deus. Mas o que era ainda mais importante do que isso era não ser judeu. Ser judeu era ter de fugir o tempo todo. Ocultar, mentir, manipular. E eu me desvencilhei disso tudo. Deixei de ser judeu. Transformei-me em um católico para sobreviver.

"Em 1946, porém, ficou evidente que mesmo como um católico eu não tinha futuro em Cracóvia. Um trem de transporte de menores da Cruz Vermelha me levou da Polônia para a França, de uma tia para outra. Eu estava com onze anos, e outra vez totalmente sozinho. Quando cheguei à França, enterrei no meu coração tudo o que tinha acontecido na Polônia. Não queria me lembrar de nada. Apaguei da memória o polonês, minha língua materna. Também apaguei o catolicismo. Adotei uma nova identidade, francesa. No decorrer de um ano o francês se tornou a minha primeira língua. Estudei em um prestigiado colégio em Avignon, e por volta dos quinze anos estava imerso na cultura francesa. Até meu sotaque já não soava estrangeiro. Eu estava caminhando a passos largos para a Sorbonne.

"A França me ensinou liberdade, igualdade e direitos humanos. Aprendi a professar o universalismo, o secularismo e o princípio da separação entre Estado e Igreja. Mas sempre soube que a França não era um lar para mim. Embora eu quisesse apagar o passado, não apaguei a lembrança do meu pai, da minha mãe e da minha irmã, que tinham sido tirados de mim e haviam morrido porque eram judeus. Eu sentia que era diferente; era de outro lugar. Como um judeu, eu achava que eu jamais poderia ser inteiro na França. E eu não era autenticamente francês. Entre a França e mim sempre houve uma barreira.

"A declaração da fundação do Estado de Israel, em maio de 1948, suscitou enorme empolgação. Você e as pessoas da sua geração", me diz Sternhell, "não podem compreender isso. Mesmo antes da guerra, na Polônia, nossa família era sionista. Minha tia de Avignon atuava no Fundo Nacional Judaico. Havia pôsteres sionistas em todos os cômodos. Eu costumava ler três jornais todo dia para acompanhar o drama que se desenrolava na Palestina. Como um garoto de treze anos eu temia que os árabes fossem massacrar os judeus, mas o exército dos judeus lutou e venceu e o Estado dos judeus foi criado. Isso ia além da imaginação. Apenas quatro anos tinham se passado desde que o Exército Vermelho havia nos libertado. Apenas seis anos desde que os nazistas tinham exterminado o gueto. E agora aqueles mesmos judeus que eram confinados no gueto e perseguidos tinham se erguido e constituído um Estado. Até para alguém tão secular como eu isso era um evento histórico com uma dimensão metafísica. De repente havia judeus que eram ministros de governo e judeus que eram oficiais militares. Uma bandeira, um passaporte, um uniforme. Agora os judeus não eram mais dependentes dos gentios. Agora os judeus eram como os gentios. Impunham-se. Mesmo em retrospecto, o acontecimento mais emocionante da minha vida foi a instituição do Estado de Israel. Senti uma exaltação quase religiosa.

"No mundo do Holocausto os judeus não tinham dignidade. Os judeus eram pó humano, poeira humana. Eram mortos a tiros como jamais se fazia com cães e gatos. Eram tratados pior do que animais. Podia-se ter dó de animais; de judeus, não. O judeu era sub-humano. Um nada, um zero. E agora, apenas três anos depois de Auschwitz, o judeu era uma entidade humana. Agora, na Terra de Israel, os judeus estavam lutando. E estavam lutando direito. Lutando para ganhar. Eu os via em fotografias de revista e em cinejornais: jovens, fortes e armados. De repente eram humanos como todos os humanos. Eram capazes de lutar por sua liberdade assim como os italianos de Coração de Edmondo De Amicis lutavam por sua liberdade. Não eram criaturas que se podia escravizar, perseguir e matar. Para mim, no sul da França, era um prodígio. Era um milagre ocorrendo na história real, concreta.

"Aos dezesseis anos, resolvi fazer a aliá. Emigrei para Israel por iniciativa própria, em um barco com um volumoso transporte de menores vindo de Marselha. A embarcação estava bem lotada, mas a viagem foi divertida. Lembro-me de que ficamos no convés superior observando o monte Carmelo surgir à vista, a Terra de Israel se aproximando. E, ao desembarcarmos, alguns de nós se ajoelharam e beijaram o solo. Eu não me ajoelhei nem beijei o solo, mas senti que tinha chegado: aquela era a última estação. Bastava de errância, de transformações, de identidades falsas, bastava de não ser eu mesmo, pois subterfúgios e fraudes não eram necessários ali. Algo artificial e assustador se desembaraçou de mim. Algo que tinha a ver com a perpétua necessidade que eu sentia de me justificar. Mas no Estado de Israel eu não precisava mais justificar nem explicar. Era um grande alívio. Eu ainda não falava hebraico, não sabia o que o futuro reservava. Eu estava sozinho, sem posses nem proteção. Mas estava com a plena sensação de que a longa e excruciante jornada tinha chegado ao fim."

[...]

*Região histórica situada a oeste da atual Ucrânia e ao sul da Polônia. [N.T.]

*

MINHA TERRA PROMETIDA
AUTOR Ari Shavit
EDITORA Três Estrelas
QUANTO R$ 59,90 (preço promocional*)

* Atenção: Preço válido por tempo limitado ou enquanto durarem os estoques.

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