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11/12/2009 - 10h57

Jornalista aborda em livro os rumos do futebol brasileiro

JULIANA FARANO
colaboração para a Livraria da Folha

Rogerio Cassimiro/Folha Imagem
Jornalista Jose Geraldo Couto fala sobre o futebol brasileiro em lançamento da Publifolha
Jornalista Jose Geraldo Couto fala sobre o futebol brasileiro em lançamento da Publifolha

O futebol no Brasil é tão intenso que acaba, inevitavelmente, fazendo parte da vida até daqueles que costumam perguntar o motivo de ninguém passar a bola para o "moço de amarelo", confundindo o árbitro com um jogador qualquer.

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O talento dos jogadores brasileiros elevou o país à condição de celeiro de excelência incontestável de craques, reconhecido em todos os cantos do planeta. Pelé, considerado o rei do futebol, assim como o carnaval e as praias cariocas, virou cartão de visitas.

Mas qual é a situação deste esporte tão popular nos dia de hoje? Para responder a esta pergunta, a Publifolha lança "Futebol Brasileiro Hoje". Escrito pelo jornalista José Geraldo Couto, o livro faz parte da coleção "Folha Explica".

Leia trecho do livro

O autor, que assina uma coluna sobre futebol semanalmente na Folha, aborda a intrínseca relação do esporte com os impasses mais profundos da sociedade brasileira, esboça o retrato da realidade no futebol, fala sobre o estilo de nossos atletas e esbarra em questões polêmicas, como o preconceito e a virilidade.

José Geraldo Couto conversou sobre o livro e o futebol brasileiro com a Livraria da Folha.

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Livraria da Folha - Quando você começou a se interessar por futebol e quando o esporte passou a fazer parte de sua carreira?
José Geraldo Couto - Nem me lembro de quando comecei a me interessar por futebol. Foi certamente na infância, antes dos dez anos de idade. No jornalismo, trabalhei na área de cidades e principalmente na de artes e espetáculos, escrevendo sobre filmes e livros. A partir de certo momento (uns 15 anos atrás), passei a escrever uma coluna de futebol para a Folha, mas ainda trabalhando em outro setor, a Ilustrada. Por conta da coluna e da minha afinidade com o assunto, participei das coberturas da Copa do Mundo de 1998, na França, e dos Jogos Olímpicos de Sydney-2000. Mas continuo trabalhando em outras áreas, seja como jornalista, seja como tradutor.

Livraria - Como surgiu o convite para escrever "Futebol Brasileiro Hoje" ?
José Geraldo - O convite partiu do editor da Publifolha, Arthur Nestrovski, que também acompanha futebol e sabia da minha afinidade com o assunto.

Livraria - Qual é o objetivo da publicação?
José Geraldo - Acho que o objetivo do livro, como todos da coleção "Folha Explica", é fornecer um apanhado geral do assunto tanto para os leitores que não o acompanham como para aqueles que já são interessados. Neste caso específico, o objetivo era mostrar como o futebol está entranhado na vida dos brasileiros, mesmo daqueles que não torcem por clube nenhum, nem se interessam pelo jogo. A ideia era tratar o futebol como fato cultural e social de primeira importância para a vida do país. E fazer um retrato, ainda que sumário, da situação do futebol hoje no país.

Livraria - Como se deu a pesquisa para a produção da obra?
José Geraldo - Pesquisei a bibliografia disponível, que cresceu muito nos últimos anos, tanto no que se refere a estudos históricos e biográficos como nos de interpretação dos aspectos sociológicos, psicanalíticos e filosóficos ligados ao esporte. E também a imprensa, incluindo aí os jornais, as revistas especializadas, os blogs e sites dedicados ao futebol.

Livraria - Em sua opinião, qual a maior diferença entre o futebol praticado no início do século 20 e o de hoje?
José Geraldo - As diferenças são muitas, mas talvez a principal seja o grau de profissionalismo a que se chegou, com tudo o que isso traz de ganho e de perda com relação ao futebol de tempos mais românticos. Os atletas hoje são mais bem preparados fisicamente, o jogo é mais corrido e dinâmico, o futebol envolve grandes movimentações financeiras, audiências televisivas gigantescas, verbas crescentes de marketing e publicidade. Por conta da busca da eficiência e dos resultados, houve também certa diminuição do espaço para a fantasia e o improviso. O futebol, de um modo geral, ficou mais uniforme e previsível. Houve certa homogeneização dos estilos de jogar e um nivelamento da qualidade técnica, em âmbito internacional.

Divulgação
José Geraldo Couto fala sobre o futebol brasileiro nos dias de hoje
José Geraldo Couto fala sobre o futebol brasileiro nos dias de hoje

Livraria - Existe um movimento de alguns torcedores chamado "ódio eterno ao futebol moderno". Eles pregam que o clima "politicamente correto" de hoje em dia e a veia financeira e comercial do esporte estão acabando com a magia do futebol. Como você vê essa situação?
José Geraldo - Entendo perfeitamente esse sentimento de insatisfação com os aspectos mercantis do futebol, com o cerceamento da criatividade e da fantasia. Mas, por um lado, considero extremamente difícil uma mudança de percurso, um retorno à "magia" de outros tempos (que talvez também seja mais imaginária do que real), pelo menos no futebol profissional das primeiras divisões. Por outro lado, é possível ver surgir de quando em quando, mesmo no seio do futebol globalizado, jogadores que detêm um estilo criativo de jogo, equipes que praticam um futebol solto e bonito, partidas com desenlaces inesperados. Nem tudo está completamente domesticado. Sempre há espaço para o surgimento do novo, do imprevisto, da surpresa.

Livraria - Você acha que a super valorização dos atletas mudou o perfil dos aspirantes a jogadores?
José Geraldo - É bem possível que sim. Acho que convive hoje, no imaginário dos meninos (e cada vez mais, também das meninas), tanto o sonho de brilhar jogando um futebol bonito como o projeto mais pragmático de ganhar muito dinheiro com o futebol.

Livraria - Hoje, quase todos os jogadores (em algumas partidas, todos!) da seleção jogam no exterior. Você acha que isso pode causar um afastamento do público e uma perda de identidade do time?
José Geraldo - Sim, é possível que afrouxe um pouco a identificação do público com a seleção. Se bem que o público que mais torce pela seleção parece ser aquele que não costuma acompanhar o dia-a-dia dos clubes e campeonatos, e que portanto já tende a ter com os jogadores mais uma relação de fã diante das celebridades do que propriamente de torcedor com seu ídolo futebolístico.

Livraria - Em um dos capítulos do livro, você fala da questão dos jogadores que fogem do estereótipo de virilidade do futebol e ainda do caso de Richarlysson, identificado como homossexual pela torcida. Você acha que torcedores e profissionais do meio estão no caminho certo para quebrar barreiras de preconceito neste sentido?
José Geraldo - Penso que esse é um processo feito de avanços e recuos. Muitos torcedores e mesmo muitos profissionais da imprensa não só não têm contribuído para quebrar as barreiras, como ainda reforçam o preconceito homoerótico. A tendência geral é de um enfraquecimento dessas resistências, mas é algo que se dá muito lentamente, a meu ver.

Livraria - Ainda sobre o caso de Richarlysson, você acha que, no caso de ele ser realmente homossexual, assumir sua orientação publicamente atrapalharia sua carreira no sentido de ser rejeitado pelas torcidas e até mesmo por outros clubes, em especial os brasileiros?
José Geraldo - É difícil dizer, pois ele já é hostilizado pelas torcidas rivais e por membros de sua própria torcida mesmo negando publicamente uma condição homossexual. Se ele de repente dissesse que é de fato homossexual talvez isso reforçasse a hostilidade, mas talvez também a desarmasse, criando uma espécie de desconcerto. Se você pretende ofender alguém tachando-o de uma determinada coisa e ele responde "Sim, eu sou isso mesmo, e daí?", você fica sem argumento e sem força.

Sebastiao Moreira /Efe
Ronaldo festeja gol na vitória sobre o São Paulo pelas semifinais do Paulista-2009
Ronaldo festeja gol na vitória sobre o São Paulo pelas semifinais do Paulista-2009

Livraria - A vinda de Ronaldo para o Corinthians ganhando bem, com esquemas de patrocínios diferenciados para o jogador, está influenciando outros veteranos a voltarem para o Brasil?
José Geraldo - Suponho que sim, que tenha servido como um estímulo positivo para outros atletas em situação análoga ou parecida. A volta do Adriano para o Flamengo parece ter tido o mesmo efeito.

Livraria - Aliás, no Campeonato Brasileiro, vários veteranos ganharam destaque, como é o caso de Pet e Adriano, do Flamengo. Ao que você atribui tal sucesso, além das qualidades técnicas óbvias dos jogadores? Isso tem alguma coisa a ver com o fato dos mais jovens serem vendidos cada vez mais cedo para o exterior?
José Geraldo - Pode ser que sim. Num futebol de rotatividade cada vez mais alta, em que os times têm dificuldade em manter o mesmo elenco ao longo de uma temporada, jogadores experientes e de alta qualidade técnica acabam se destacando, são valores seguros para seus times. Se jogadores como Kaká, Luis Fabiano, Lucio, Juan, Robinho e tantos outros atuassem no país, Petkovic e Adriano continuariam sendo atletas de primeiro nível, mas talvez não tivessem tanto destaque.

Livraria - Quais as vantagens e as desvantagens do campeonato de pontos corridos e qual é a sua fórmula preferida?
José Geraldo - As vantagens dos pontos corridos são óbvias: vence o time que fez a melhor campanha ao longo do torneio. Todos jogam contra todos, não há favorecimento a ninguém. A possível desvantagem seria o esvaziamento do campeonato se algum clube se distanciasse muito na primeira posição. E também a ausência da "emoção concentrada" dos mata-matas. Mas acho que chegamos a uma situação ideal, com duas grandes competições nacionais, cada uma jogada por um sistema: o Campeonato Brasileiro, por pontos corridos; a Copa do Brasil, nos mata-matas.

Livraria - Comente um pouco sobre o Brasileirão deste ano. Em sua opinião, quais foram os sucessos e os micos, do ponto de vista organizacional?
José Geraldo - O sucesso, totalmente imprevisto, foi o fato de quatro clubes chegarem à última rodada com chance de título. É muito bom quando isso acontece, por motivos óbvios. Alguns dos micos foram: mudanças de datas de jogos para atender interesses de emissoras de TV, lambanças na divisão de ingressos para os clubes, falta de condições de segurança em certos estádios (vide o que aconteceu no estádio do Coritiba na última rodada). E as arbitragens foram particularmente infelizes este ano.

Livraria - Qual seria sua seleção do campeonato?
José Geraldo -Minha seleção seria: Victor, Leo Moura, Miranda, Álvaro e Kleber; Pierre, Hernanes, Petkovic e Diego Souza; Adriano e Diego Tardelli.

Livraria - Por fim, resuma em poucas brasileiras a situação do futebol brasileiro hoje.
José Geraldo -Ah, isso é muito difícil. Só lendo o livro para saber. Agora falando sério: o futebol brasileiro enfrenta hoje o grande desafio de se modernizar, se fortalecer economicamente para não ficar tão fragilizado diante do capital externo, evitando assim a sangria de talentos, e ao mesmo tempo manter-se como um esporte popular, acessível a todas as camadas da população. O desafio de adquirir racionalidade administrativa e financeira sem perder a paixão, a criatividade e a capacidade de improviso.

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"Futebol Brasileiro Hoje"
Autor: José Geraldo Couto
Editora: Publifolha
Páginas: 104
Quanto: R$ 18,90
Onde comprar: Pelo telefone 0800-140090 ou pelo site da Livraria da Folha

 
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