Saltar para o conteúdo principal
 
18/08/2010 - 17h38

Lukasz Merda, Ana Buceta, Veronica Boquete... por que o palavrão reina na web?

SÉRGIO RIPARDO
editor-assistente da Livraria da Folha

Siga a Livraria da Folha no Twitter
Siga a Livraria da Folha no Twitter

Lukasz Merda, Ana Buceta, Veronica Boquete, "puta falta de sacanagem", "trepada" ...o frenesi da mídia on-line com o ranking de assuntos mais comentados no Twitter (os chamados TTs, trending topics, pauteiro gratuito, tópicos mais comentados pelos usuários do microblog) colocou os palavrões no patamar de "notícia", conceito cada vez mais questionado pelos manuais puristas de jornalismo tradicional, diante da era do deboche virtual, do leitor anônimo, porém, ativo.

Enquete: O que você acha do uso do palavrão em textos jornalísticos?

Divulgação
Folclorista pesquisou mais de cinco anos e leu mais de 200 romances
Folclorista pesquisou mais de cinco anos e leu mais de 200 romances

A mídia impressa ainda é mais seletiva quanto ao uso de termos considerados de "baixo calão", uma discussão que costuma se polarizar entre acusações moralistas de empobrecimento da língua e defesa das transgressões linguísticas, típicas dos códigos de comunicação dos jovens. A farra das gírias e dos títulos de gosto duvidoso (boca-suja, como diria um bedel reprimido de escola religiosa) eclode como uma celebração da linguagem coloquial, da maior presença do leitor em redes sociais, fóruns de comentários, compartilhamento e recomendações de notícias.

Divulgação
Jornalista critica "degradação do português falado no Brasil"
Jornalista critica "degradação do português falado no Brasil"

Ao contrário do jornal e da revista impressa, a notícia (ou nota) publicada na internet ganha pernas, como um personagem de "A Rosa Púrpura do Cairo" (1985), de Woody Allen, em que a história exibida é interrompida porque alguém pula da ficção para realidade. O papel do palavrão no jornalismo on-line não é apenas uma peça para chamar atenção e fisgar audiência. Mas é um termômetro da maior visibilidade das manifestações coloquiais, até de guetos, nos endereços que organizam e sintetizam o noticiário de um dia.

Há uma infinidade de palavrões regionais, de formas criativas de se expressar, que deixariam o folclorista Câmara Cascudo com muito trabalho para catalogar e entender dialetos e esse talento do brasileiro de criar nomes e apelidos para pichar, divertir e memorizar pessoas e situações. Mas isso não pode ser justificativa para avacalhar o noticiário, como se o recalque de um repórter fosse não ter licenças poéticas de um integrante do "CQC" e do tabloidismo ressurgente.

No livro "A Imprensa e o Caos na Ortografia", o jornalista Marcos de Castro ataca a vulgaridade da língua portuguesa nas páginas (virtuais e em papel) da imprensa. A obra é apocalíptica ao retratar vexames mais comuns nos relatos diários.

Divulgação
"Ligue o Foda-se e Seja Feliz", exemplo de livro com palavrão
"Ligue o Foda-se e Seja Feliz", exemplo de livro com palavrão

As novas gerações são mais tolerantes, soando como datado o apego de alguns medalhões do jornalismo à seriedade dos textos, guardiões da virgindade da língua. Quer causar arrepios aos puristas? Escreva um palavrão. O patrulhamento linguístico reflete a convivência nunca pacífica nem sempre movida por razões técnicas, mas por frustrações e disputas de território entre diferentes escolas de jornalismo (estagiários de calcanhar sujo e vetustos).

Nas livrarias, chegou recentemente o "Dicionário do Palavrão e Termos Afins" (Editora Leitura), do folclorista pernambucano Mário Souto Maior (1920-2001). É uma visão menos preconceituosa e elitista sobre a função dos vocábulos proibidos, que variam conforme os tempos e as morais vigentes. Se você manda para a "puta que pariu" qualquer opinião sisuda sobre as palavras fortes usadas no seu cotidiano, vale a leitura pelo humor dos significados de algumas expressões idiomáticas, principalmente aquelas com teor sexual.

Não é só o jornalismo na web que está "cagando e andando" para o medo de desafiar o politicamente correto das manchetes. Nas estantes, os livros estão cada vez mais atrevidos. "Puta" e "merda" são os termos preferidos nas capas. Há casos de sucesso: no mês passado, esgotou o volume "Ligue o Foda-se e Seja Feliz" na Livraria da Folha.

Monte sua estante com dez livros com palavrão no título

 
Voltar ao topo da página