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18/03/2011 - 22h22

A R$ 9,90, livro relembra polêmicas de Paulo Francis, que atacava Lula e nordestinos

da Livraria da Folha

Divulgação
Livro relembra amores e ódios de Paulo Francis
Livro relembra amores e ódios do polemista Paulo Francis

Ele botava fogo no circo, não se incomodava com a pecha de reacionário. Se hoje o país se choca com uma anônima postando mensagem racista no Twitter, ele escrevia, sem pudores, uma coluna comparando nordestino a "sub-raça", provocando reações iradas de todos os lados. Assim o jornalista Paulo Francis (1930-1997) criou um mito, uma legião de inimigos e fãs do seu estilo ferino, maldoso e explosivo.

Em "Paulo Francis", que está em promoção a R$ 9,90, o jornalista Daniel Piza levanta um perfil daquele "gordinho com cara de diplomata alemão e óculos que distorciam seus olhos como os de um chinês ou do Mr. Magoo". Ele falava sem parar, gesticulando bastante e interrompendo o interlocutor com frequência, conta o autor.

"Tinha momentos de doçura, como quando comemorava com alegria quase infantil o fato de ter ido a restaurantes cinco-estrelas de São Paulo e não ter precisado pagar nenhum", escreve Piza na página 96.

Leia um trecho de "Paulo Francis"

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No Brasil, seu alvo preferido passou a ser o PT. Primeiro, atacou fortemente Luiza Erundina na campanha para a prefeitura de São Paulo em 1988. A coluna de maior repercussão se chamou "Êta, Érundííína arrétada", que recebeu reação indignada dos leitores por mostrar preconceito contra nordestinos. Francis chegou a defender Paulo Maluf, com quem esteve em Nova York, por se dizer a favor de privatização. Achava que quem criticava Maluf é que estava sendo preconceituoso (contra sua origem libanesa), rejeitando o argumento de que não poderia ser modernizador um político demagogo e corrupto que deixava falido todo governo por que passasse. Sobre o Nordeste, dizia que a região vivia sob a ideologia do "raspa-barril" e que todos os nordestinos "de qualidade" a haviam deixado.

Mas foi no ano seguinte que Francis comprou sua maior briga na política. Na campanha para a presidência da República, concentrou fogo em Luiz Inácio Lula da Silva, a quem chamava de "sapo barbudo", por representar uma esquerda arcaica, nacionalista, autárquica, alheia às transformações recentes do mundo. Fez colunas e mais colunas seguidas sobre o assunto. Durante a campanha, escreveu bem menos sobre Fernando Collor, a quem chegou a chamar de "fedelho" e "desconhecido"; e sua principal objeção a Mario Covas, que então defendia um "choque de capitalismo" na economia brasileira, era a de ser "muito paulista". Qualquer um, no entanto, seria o "mal menor" na comparação com Lula, que, entre outras coisas, naquela campanha defendeu a estatização do sistema financeiro.

Ainda em 1989 Francis criou outra polêmica cultural, embora de contornos políticos. Escreveu um artigo chamado "O cinema à moda da casa", em que criticava os filmes brasileiros por amadores e apelativos, abrindo exceção apenas para o argentino Hector Babenco, e dizia que o país deveria desistir de investir nessa arte, por falta de aptidão. "Nenhum filme brasileiro dá certo porque todos os cineastas tentam demagogicamente se colocar na posição dos humildes." Francis, que nos anos do Cinema Novo cunhara a frase "O filme é uma merda, mas o diretor é genial" (atribuída erradamente a Jaguar), também sugeriu que os diretores brasileiros tomavam dinheiro público para construir "coberturas na Vieira Souto". (Collor, presidente eleito, já em 1990 suspenderia o financiamento público dos filmes. Apenas em 1994 uma lei de incentivo faria disparar sua retomada, dando ao cinema uma qualidade média e uma bilheteria conjunta inéditas).

A resposta veio em página inteira de Arnaldo Jabor, que iniciou dizendo que o artigo de Francis era "flawless" (sem falhas); depois defendeu a classe por ser obrigada não só a competir com Hollywood, mas também a fazê-lo em linguagem não convencional; por fim lembrou episódios de humilhação de Francis como a bofetada de Adolfo Celi. "Fazer cinema no Brasil é um pouco mais complicado do que escrever para a Folha de S.Paulo", ironizou. Francis não respondeu a Jabor. Três anos depois, o mesmo Jabor, que praticamente abandonaria o cinema, substituiu Francis na "Ilustrada" e, tal como ele, assumiu o papel de inimigo da cultura estatizante do Brasil.

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"Paulo Francis"
Autor: Daniel Piza
Editora: Relume Dumará
Páginas: 120
Quanto: R$ 9,90 (preço promocional, por tempo limitado)
Onde comprar: 0800-140090 ou na Livraria da Folha

 
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