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26/11/2010 - 15h01

"Paul McCartney é ótimo, mas apático como Chico", diz autor de "Vaudeville"

da Livraria da Folha

Divulgação
Amaral oferece um panorama da evolução dos costumes em 40 anos
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Arte
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Em sua biografia "Ricardo Amaral Apresenta Vaudeville: Memórias" (LeYa, 2010), o empresário da noite Ricardo Amaral retrata um episódio que envolve o compositor e escritor Chico Buarque. No capítulo "Afinal de contas, o Chico Buarque é chato ou não é chato?", ele conta como conquistou a antipatia do cantor.

O episódio ganhou proporções com a distorção de uma fala sua durante um jantar pós-show de Paul McCartney no Maracanã, em 1990. Amaral comentou que o Beatle possuía a mesma postura blasé de Chico. "Tipo: "Eu estou aqui, mas adoraria não estar"".

"Paul é ótimo, mas apático como o Chico Buarque, tornando o show chato", completou o empresário.

O jornalista Ricardo Boechat, presente à mesa, publicou a nota "Mão" em "O Globo", do dia 24 de abril de 1990, revelando a assinatura do comentário:

De Ricardo Amaral, no Gattopardo, anteontem à noite:

"Esse Paul McCartney só não é mais chato que o Chico Buarque de Hollanda..."

Óbvio que o mal-entendido teve início a partir daí.

Esse é um dos episódios curiosos que o promoter paulista revela em sua obra. Amaral adotou a noite carioca para si e estendeu sua presença garantida em grandes festas no Brasil e em cidades como Paris e Nova York. Seu nome constava entre as listas de festas mais badaladas desses circuitos.

Conhecido no show business e, principalmente, na noite, Amaral iniciou sua carreira no jornalismo. Foi colunista e circulou desde cedo na rodas mais refinadas.

O leitor adentrará em um mundo composto não só por glamour, mas terá acesso à um panorama da política, música, televisão, teatro e costumes da sociedade nos últimos 40 anos.

Leia abaixo o trecho do livro que detalha o desenrolar da celeuma entre Amaral e Chico.

*

Afinal de contas, o Chico Buarque é chato ou não é chato?

As reuniões de pauta do Metropolitan sempre traziam à tona um nome: Chico Buarque de Hollanda. O único grande nome que não topava sequer ouvir uma proposta nossa. E mais: embora homenageado diversas vezes, com shows dedicados a ele, como o Ney cantando Chico, jamais pisou no Metropolitan. Eu explicava que não adiantava tentar. Contaram-me que, certa vez, um dos seus empresários foi até ele e perguntou qual era o problema com o Ricardo Amaral. Teria escutado resposta curta e vaga: "Sou brigado com ele, mas não me lembro por quê".

Eu me lembro.

Conheci o Chico menino, na casa dele, em domingueiras de violão de sua irmã Miúcha no Pacaembu, numa ruazinha perto do Cemitério do Araxá. Quem me levou lá foi o Jorge da Cunha Lima. Ele, Chico, não participava, assistia com enorme atenção. Quando ele estourou e fez enorme sucesso com "A Banda", ao lado de Nara Leão, num Festival da Record, fiquei cheio de orgulho de ver o irmão da minha amiguinha, estudante do Mackenzie, onde eu estudei tanto tempo, fazer tanto sucesso. Sua ascensão foi meteórica, suas letras encantaram a todos. A delicadeza, a fruição das palavras proporcionando compreensão da letra como um todo e a densidade poética constituíam-se em armas poderosas.

Chico partiu para o autoexílio. Fazia falta. Sua posição política de enfrentamento ao regime militar fez com que ele se impusesse um exílio na Itália. A Suacata era o local da MPB naquele momento. Costurei com o Roberto Colossi, seu empresário na época, visitas à Polícia Federal e a outros órgãos que nos pareciam importantes consultar. Recebemos sinal verde. Fui à Europa, estive com Chico e Marieta em Roma. Acabamos assinando o contrato em Paris, onde o casal foi passar em companhia da Martha e do Hugo Carvana.

No dia 20/3/1970, todos os jornais publicaram seu retorno. Trechos da matéria do Jornal da Tarde:

De novo com você, o mesmo Chico

Minha vida continuará a ser vivida no Brasil, onde eu serei apenas um compositor e cantor brasileiro que passa três meses por ano na Europa. Por enquanto, vou me apresentar na boate Sucata, mas ainda nem sei a data certa - se no dia 10 ou 14 de abril. Devo ficar um mês na boate, com algumas apresentações na TV Globo.

É mentira esta história que vou receber NCr$ 300 mil. Mesmo que estivesse disposto a trabalhar quatro meses seguidos, nem assim daria para receber tanto. Como eu vou trabalhar o mínimo que for possível, posso garantir que não vou ganhar nem a terça parte.

... A alfândega demorou apenas 20 minutos para liberar as 13 malas do compositor, que saiu do aeroporto protegido por um cordão de isolamento. Mas isso não evitou que amigos da Banda de Ipanema e vários torcedores do Jovem Flu - parte da torcida organizada do Fluminense - o carregassem nos ombros, enquanto o Chico sorria - meio encabulado.

Ricardo Amaral levou-o para casa, na Lagoa Rodrigo de Freitas, seguido por vários carros de jornais cariocas, em fila indiana. No cortejo alguns amigos nem tiveram tempo de cumprimentar o Chico: Paulinho da Viola, o pessoal do conjunto MPB-4, Betty Faria e Cláudio Marzo.

A temporada na Sucata foi abaixo das expectativas. Foi muito mal. Naquele momento, a burguesia tinha forte reação ao Chico em virtude de sua posição política.

Nossa relação a partir daí foi amistosa, sem ser íntima. Encontrávamo-nos muito por aí, especialmente no Antonio's, e tínhamos um elo, que era nosso querido amigo Tarso de Castro, o polêmico jornalista gaúcho-carioca que sempre me dava notícias dele. Eu tinha guardado em minha memória o Chico vindo, espontaneamente, ao meu escritório da Lagoa pagar umas prestações de um carro que tínhamos comprado para o seu então cunhado João Gilberto. Sem eu ter cobrado, de forma muito simples e correta.

Exatamente como declarou ao chegar de volta ao Brasil: "Eu vou trabalhar o mínimo que for possível!". Chico nunca escondeu ter horror a cantar em público, horror a fazer shows.

Em 1990, 20 anos depois do show da Sucata, veio se apresentar no Rio e Paul McCartney no Maracanã. O compositor tem a mesma postura do Chico cantando. Tipo: "Eu estou aqui, mas adoraria não estar". Personalidades e posturas gêmeas. Jantando depois do show no Gattopardo com o então governador Marcelo Alencar, encontrei o Ricardo Boechat, que nasceu com alma de repórter, sempre com uma dose de veneno em sua caneta. Comentei que o Paul é ótimo, mas apático como o Chico Buarque, tornando o show chato.

Essa minha "gracinha" gerou a seguinte nota, em O Globo, do dia 24 de abril de 1990, terça-feira:

Mão

De Ricardo Amaral, no Gattopardo, anteontem à noite:

"Esse Paul McCartney só não é mais chato que o Chico Buarque de Hollanda..."

O Tarso tentou desfazer com uma boa intriga muitas vezes, mas não deu pé.

E aí vão as perguntas. Afinal de contas, o Chico é chato ou não é chato? Não, chato eu acho que não é. E tímido? Tímido, sim, com certeza é. E rancoroso? Bem, sei lá...

*

"Ricardo Amaral Apresenta Vaudeville: Memórias"
Autor: Ricardo Amaral
Editora: LeYa
Páginas: 488
Quanto: R$ 39,90 (preço promocional, por tempo limitado)
Onde comprar: Pelo telefone 0800-140090 ou pelo site da Livraria da Folha

 
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