Saltar para o conteúdo principal
 
29/11/2010 - 11h07

"João Gilberto me fez de babaca", revela empresário da noite Ricardo Amaral

da Livraria da Folha

Divulgação
Amaral oferece um panorama da evolução dos costumes em 40 anos
Amaral oferece um panorama da evolução dos costumes em 40 anos

Conhecido no show business e, principalmente, na noite, o empresário Ricardo Amaral conta em "Ricardo Amaral Apresenta Vaudeville: Memórias" (LeYa, 2010) como e por que o cantor e compositor João Gilberto o fez passar por babaca.

Amaral se reporta ao caso como uma "experiência de merda" e ressalta que quem o ajudou foi Chico Buarque, que aliviou um pouco o desentendimento.

O empresário iniciou sua carreira no jornalismo. Foi colunista e circulou desde cedo na rodas mais refinadas. Brigitte Bardot, João Gilberto, Vinicius de Moraes (1913-1980), Paulo Francis (1930-1997), Samuel Wainer (1910-1980), Danuza Leão e Roberto Marinho (1904-2003), entre outras personalidades, desfilam por suas linhas biográficas.

Arte
Siga a Livraria da Folha no Twitter
Siga a Livraria da Folha no Twitter

Por meio do volume, somos transportados para o glamour das badaladas festas do Rio e do circuito internacional, como Paris e Nova York. Entramos em contato também com a política, música, televisão, teatro e costumes da sociedade brasileira nos últimos 40 anos.

No trecho abaixo, extraído do volume, Amaral relata o caso.

*

João Gilberto me fez de babaca

É impressionante o papel de babaca que o João Gilberto me fez fazer. Eu sempre fui apaixonado por bossa nova e pela musicalidade do João. Em 1970, no auge dos shows da Sucata e no apogeu do Teatro da Lagoa com o revezamento Chico e Jô, estimulado pelo João Carlos Magaldi, que trouxe a Shell como patrocinadora, coloquei na cabeça que "precisava" contratá-lo para fazer uma temporada de shows no Brasil. O problema é que ele tinha se autoexilado no México, casado com a Miúcha Buarque de Hollanda, com quem eu me dava muito bem.

Logo depois do nascimento de nosso segundo filho, Bernardo, Gisella e eu nos mandamos para o México e lá fiquei uma boa temporada tentando convencer o João a vir fazer uma temporada no Brasil. Ele só me recebia à noite. O fato de eu não jogar bem pingue-pongue não ajudou na relação, embora eu tenha tentado. Ele morava num casarão estranho alugado, com poucos móveis e uma grande mesa de pingue-pongue no centro da principal sala. Somente saía de casa tarde da noite e aguardava os restaurantes ficarem vazios para adentrar. E eu detesto restaurante vazio! João adorava dirigir de madrugada, rente ao meio-fio (guia, colegas paulistas, guia!), e isso nos dava frio na barriga! Levei umas duas semanas inteiras para convencê-lo a assinar o contrato. Fiquei feliz! Felicidade que durou pouco, ele fez um papelão!

De volta ao Brasil, o Magaldi me levou ao diretor de marketing da Shell, Reinaldo Filardi, e assinamos um contrato milionário. A tournée teria produção de padrão somente feita até então para as grandes atrações internacionais. Faltava falar com o Boni, que adorou a ideia, mas me desestimulou, alertou que tinha tudo para não dar certo, mas o projeto era tão bom que topou a participação da Globo. Locais dos shows contratados: o Teatro Municipal do Rio e o Teatro Municipal de São Paulo - que naquela época não apresentavam artistas populares em seus palcos, mas consegui agendar shows, dado o prestígio do João - e também o Teatro Carlos Gomes, em Salvador, e outros por aí. Enorme mobilização. Uma ousadia! Mas o homem merecia.

Tudo acertado, o João chegou com a Miúcha, muitos dias antes da estreia da tournée. Eu hospedei o casal numa suíte do Hotel Glória - esse que hoje é do nosso Eike Batista. Instalei, a seu pedido, uma mesa de pingue-pongue em sua sala. Uma tremenda mão de obra. E só jogava com bolas inglesas! Arrumei as bolas inglesas. E um belo dia ele me diz que precisava ir a Juazeiro, na Bahia, para visitar a mãe. Mas ele não queria ir de avião. Queria comprar um carro para ir dirigindo... Só que o carro não podia ser comprado no nome dele, porque não tinha CIC (hoje CPF). Não me lembro se acabamos comprando o carro em meu nome com o aval do Chico Buarque, ou vice-versa. Mas lá foi o João dirigindo o seu Opala para Juazeiro. E então se passaram dias, e nenhuma notícia. As datas dos shows se aproximando, e nada do João. Nessa ocasião ele próprio me havia apresentado um amigo, Otávio Terceiro, que logo descobri tratar-se de um grande "decodificador-de-João-Gilberto". Não tive dúvidas, mandei o Terceiro atrás do João.

Segundo relato do Terceiro, o João tinha descoberto um furinho numa toalha de mesa da mãe que ele mesmo tinha feito, sem querer, com cigarro. Colocou o dedo no furinho, e isso tinha desencadeado um processo psicológico que o impedia de fazer com que sua mão acompanhasse o comando de sua mente! Enfim, não conseguia tocar violão.

Não teve jeito mesmo. Toda a temporada foi cancelada. Um prejuízo enorme, que só não foi maior porque meus amigos todos entenderam minhas intenções e sabiam muito bem quem era o senhor João Gilberto. E, no fundo, o fato é que todos que se engajaram sabiam o risco que corriam. Meu amigo Boni estava certo, desde o primeiro dia me disse que não ia dar certo. O único prejuízo que acabei não tendo foi o do carro, porque o Chico Buarque assumiu a dívida do cunhado.

Contudo, dessa experiência de merda ficaram algumas dúvidas. Onde acaba a loucura e começa o teatro? Timidez extrema ou irresponsabilidade criminosa? Charme de grande vedete? Insegurança cavalar? Uma grande mistura de tudo isso?

Não me arrependo de não ter entrado com um processo judicial, afinal, estaria alimentando ainda mais o ego do cara! Preferi esquecer. Melhor dizendo, sublimar, lembrando o velho Tancredo Neves, que adorava o jargão: "Perdoar eu perdoo, mas não esqueço!".

Selando esse episódio: dois a três meses depois, João ainda fez a gracinha de gravar um especial na TV Tupi, de São Paulo, organizado pelo Fernando Faro e pelo Cyro del Nero, outros dois apaixonados por sua música. Na ocasião, "provavelmente refeito do seu problema psicológico"!

*

"Ricardo Amaral Apresenta Vaudeville: Memórias"
Autor: Ricardo Amaral
Editora: LeYa
Páginas: 488
Quanto: R$ 39,90 (preço promocional, por tempo limitado)
Onde comprar: Pelo telefone 0800-140090 ou pelo site da Livraria da Folha

 
Voltar ao topo da página