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06/12/2010 - 13h18

Em "Vida", Keith Richards conta o que aconteceu no trágico show de Altamont

da Livraria da Folha

O rock'n'roll possuiu diversas lendas. Algumas delas surpreendem pelo simples fato de ainda estarem vivas. Ozzy Osbourne e Keith Richards são alguns exemplos. Ambos possuem um longo histórico de abuso de álcool de drogas. Por isso, suas biografias tornam-se tão interessantes.

José Mendez/Efe
Keith Richards revela em autobriografia detalhes da vida pessoal e da carreira, como o trágico show em Altamont com os Hells Angels
Keith Richards revela em autobriografia detalhes da vida pessoal e da carreira, como o trágico show em Altamont com os Hells Angels

Como Osbourne em junho deste ano, Richards lançou agora "Vida", livro no qual conta em detalhes diversas passagens de sua vida.

Da infância até sua participação em "Piratas dos Caribe - No Fim do Mundo", o músico relembra os principais acontecimentos de sua inacreditável trajetória.

Overdoses, casamentos, prisões, brigas com Mick Jagger, os momentos nos quais determinadas canções nasceram, tudo é registrado em conjunto com o jornalista James Fox.

Keith conta, também, com alguns mistérios em torno de sua figura, como troca completa de seu sangue e o boato de que teria cheirado as cinzas do seu pai.

Histórias assim repetem-se constantemente no rock, algumas mais bizarras que as outras. Algumas, no entanto, apesar de parecerem inventadas por uma mente criativa são pura verdade.

No caso dos Rolling Stones, por exemplo, quando se escuta que os Hells Angels fariam a segurança de um show já se imagina que não pode dar certo. Ainda assim isto realmente aconteceu em 1969, na cidade norte-americana de Altamont e foi registrado no filme "Gimme Shelter".

Veja abaixo trecho de "Vida", no qual Keith Richards o que viveu na trágica noite:

*

Altamont era estranha, especialmente porque estávamos bem cansados depois da excursão e da gravação. Sim, faremos um concerto gratuito, por que não? Muito obrigado a todos. E então o Grateful Dead ficou envolvido, nós os convidamos porque eram eles que faziam isso o tempo todo. Nós entramos em contato e perguntamos, vocês acham que dá para fazermos um show juntos nas próximas duas ou três semanas? O negócio é que Altamont não teria sido em Altamont sem a absoluta estupidez dos cabeças-duras da Câmara de San Francisco. Íamos fazer a apresentação na versão local do Central Park. Eles montaram o palco e depois tiraram a licença, a permissão e derrubaram tudo. E aí veio, ah, vocês podem ficar com esse local. Nós estávamos no Alabama, em um lugar qualquer, fazendo gravações. Assim, respondemos, deixamos isso para vocês, rapazes. Nós vamos aparecer e tocar.

Acabou que o único lugar que sobrou foi aquele autódromo em Altamont, um lugar perdido no meio do mato. Não havia segurança nenhuma, a não ser pelos Hells Angels, se é que se pode chamar aquilo de segurança. Mas era 1969 e havia uma anarquia desenfreada. Havia muito poucos policiais. Acho que vi três policiais para meio milhão de pessoas. Não duvido que mais alguns estivessem por ali, mas a presença da polícia era mínima.

No básico, era uma enorme comuna que se espalhou pelo terreno durante dois dias. Era muito medieval, na aparência e no ambiente, caras tocando sinos e cantando "haxixe, peiote". Você pode ver tudo isso em Gimme Shelter. O ápice da comuna hippie e do que pode acontecer quando as coisas dão errado. E fiquei admirado por as coisas não terem dado mais errado ainda.

Meredith Hunter foi assassinado. Outras três pessoas morreram acidentalmente. Num show daquele tamanho, a contagem de vítimas às vezes chega a quatro ou cinco, pisoteados ou sufocados. Olhe o The Who, tocando num show totalmente legal, e onze pessoas morreram. Mas em Altamont surgiu o lado negro da natureza humana, o que pode acontecer no centro da escuridão, uma descida durante algumas horas ao patamar do homem das cavernas, culpa de Sonny Barger e sua turma, os Angels. E vinho tinto ruim. Thunderbird e Ripple, as piores merdas de vinho que existem, e ácido ruim. Para mim, foi o fim do sonho. Havia uma coisa como o poder das flores, o flower power, não que a gente visse muito dele, mas já existia o ímpeto para chegar lá. E não duvido que morar em Haight-Asbury entre 1966 e 1970, e mesmo um pouco além, tenha sido muito legal. Todo mundo seguia em frente e era um jeito diferente de fazer as coisas. Mas os Estados Unidos eram muito extremados, oscilando em um minuto entre uma visão quaker da vida e o amor livre, e ainda são assim. E lá a corrente era contra a guerra, basicamente nos deixem em paz, só queremos ficar altos.

Quando Stanley Booth e Mick voltaram para o hotel, depois de termos percorrido a pé o terreno em Altamont, eu resolvi ficar. Era um ambiente interessante. Não vou voltar para o Sheraton e então vir para cá amanhã. Vou ficar aqui enquanto durar. Era o que eu sentia. Tenho tantas horas para me afinar com o que está acontecendo aqui. Era fascinante. Dava para sentir no ar, qualquer coisa podia acontecer. Sendo a Califórnia o que é, era muito bonito durante o dia. Mas, logo que o sol se pôs, ficou muito frio. E aí um inferno de Dante começou a borbulhar. Havia gente, hippies, tentando desesperadamente ser legais. Havia quase um desespero com relação ao amor e à aproximação, tentando fazer com que funcionasse, tentando fazer com que se sentissem bem.
Foi aí que os Angels, com toda certeza, não ajudaram nada. Eles tinham sua própria agenda, que era basicamente tirar daquilo o máximo possível. Dificilmente poderiam ser chamados de uma força organizada. Alguns daqueles caras estavam com os olhos rolando, mastigando os lábios. E houve a provocação deliberada de estacionar as motocicletas em frente ao palco. Porque parece que você não pode tocar numa moto de um Angel. É totalmente proibido. Eles montaram uma barreira com as suas Harleys e desafiaram as pessoas a tocá-las. E, com as pessoas sendo pressionadas para a frente pela multidão, isso se tornou inevitável. Se você assistiu Gimme Shelter, o rosto de um Angel conta toda a história. Ele está espumando pela boca, tem tatuagens, está vestido de couro e usa rabo de cavalo. Está só esperando alguém tocar na sua moto para começar a trabalhar. Eles estão muito bem equipados, têm porretes e todos carregam facas, naturalmente. Faço isso também. Mas mostrá-las e usá-las é outra coisa. É o último recurso.

Quando escureceu e entramos no palco, a atmosfera ficou lúgubre e sombria. Stu, que estava lá, disse: "Está começando a ficar perigoso, Keith". Respondi que íamos ter que enfrentar a situação. A multidão era muito grande e só podíamos enxergar o que ficava próximo do nosso círculo imediato, pois as luzes estavam batendo em nossos olhos, como sempre acontece com as luzes do palco. Estávamos praticamente meio cegos e não era possível ver e discernir tudo o que se passava. Só podíamos cruzar os dedos.

O que poderíamos ter feito? Os Stones estavam tocando, com o que eu podia ameaçá-los? "Paramos de tocar", eu disse. "Acalmem-se ou não tocamos mais." Qual é a vantagem de arrastar sua bunda o caminho inteiro e não ver nada? Mas naquela altura, algumas coisas já estavam em movimento.

Não passou muito tempo antes que a merda fosse jogada no ventilador. No filme, você pode ver Meredith Hunter agitando um revólver e pode ver as facadas. Ele está com um paletó verde-limão e chapéu. Também espumava pela boca, estava tão doido quanto os outros. Porque agitar um berro na frente dos Angels era a mesma coisa que, bem, era o que eles estavam esperando! Foi o estopim. Duvido que a arma estivesse carregada, mas ele queria chamar a atenção. No lugar errado e na hora errada.

Quando aconteceu, ninguém percebeu que ele tinha morrido. O show continuou. Gram também estava lá, estava tocando naquele dia com os Burritos. Nos metemos todos num helicóptero superlotado. Graças a Deus saímos de lá, porque foi apavorante, mesmo estando acostumados a fugas que davam medo. Esta foi somente numa escala maior e num lugar que não conhecíamos. Mas não foi pior do que escapar do Empress Ballroom em Blackpool. De fato, se não fosse pelo assassinato, podíamos até ter achado que as coisas estavam tranquilas, embora por pouco. Foi a primeira vez que tocamos "Brown sugar" ao vivo - um batismo infernal, na confusão de uma noite na Califórnia. Só soubemos o que tinha acontecido quando voltamos ao hotel, mais tarde ou mesmo na manhã seguinte.

*

Vida
Autor: Keith Richards
Editora: Globo
Páginas: 640
Quanto: R$ 49,90
Onde comprar: Pelo telefone 0800-140090 ou pelo site da Livraria da Folha

 
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