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20/01/2011 - 20h22

Praticamos atos de magia todos os dias, diz sociólogo

da Livraria da Folha

Reprodução
Sociólogo mostra como a magia está presente no nosso cotidiano
Sociólogo mostra como a magia está presente em nosso cotidiano

A magia está presente em nosso cotidiano. Ela é praticada pelos crédulos, pelos que "não desacreditam" e, até mesmo, pelos céticos. O sociólogo Antônio Flávio Pierucci defende que vários tipos de sortilégios se escondem nos detalhes do dia a dia.

Atos como bater na madeira, fazer figa na hora do pênalti, consultar regularmente o horóscopo ou simplesmente usar florais de Bach --prática sem eficiência comprovada pela ciência-- são exemplos desses pequenos feitiços.

O livro "A Magia", parte da coleção "Folha Explica", esclarece como vários tipos de magia convivem e são usados em nossa cultura.

Pierucci, professor da USP (Universidade de São Paulo) especialista em sociologia da religião, se fundamenta em teóricos como James Frazer (1854-1941), Henri Hubert (1872-1927), Marcel Mauss (1872-1950), Émile Durkheim (1858-1917), Bronislaw Kaspar Malinowski (1884-1942) e Henri Bergson (1859- 1941). Abaixo, leia um trecho do exemplar.

Atenção: o texto reproduzido abaixo mantém a ortografia original do livro e não está atualizado de acordo com as regras do Novo Acordo Ortográfico. Conheça o livro "Escrevendo pela Nova Ortografia".

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YO NO CREO, PERO...

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"Isola!", falou, e foi batendo três vezes na madeira.

Eis um breve ritual de magia, muito difundido em todas as camadas da população brasileira. Rápido, lépido: três toques na madeira com os nós dos dedos da mão direita fechada, enquanto se pronuncia o signo lingüístico adequado "Isola!", fórmula mágica em tempo de interjeição.

A onipresença dos gestos de magia espontânea em nossa época, as formas modernas de difusão na mídia e o consumo regular da consulta aos astros (o horóscopo diário e o mapa astral informatizado), sem falar da nova onda de profissionalização de magos e bruxas no bojo dos circuitos globalizados de terapias alternativas estilo Nova Era, definitivamente nos proíbem de continuar associando a crença na magia e sua prática aos povos primitivos, às épocas arcaicas e às camadas mais baixas da população. Convém, portanto, iniciar este livro falando das três atitudes básicas que os nossos contemporâneos podem tomar a respeito da existência ou não de poderes mágicos: a crença, o ceticismo e a semicrença.

A crença mágica reside na suposição de que alguns seres humanos são capazes de controlar forças ocultas (pessoais ou impessoais) e intervir nas leis da natureza por intermédio de técnicas rituais. Trata-se de um poder extraordinário --um carisma, no sentido forte do termo-- que, segundo se crê, capacita quem é mago, bruxo, feiticeiro ou xamã a impor sua vontade às forças supra-sensíveis (tanto faz se divinas ou demoníacas) e direcioná-las para a concretização dos objetivos para os quais é solicitada sua competente performance profissional: predizer o destino de alguém, curar uma doença, defender dos invejosos, atacar os inimigos.

Nas sociedades tribais e em outras formas de sociedade tradicional de pequena escala, a crença na magia envolve a coletividade inteira, sendo justamente a fé coletiva o que assevera a eficácia dos ritos da magia primitiva, sua eficácia simbólica.

Diferentemente do que ocorre naquelas sociedades, o que se observa em todos os casos de magia ou feitiçaria registrados pelos estudos antropológicos e históricos das sociedades modernas ou em vias de modernização é apenas um círculo estreito de pessoas que não têm vergonha de confessar sua crença e adesão ao magismo. Um grupo social de referência, que partilha com a pessoa que se diz enfeitiçada a crença na causalidade mágica e no poder especial dos feiticeiros. Em geral, pessoas próximas: gente da família, uma roda afetiva de amigos, vizinhos, sócios, colegas de trabalho, correligionários de clube esportivo, partido político ou comunidade religiosa, pessoas enfim que conhecem de perto o enfeitiçado e talvez saibam da fama do feiticeiro, dividindo com ambos os personagens as mesmas conjecturas e apreensões. Têm na mesma mentalidade mágica o seu quinhão e o fazem vicejar no contexto restrito dos dramas relacionais e antagonismos locais. São indivíduos que admitem sem pestanejar a existência de elementos "sobrenaturais" para explicar de maneira tangível o fas e o nefas, as ocorrências boas e as nefastas, sem causa racionalmente conhecida ou determinada.

É gente que acredita mesmo em feitiço. Dada essa condição, que abriga uma disposição, eles fazem de si mesmos clientes preferenciais dos magos profissionais ou, quem sabe, feiticeiros ocasionais eles próprios, praticantes eventuais da magia espontânea. Dessa que se aprende no boca-a-boca ou, com mais detalhes, nos inúmeros livros e receituários vendidos em lojas de umbanda ou nas seções de esoterismo das boas livrarias.

E há os céticos. Em oposição direta à crença explícita nos feiticeiros e sua magia, está o ceticismo daqueles indivíduos que, tendo adotado o espírito da moderna racionalidade científica, recusam toda interpretação mágica da desgraça ou da felicidade. Desse ponto de vista, a crença na magia é desvalorizada como credulidade ou crendice, julgada debochadamente como ingenuidade, ignorância, atraso mental. Falta de instrução ou, no mínimo, falta de critério. Para os céticos, acreditar em magia ou feitiçaria é não apenas ser mas também parecer primitivo, estúpido, infantil.

A atitude mais generalizada, porém, é a da meia crença. A expressão já está consagrada entre os cientistas sociais anglófonos --half-belief. Tendo de um lado o grupo dos que acreditam e do outro o bloco dos céticos, a posição majoritária nos tempos atuais é a dos semicrentes. São indivíduos que "acreditam sem acreditar", ou "desacreditam acreditando". Impossível não lembrar, a propósito, o citadíssimo adágio espanhol que diz: Yo no creo en las brujas, pero que las hay, las hay ("Não acredito em bruxas, mas que existem, existem").

Essa é apenas uma das muitas atitudes lúdicas (ou nem tão lúdicas assim) que, para além de toda crença firme e incondicional, confessável sem rodeios ou meias palavras, denotam a influência que sobre corações e mentes exerce ainda hoje a magia, "essa grande senhora extraordinariamente bela", no dizer de André Breton, o grande teórico do surrealismo. Semicrença é o que se vê naquele "Eu sou de Escorpião", "Eu sou de Aquário", dito em tom irônico, duvidoso. É a "crença crítica ou, enfim, pseudocrítica", escreveu Philippe Defrance, referindo-se à astrologia. É a atitude de alguém que, dada a impossibilidade que experimenta de ser "racional", cede à contingência de ser apenas "razoável". É a atitude daquele sujeito que, moderno, aceita reconhecer todas as insuficiências da explicação mágica dos fatos, mas também, pós-moderno, se recusa a pôr fundamentalmente em questão a realidade bruta e a um só tempo nebulosa das interferências místicas e ocorrências encantadas que arrastam a imaginação humana.

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"A Magia"
Autor: Antônio Flávio Pierucci
Editora: Publifolha
Páginas: 120
Quanto: R$ 15,12 (preço promocional)
Onde comprar: pelo telefone 0800-140090 ou pelo site da Livraria da Folha

 
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