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03/03/2011 - 11h08

Produtos gratuitos custam caro, diz "O Valor de Nada"

da Livraria da Folha

Divulgação
Autor descobre os custos escondidos no fundo das prateleiras
Pesquisador explica por que tudo custa mais caro do que pensamos

"O Valor de Nada" mostra que o preço que se paga por uma marca não se resume ao custo de produção somado à margem de lucro. Entre outras coisas, o livro examina o preço do celular "gratuito", a expectativa da operadora em reaver esse valor e como o processo contribui para movimentar a economia mundial, aumentando a extração de minérios na África, por exemplo.

Após o colapso financeiro de 2008, Raj Patel, procurou na economia, na história e na sociologia a resposta para a crise. O resultado é uma imagem tridimensional da economia, muito além do binômio oferta e procura.

Escritor, ativista e acadêmico, Raj Patel formou-se na Universidade de Oxford, na LSE (London School of Economics) e na Universidade Cornell, foi professor em Yale, trabalhou no Banco Mundial e na OMC (Organização Mundial de Comércio).

Presente na lista dos mais vendidos do "The New York Times", o título, publicado no Brasil pela editora Zahar, foi caracterizado pelo jornal "The Guardian" como um "guia perspicaz e admiravelmente conciso das loucuras do fundamentalismo do mercado."

Leia, abaixo, um trecho do exemplar.

*

1. A falha

SE A GUERRA É O MEIO EMPREGADO POR DEUS para ensinar geografia aos norte-americanos, a recessão é a Sua maneira de ensinar um pouquinho de economia a todo mundo.

Arte
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A tremenda desordem do setor financeiro mostrou que as mentes matemáticas mais brilhantes do planeta, financiadas por alguns dos bolsos mais cheios, haviam construído não uma elegante engrenagem de prosperidade constante, mas um mecanismo precário de trocas, barganhas e apostas que inevitavelmente ruiu. A recessão não foi decorrente da falta de conhecimentos econômicos, mas, sim, do excesso de um tipo particular de conhecimento, uma exacerbação do espírito do capitalismo. A euforia dos mercados livres os impediu de enxergar outras formas de ver o mundo. Como Oscar Wilde escreveu há mais de um século: "Hoje em dia, as pessoas sabem o preço de tudo e o valor de nada." Os preços se mostraram parâmetros instáveis: o colapso financeiro de 2008 aconteceu no mesmo ano das crises de alimento e petróleo, e ainda assim continuamos incapazes de avaliar nosso mundo por uma perspectiva diferente do prisma enganoso dos mercados.

Uma coisa é clara: as formas de pensar que nos colocaram nessa confusão dificilmente vão nos tirar dela. Pode servir de ligeiro consolo saber que até mesmo alguns dos estudiosos mais respeitados foram forçados a quebrar a cabeça em relação às suas suposições equivocadas. Provavelmente, um dos mais dolorosos reconhecimentos da própria ignorância foi demonstrado no dia 23 de outubro de 2008, quando, em uma sala lotada, diante do Comitê de Supervisão e Reforma Governamental do Congresso, Alan Greenspan descreveu o fracasso de sua visão de mundo.

Greenspan era um dos mais reconhecidos legisladores da economia mundial durante os dezenove anos em que exerceu o cargo de presidente do Federal Reserve (também conhecido como Fed). Membro de carteirinha da brigada do livre-mercado, ele seguia os passos de Ayn Rand, que, embora pouco conhecida fora dos Estados Unidos, continuou sendo influente muito tempo depois de sua morte, em 1982. O livro que ela escreveu em 1957, Quem é John Galt? (Atlas Shrugged, no original), no qual magnatas executivos heroicos enfrentam o flagelo do funcionalismo público e do sindicalismo, voltou a figurar na lista dos mais vendidos. Ao encarar o altruísmo como "canibalismo moral", Rand foi a chefe de torcida de uma escola de pensamento radicalmente libertária em relação ao livre-mercado, que ela mesma chamou de "Objetivismo". Atraído para o círculo da escritora por essa inebriante filosofia, Greenspan recebeu o apelido de "Agente Funerário" em função de seu comportamento "divertido" e de seu modo de vestir. Quando Greenspan escolheu fazer carreira no setor público, foi como se um hippie tivesse se alistado nas Forças Armadas, um lapso que seus antigos amigos jamais perdoaram. Apesar disso, Greenspan continuou bastante fiel à filosofia de Rand, acreditando que o egoísmo levaria ao melhor mundo possível, e que qualquer tipo de restrição resultaria em desastre.

No final de 2008, Greenspan foi intimado pelo Congresso dos Estados
Unidos a testemunhar sobre a crise financeira. Sua gestão no Fed tinha sido longa e elogiada, e o Congresso desejava saber o que acontecera de errado. Quando começou a ler seu testemunho, Greenspan parecia exausto, a pele do rosto flácida e caída, como se o vigor que antes o mantivera firme tivesse desaparecido por completo. Mas ele se saiu bem. Na primeira parte do depoimento, criticou as informações com as quais trabalhara. Se os dados estivessem certos, os modelos econômicos teriam funcionado e as previsões seriam melhores. Em suas palavras,

um Prêmio Nobel foi concedido pela descoberta do modelo de preços que sustenta grande parte do avanço dos mercados de derivativos. Esse paradigma moderno de administração de risco se manteve estável durante décadas. No entanto, todo o edifício intelectual entrou em colapso no verão do ano passado, porque, em geral, os dados incluídos nos modelos de administração de risco cobriam apenas as duas últimas décadas, que foram um período de euforia. Caso os modelos tivessem sido elaborados de modo mais apropriado para períodos históricos de crise, as exigências de capital teriam sido muito maiores e o mundo financeiro estaria muito melhor hoje, em minha opinião.

Esse é um argumento do tipo "despir um santo para vestir outro". O modelo funcionava bem; as suposições sobre risco e os dados, baseadas apenas nos bons tempos do passado, é que eram enganosas, e assim, de modo correspondente, o resultado foi equivocado.

*

"O Valor de Nada"
Autor: Raj Patel
Editora: Zahar
Páginas: 240
Quanto: R$ 39,96 (preço promocional)
Onde comprar: pelo telefone 0800-140090 ou pelo site da Livraria da Folha

 
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