Saltar para o conteúdo principal
 
08/05/2011 - 20h00

"A Garota da Capa Vermelha" reformula clássico infantil; leia trecho

da Livraria da Folha

Os contos de fadas têm suas origens indeterminadas, e muitos historiadores concordam que não se tratavam de histórias para divertir as crianças, mas para alertá-las dos perigos que os esperariam fora de casa.

Por conta disso, é possível encontrar versões sombrias, repletas de violência e terror, dos clássicos infantis. Assim, "A Garota da Capa Vermelha" reconta a história de "Chapeuzinho Vermelho" com um estilo mais soturno e misterioso.

Divulgação
Cena do filme "A Garota da Capa Vermelha"
Cena do filme "A Garota da Capa Vermelha"

Recentemente, o livro tornou-se filme pelas mãos de Catherine Hardwick, responsável por "Crepúsculo". O longa é estrelado por Amanda Seyfried e Gary Oldman e segue a linha das produções adolescentes que mesclam romance e criaturas sobrenaturais.

A trama mostra uma aldeia assombrada por um ser mítico, conhecido como Lobo. Valerie, após a morte de sua irmã, decide investigar a fundo esta maldição que assombra gerações. Quem conhece os segredos e pode ajudar a jovem é sua avó, que sabe muito mais do que revela.

Leia abaixo um trecho do capítulo extra do livro:

*

- Peter?

Valerie desvencilhou-se do abraço e deu um passo atrás. Viu que o rosto dele estava machucado e arroxeado. Sobre um dos olhos havia um corte vermelho vivo. Ele estendeu a mão em sua direção, mas ela se retesou, com os olhos fixos em algo. A mão dele... ambas as mãos. Ele estava usando luvas. Luvas de soldado.

Os pensamentos de Valerie se redirecionaram para o Lobo, cuja pata fora queimada ao ser introduzida em solo consagrado.

- Graças a Deus você está bem - disse ela, lembrando a si mesma de que isto não tinha importância.

Ele olhou para baixo, arrastou as botas e voltou a olhar para ela. A neve que caía sobre eles iluminava seus olhos negros.

- Onde você estava? - arriscou ela.

Peter percebeu o medo faiscar no rosto de Valerie, como o tremeluzir de uma chama recém-acesa.

- Eles me trancaram dentro daquela coisa deles, aquele elefante de metal idiota - protestou Peter, indignado.

Valerie olhou para seus olhos marrom-escuros, que tão bem conhecia agora, e para as contusões que enegreciam sua pele.

- Você não acredita em mim? - disse Peter, dando um passo à frente, desejando que ela mudasse de ideia.

- Não chegue perto de mim - disse ela.

O vigor de sua voz a surpreendeu. Não se considerava forte; sentia-se mais fraca que nunca. O medo fortalecia seu coração.

Quando Peter estendeu a mão para tocar seu rosto, Valerie se curvou e enfiou a mão na bota. Tentando ser corajosa, mas sentindo-se minúscula, brandiu a faca enquanto recuava.

- Por favor, não - implorou ela.

Ele, não obstante, tocou seu rosto. Ela se viu fazendo algo. Visualizou a faca à sua frente, viu uma brilhante linha vermelha se desenhar na pele dele. Ele se curvou com a dor. Dando meia-volta, ela tentou se afastar, antes que ele tivesse chance de olhar ao redor.

Enquanto corria, o emaranhado de árvores retorcidas se tornou um borrão. Sentia todas as emoções e, ao mesmo tempo, nenhuma. Só percebeu que estava chorando quando, já sem fôlego, não conseguiu correr mais. Com o sangue pulsando nas têmporas, observou suas lágrimas fenderem a lisa superfície da neve, afundando até o chão. Lentamente, olhou para trás. Peter fora embora ou a nevasca estava forte demais para que ela o visse?

"Não importa", decidiu. Continuaria a correr; treinaria a si mesma para enfrentar o que viesse. Olhou então para a casa da Avó e para a floresta escura.
- Avó?

Valerie martelou a porta com os punhos.

- Me deixe entrar!

- Puxe o trinco, querida - disse uma voz nas profundezas da casa na árvore.

Foi o que ela fez. Depois, entrou às pressas na casa, bateu a porta e passou a corrente, tudo em um só movimento. Pousando a cesta no chão, sentou-se em uma estreita cadeira de balanço e observou a sala que conhecia tão bem.

Aquele sempre fora um lugar encantado para ela, uma floresta interna onde as coisas cresciam de forma plena, lindas e saborosas, onde a natureza podia seguir seu curso. Um pote de ensopado fervia sobre o fogo. A cabana estava tranquila como uma pintura. Como era estranho que nada tivesse mudado na casa da Avó... Era como se Valerie tivesse ingressado num mundo em miniatura, perfeitamente ordenado. O brilho do fogo iluminava o aposento. Ela não viu sua avó.

- Você está bem? - gritou na direção do quarto.

A Avó não respondeu. Valerie houve por bem se explicar.

- Eu tive um pesadelo.

Sentiu-se tola ao dizer isso em voz alta, mas seu embaraço logo se transformou em terror. Um vulto escuro passou diante dela como um raio em direção ao quarto de dormir.
Pé ante pé, ela se aproximou da cama da Avó. Um passo, mais outro, e chegou perto o bastante para perscrutar entre as diáfanas cortinas de seda. Inclinou-se para enxergar melhor. Tomada pelo medo, viu o que sempre soubera, no fundo do coração, que iria encontrar.

Olhos dourados brilhavam intensamente no escuro em uma visão chocante. O Lobo.
Mas a chama de um fósforo brilhou e uma vela foi acesa - iluminando o rosto da Avó. Não era o Lobo, nunca fora o Lobo. Era apenas a Avó.

- Vou sair num minuto.

Valerie conseguiu discernir a Avó através das cortinas, esfregando os olhos e alisando a camisola. Apoiou--se então na mesinha de cabeceira e tentou conter as emoções. Levando a mão à cabeça, massageou levemente a área que Solomon machucara.

- Eu... - Ela começou a tremer, mas lembrou-se de que tinha de se controlar. - Eu acho que o Lobo está lá fora.

A Avó não pareceu preocupada.

- Está tudo bem, querida - disse ela em voz tranquila, como um lago ao alvorecer. - Estamos seguras aqui. Tem ensopado no fogo. Lembre-se: lágrimas com pão...

-... passageiras são - murmurou Valerie.

Distraidamente, serviu-se de uma concha de ensopado e atiçou o fogo.

A Avó riu. Seu rosto parecia estranho através das cortinas, sua voz estava diferente, seu riso também. Mas ela era a mesma, Valerie disse a si mesma. Tinha que ser. A voz da Avó era abafada, profunda, quase masculina.

- Isso mesmo. Coma, querida.

Valerie não estava com fome, mas não queria ser rude. Sentia-se estranha. Costumava ser espontânea com a Avó. Ao levar a colher de ensopado até os lábios relutantes, algo roçou suas pernas. Seu coração parou.

Era o gato preto da Avó. Valerie estendeu a mão e acariciou as orelhas aveludadas do animal. Mas não era afeição que o gato queria. Lambendo os beiços, ele olhava fixamente para a tigela fumegante.

Os olhos de Valerie se arregalaram, e ela teve a sensação de que a sala começava a girar.

*

A Garota da Capa Vermelha
Autor: Sarah Blakey-cartwright
Editora: iD Editora
Páginas: 364
Quanto: R$ 39,90
Onde comprar: Pelo telefone 0800-140090 ou pelo site da Livraria da Folha

 
Voltar ao topo da página