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31/05/2011 - 19h00

Confessionário e sacristia já foram lugares para se marcar encontro

da Livraria da Folha

No passado colonial do Brasil, algumas sacristias e confessionários serviram para encontros e flertes. Houve alguns mal-entendidos entre padres e paroquianos e queixas do gênero chegaram a ser registradas.

"Tal foi sucedido com Marciana Evangelha, moça solteira de 29 anos que, no Maranhão, denunciara o jesuíta José Carlos ao comissário do Santo Ofício em outubro de 1753. Ela o acusara de pedir-lhe 'seu sêmen', de dizer que 'desejava ver nua' e ainda de lhe pegar 'nos peitos no confessionário'", conta o livro "Histórias Íntimas".

Divulgação
Livro investiga a sexualidade e erotismo na história do Brasil
Livro investiga a sexualidade e erotismo na história do Brasil

Escrito pela historiadora Mary del Priore, pesquisadora que também assina "Ancestrais: Uma Introdução à História da África Atlântica", "A Família no Brasil Colonial", "500 Anos Brasil: Histórias e Reflexões, "Festas e Utopias no Brasil Colonial" e "Matar para Não Morrer", o volume narra como a sexualidade e a intimidade foram se transformando no decorrer do tempo.

No inicio da colonização, "o pudor que se definia nos dicionários não era um conceito espalhado na sociedade", conta a autora. O leitor, percorrendo os capítulos da obra, descobrirá como um assunto evitado a todo custo se tornou o mais visto e comentado.

Mary já venceu duas vezes o prêmio Casa Grande & Senzala e um Jabuti para obra de relevo em ciências sociais. Leia, abaixo, um trecho do extraído da obra.

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Desde o início da colonização lutou-se contra a nudez e aquilo que ela simbolizava. Os padres jesuítas, por exemplo, mandavam buscar tecidos de algodão, em Portugal, para vestir as crianças indígenas que frequentavam suas escolas: "Mandem pano para que se vistam", pedia padre Manoel da Nóbrega em carta aos seus superiores. Aos olhos dos colonizadores, a nudez do índio era semelhante à dos animais; afinal, como as bestas, ele não tinha vergonha ou pudor natural. Vesti-lo era afastá-lo do mal e do pecado. O corpo nu era concebido como foco de problemas duramente combatidos pela Igreja nesses tempos: a luxúria, a lascívia, os pecados da carne. Afinal, como se queixava padre Anchieta, além de andar peladas, as indígenas não se negavam a ninguém.

A associação entre nudez e luxúria provocava os castigos divinos. Ameaçavam-se as pecadoras que usavam decotes. Eis por que a luxúria foi associada a uma profusão de animais imundos: sapos, serpentes ou ratos que se agarravam aos seios ou ao sexo das mulheres lascivas. Nas igrejas, pinturas demonstravam os diabos que recebiam as almas pecadoras, nuas em pelo, com golpes de pá e tridentes. Nos livros de oração com imagens, o justo morria sempre de camisola. O pecador, despido! Enterravam se as pessoas vestidas, para ressuscitarem com roupas que as identificassem.

Mas que significado teria o nu, na Idade Moderna? A nudez era erótica? Havia, então, uma grande diferença entre nudez e nu. A nudez se referia àqueles que fossem despojados de suas vestes. O nu remetia não à imagem de um corpo transido e sem defesa, mas ao corpo equilibrado e seguro de si mesmo. O vocábulo foi incorporado, no século XVIII, às academias de ciências artísticas, onde a pintura e a escultura faziam do nu o motivo essencial de suas obras.

A realidade, porém, era menos "artística". Viajantes estrangeiros que passavam pelo Brasil, nessa época, ficavam chocados com a nudez dos escravos nas ruas. As poucas blusas que escorregavam pelo ombro, os seios nus, magros e caídos, escorrendo peito abaixo. E, contrariamente aos nossos dias, não havia lugar do corpo feminino menos erótico ou atrativo do que os seios. As chamadas "tetas", descritas nos tratados médicos como membros esponjosos próximos ao coração, tinham uma só função: produzir alimento. Acreditava-se que o sangue materno cozinhava com o calor do coração, tornando-se branco e leitoso.

Os seios jamais eram vistos como sensuais, mas como instrumentos de trabalho de um sexo que devia recolher-se ao pudor e à maternidade. O colo alvo, o pescoço como "torre de marfim" cantado pelos poetas, pouco a pouco começa a cobrir- -se. E isso até nas imagens sacras. Estátuas da Virgem Maria em estilo barroco, antes decotadas, ou a própria Virgem do Leite - que no Renascimento expunha os bicos -, desaparecem de oratórios e igrejas. Nossa Senhora passa a cobrir -se até o queixo, quando não era vestida pelas próprias devotas.

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"Histórias Íntimas"
Autor: Mary Del Priore
Editora: Planeta
Páginas: 256
Quanto: R$ 23,90 (preço promocional)
Onde comprar: pelo telefone 0800-140090 ou pelo site da Livraria da Folha

 
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