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29/06/2011 - 21h00

Sucesso no Brasil e em Portugal, "O Fundador" ganha nova edição

da Livraria da Folha

Divulgação
As venturas e desventuras de Tomé de Sousa, Caramuru e Garcia d'Ávila
Nova edição totalmente revisada, ou até reescrita, é lançada no Brasil

"O Fundador", romance histórico escrito há mais de uma década por Aydano Roriz, acaba de ganhar nova edição revista e publicada pela Editora Europa.

"Os originais deste livro foram finalizados em 1999, e renderam várias edições no Brasil e em Portugal. Ainda assim, em 12 anos, todos nos aprendemos alguma coisa. Por isso mesmo, quando fui convidado a fazer uma revisão para esta nova edição brasileira, eu não me contive. Acabei reescrevendo boa parte do livro", conta Roriz.

Com narrativa divertida, o volume narra a trajetória de Tomé de Souza, Caramuru e Garcia d'Avila, homens enviados para fundar a primeira capital brasileira. Leia um trecho do exemplar.

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*

Imprevisível destino

No aposento pequeno e austero, de paredes e piso de pedra, teto de madeira rústica, raros móveis e adornos inexistentes, o senhor das terras recebeu o criado de pé e não o convidou a sentar-se. O rapaz tirou o barrete de pano e inclinou a cabeça no cumprimento habitual. Dom Tomé de Sousa cruzou os braços atrás das costas. O arquear das sobrancelhas, emprestavam-lhe certo ar que bem poderia ser tomado por soberba. Não era muito alto, nem muito baixo. Contudo, gozando o dolce farniente do campo há uns dez anos, o ventre mostrava-se um tantinho pronunciado.

- El-rei - iniciou o fidalgo sem rodeios - houve por bem nomear-me governador-geral das Terras do Brasil.

- Nas Índias, senhor? - questionou o moço, sem conter o entusiasmo. As Índias eram o sonho dele, e de nove entre dez jovens de Portugal.

- Não. O Brasil é uma terra nova, que Dom Manuel, o pai de Dom João, mandou descobrir do outro lado do Mar Oceano. É a terra dos papagaios, e daquele pau-de-tinta que se usa para encarnar tecidos.

- O que dá aquele pó avermelhado, senhor?

- Aquele mesmo. É feito de uma árvore, também chamada de pau-brasil.

- Pau-brasil - reticenciou, mexendo a cabeça. - Penso que já entendi. É por isso que o nome das terras é Brasil? Conquanto gozasse da fama de homem sisudo, de poucas palavras, Dom Tomé não conseguiu se furtar a ensaiar um sorriso. Não era à toa que a esposa, Dona Maria, e a filha Helena, elogiavam tanto o tal Garcia d'Ávila. O rapaz era mesmo perspicaz.

- Creio que não. Pelo que sei, muito antes de se descobrir essas terras novas, o pau-brasil, ou bois rouge, como dizem os franceses, já era conhecido nas tecelagens da Normandia. Mas isso não vem ao caso - interrompeu a dissertação, caminhando até o aparador para servir-se de uma taça de vinho. - O que importa é que eu estou de partida para o Brasil. El-rei confiou-me um serviço dele. Mandou-me construir uma fortaleza. Uma cidade fortificada.

- Uma cidade inteira, meu senhor, assim como Povoa de Varzim?

- Mais ou menos. Uma cidade grande e bem guardada, para ser a sede do governo-geral da colônia.

- Que grande serviço! Que Nosso Senhor Deus auxilie e proteja Vosmecê.
O fidalgo tomou um gole do vinho. Depois passou uma das mãos pela barba espessa e torceu a ponta dos bigodes.

- Mas não é só a cidade. Tenho outras tarefas a cumprir. El-rei mandou-me explorar a costa, dar perseguição aos corsários Muito serviço. Daí estar a precisar de gente trabalhadora e de honradez.

- Existe muita gente assim, senhor.

- Eu sei - assentiu, voltando a regar a garganta com o vinho do porto, que costumava bebericar entre uma refeição e outra. - A questão é que el-rei está mandando muita gente graúda comigo. O provedor-mor, um ouvidor, o tesoureiro da Fazenda, escrivães, meirinhos, oficiais de armas... Gente que não conheço. Preciso de alguém da minha confiança.

Gente que queira servir a el-rei e a mim.

- Se o meu senhor confiar-me o serviço - apressou-se em propor Garcia, com um sorriso tímido.

- É o que eu estava cá a pensar - admitiu, coçando as brotoejas do pescoço, por baixo da barba farta. - És judeu, meu rapaz?

- Deus me livre, senhor.

- Cristão-novo?

Garcia fez cara de quem não entendeu.

- Cristão-novo, marrano, judeu convertido

- De jeito nenhum, senhor. - Isso é bom. Já tenho problemas de sobra. Diz-me cá. A minha filha, a menina Dona Helena, contou-me que sabes escrever. Verdade? Sabes também fazer as contas?

- Sei um pouco, sim, senhor.

- Já tiveste essa febre aí, a tal da bexiga?

- Graças a Deus, não, senhor.

- E a bouba?

- Não, meu senhor.

Perguntou se Garcia era casado ou se vivia amancebado. E diante da negativa:

- Uma pena. Careço povoar aquelas terras. Mas não há de ser nada. Dizem que entre os gentios de lá, existem raparigas bem fornidas e de muito bom parecer.

O rapaz sorriu. Para sua surpresa, o fidalgo parecia daquela vez mais simpático do que sempre sugerira a sua grave figura. Naturalmente, precisava ser tratado com a distância e a reverência devidas. Contudo, de certa maneira, dava para se sentir algo à vontade em presença dele.

- Prepara-te então. Tens indicação de alguém para cuidar dos teus afazeres cá na quinta?

- Assim de estalo, não, senhor. Mas não há de faltar.

- Encontra, então, e mo traze - concluiu o amo, se pondo de costas e caminhando em direção ao aparador, para servir-se de mais vinho. - Deveremos estar de partida no início do ano que vem. Por enquanto é só. Podes ir.

*

"O Fundador"
Autor: Aydano Roriz
Editora: Editora Europa
Páginas: 384
Quanto: R$ 35,00 (preço promocional, válido por tempo limitado)
Onde comprar: pelo telefone 0800-140090 ou pelo site da Livraria da Folha

 
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