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21/10/2011 - 19h00

Leia trecho de "O Homem que Inventou Fidel"

da Livraria da Folha

No livro "O Homem que Inventou Fidel", Anthony DePalma conta a história de Herbert Lionel Matthews (1900-1977), profissional que arruinou sua reputação de 45 anos de jornalismo por defender Fidel. Matthews foi acusado de ter inventado um homem que nunca existiu.

Em comemoração aos 25 anos da editora Companhia das Letras, o título ganhou desconto especial. Leia um trecho do exemplar.

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Atenção: o texto reproduzido abaixo mantém a ortografia original do livro e não está atualizado de acordo com as regras do Novo Acordo Ortográfico. Conheça o livro "Escrevendo pela Nova Ortografia".

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Reprodução
Autor investiga como jornalista arruinou a carreira ao defender Fidel
Autor investiga como jornalista se arruinou ao defender Fidel Castro

Poderia haver coisa mais louca?

Sábado, 1o. de dezembro de 1956
Ao largo da costa sudeste de Cuba

Eles estavam à escuta.

Ocultos pela escuridão daquela noite de inverno, estavam à escuta, e quanto mais se esforçavam para ouvir a voz, mais débil ela parecia ficar.

"Aquí! Aquí! Aquí!"

As águas eram tão negras quanto a noite era densa, um cobertor perfeito que absorvia qualquer resíduo de luz e desviava qualquer som. Durante uma semana, os 82 homens que se apertavam a bordo do desgastado iate de madeira de dezoito metros mantiveram as bocas fechadas, sem falar mais alto do que um sussurro, para passar pelas patrulhas montadas por Fulgencio Batista, o ditador cubano que juraram derrubar. Agora, ensopados de pânico, amaldiçoavam a noite e o mar que havia tragado um deles.

"Aqui!" A voz estava sumindo, como passos que se afastam numa calçada da cidade.

Somente os homens que estavam mais perto sabiam que se tratava de Roberto Roque, que havia subido no topo escorregadio da cabine do capitão em busca de algum vislumbre de luz. De acordo com seus cálculos, o farol do cabo Cruz, na ponta dominada pela floresta da província de Oriente, cerca de oitocentos quilômetros a leste de Havana, deveria estar piscando no horizonte. Segurando-se numa barra transversal presa à antena do barco, ele se inclinara para a frente, a fim de ver alguma coisa adiante e dar esperanças aos homens de que se aproximavam da terra. Mas não havia nada. Era um presságio da natureza improvável da missão o fato de que encontrassem dificuldades para achar o caminho de casa. Afinal, Cuba é, de longe, a maior ilha do Caribe, com 3732 quilômetros de costa e várias cadeias montanhosas, entre elas a escarpada Sierra Maestra, em Oriente, onde se situa o pico Turquino, o ponto mais alto do país. A ilha espalha-se pelas águas verde-marinhas do Caribe como a fumaça de um acampamento que se dirige diretamente para o litoral intimidador dos Estados Unidos. E, como o fogo, é quente e etérea, da abafada Santiago de Cuba, no leste, à sofisticada Havana, no oeste. Entre os dois extremos havia fazendas, praias, ferrovias, fábricas, museus, teatros de ópera, mulheres vestidas com elegância e empresários escorregadios de cabelos negros - um mundo exótico, mágico em si mesmo. E eles não conseguiam encontrá-lo.

Roque começou a descer para a massa de braços e pernas emaranhados no convés como uma corda quando uma onda chacoalhou o velho barco. Ele perdeu o equilíbrio.

"Parem as máquinas", alguém gritou. Todos os homens que conseguiram se levantar espiaram para fora, mas era como olhar para um poço de mina.

"Aqui!"

O piloto dominicano Pichirilo Mejiás puxou com força o leme para fazer o barco voltar, navegando totalmente na esperança. Fez círculos e mais círculos, mas foi inútil. Como poderiam achar a cabeça de um homem boiando na água como um coco se não eram capazes de localizar nem mesmo a costa recortada de Cuba? Os homens estavam cansados, famintos e enjoados do mar que os torturava havia sete dias, enquanto atravessavam o golfo de Tuxpan, no México, até as águas ao largo da costa sudeste de sua fascinante terra natal. Já estavam desesperadamente atrasados. Haviam escutado pelo rádio de bordo que a insurreição que deveriam ter deflagrado, iniciada sem a presença deles em Santiago de Cuba, fora logo sufocada. Enquanto seus camaradas eram presos ou mortos, eles ficaram dois dias em alto-mar.

"Aqui!"

A voz de Roque sumira quase completamente e vários homens começaram a entrar em pânico. Tudo estava dando errado e ainda não tinham disparado um único tiro. Todos prometeram dar tudo, inclusive a vida. Era para isso que haviam treinado no México, sob o comando de um velho coronel espanhol que os ensinara a segurar um rifle e a marchar durante dias sem se queixar. Era para isso que estavam preparados quando embarcaram armas e munição no iate cheio de cupins, carinhosamente batizado pelo ex-dono americano de Granma [Vovó]. E era esse o foco da atenção deles quando abraçavam a barriga e se inclinavam sobre baldes enquanto ventos de quarenta nós sacudiam a embarcação ridiculamente lotada e a jogavam de uma onda para outra como um brinquedo, durante quase toda a travessia do golfo. Agora, com as pernas bambas e fedendo a vômito e óleo diesel, não estavam preparados para perder o primeiro homem sem nem ao menos lutar.

Quarenta e cinco minutos se passaram, e era crescente o terrível sentimento de que a missão, tal como Roque, estava condenada. Então, quando temiam ter de deixá-lo para trás, o comandante deu a ordem para acender a luz de busca, ainda que isso pudesse entregar a posição deles. Escutaram a voz de Roque de novo, muito mais fraca, mais cheia de medo do que de insistência.

"Aqui."

Mejiás, o piloto, foi quem o viu primeiro, e depois outros o ajudaram a içar Roque da água. Puxaram-no para bordo, pingando água fria e medo. Uma vez mais, parecia, o azar ameaçara a missão esquecida por Deus, mas haviam conseguido evitar o desastre. Olharam para o jefe, em busca de reafirmação. Fidel Castro permanecia resoluto, e eles foram em frente.

A navegação em círculos para encontrar Roque havia confundido o piloto e afastado o barco ainda mais da rota. Quando os vigias divisaram as luzes do farol do cabo Cruz, os primeiros raios do dia já penetravam a escuridão. Uma névoa azulada cobria a superfície do mar enquanto eles avançavam para águas mais rasas. O perfil das árvores se desenhava debilmente através do alvorecer cinzento. Em silêncio, o casco de madeira do Granma arranhou o fundo arenoso e parou, sem poder avançar mais ou deslocar-se.

Eles estavam a cem metros das primeiras árvores, que podiam ver à distância enquanto tiravam suas roupas fedorentas e vestiam uniformes verde-oliva novos, com a insígnia vermelha e preta do Movimento 26 de Julho nos ombros. Calçaram botas novas. Abriram as caixas e Fidel colocou em suas mãos rifles e armas menores que ainda cheiravam a óleo.

Apesar do estado deplorável de seus homens, apesar do dano já causado por suas deficiências logísticas, Fidel continuava confiante. A idéia de novamente pôr os pés em solo cubano, depois de quase dezoito meses no exílio, o ajudou a esquecer tudo o que havia dado errado. Eram contratempos insignificantes se comparados com o que estavam prestes a realizar. Pela primeira vez em sua longa e difícil história, o país iria se livrar de todos os grilhões coloniais. Não teria de suportar o jugo espanhol, que fizera de Cuba a primeira das colônias de Espanha no Novo Mundo e a última a ser entregue pelo decrépito império, só depois de a guerra contra os Estados Unidos, em 1898, ter sido perdida. Cuba também não seria mais a corrupta pseudocolônia americana em que se transformara quando os espanhóis se foram, com Washington sustentando um presidente desonesto após outro. Não, a revolução que estavam para iniciar iria libertar o país para sempre, e, embora não tivesse pensado no resultado final, nem avaliado de modo realista como ela poderia ser conduzida depois, ou por quem, Fidel acreditava que sua revolução seria uma batalha de idéias, como aquela travada por seu herói José Martí. Não precisava de um exército maior do que o de Batista para vencer. Para sua guerra, eram necessários apenas corações firmes e vozes ressoantes para instigá-los a prosseguir. Ele tinha alguma noção do que faria após sua vitória e de quais idéias triunfariam, mas nenhum plano definitivo de governo para Cuba, nem para onde levaria o país. Isso viria depois. No momento, seu foco estava no cumprimento do voto que fizera pela primeira vez em 1955, durante uma viagem de levantamento de fundos a Nova York, mais tarde repetido em todos os lugares que visitou. "Seremos livres ou seremos mártires até o final de 1956", jurara com sinceridade várias vezes. Amanhecia o dia 2 de dezembro de 1956.

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"O Homem que Inventou Fidel"
Autor: Anthony DePalma
Editora: Companhia das Letras
Páginas: 400
Quanto: R$ 29,50 (preço promocional*)
Onde comprar: pelo telefone 0800-140090 ou pelo site da Livraria da Folha

* Atenção: Preço válido por tempo limitado ou enquanto durarem os estoques. Não cumulativo com outras promoções da Livraria da Folha. Em caso de alteração, prevalece o valor apresentado na página do produto.

 
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