Crescimento estável e sustentável é desafio para novo chefe do Fed

Primeiro desafio de Jerome Powell será determinar como obter crescimento tanto adequado quanto financeiramente sustentável - AP
LAWRENCE SUMMERS
Washington

Janet  Yellen concluiu seu mandato à frente do Fed (Federal Reserve), o banco central dos EUA, com desemprego muito menor do que existia quando ela assumiu o posto, inflação baixa e próxima da meta, e um sistema financeiro mais capitalizado e mais líquido. O que mais se poderia esperar de um líder do Fed?

O sucesso de Yellen é um tributo ao seu juízo e ponderação. Também é importante que, como Alan Greenspan nos anos 1990, ela tenha reconhecido rapidamente uma grande mudança estrutural na economia e ajustado a política monetária de maneira distinta daquela que os modelos tradicionais proporiam.

No caso de Greenspan, a mudança estrutural foi a aceleração no crescimento da produtividade. No de Yellen, foi a queda na taxa neutra de juros --a taxa sob a qual poupança e investimento se equilibram sem grande aceleração ou desaceleração do crescimento.

O primeiro desafio que o estimável Jerome Powell enfrentará como presidente do Fed será determinar como obter crescimento tanto adequado quanto financeiramente sustentável.

Deflação

Mesmo com taxas de juros muito baixas, o nível normal de poupança privada excede substancialmente o nível normal de investimento privado nos EUA. E o diferencial é multiplicado por fluxos de capital estrangeiro.

Isso cria uma tendência deflacionária que só pode ser compensada por deficit orçamentários ou condições financeiras que deprimam artificialmente a poupança e elevem o investimento.

Os valores dos ativos e os níveis de captação não podem crescer mais que o PIB (Produto Interno Bruto) por prazo indefinido, ainda que sua capacidade de fazê-lo por algum tempo tenha contribuído para o sucesso econômico dos últimos anos.

Se o Federal Reserve elevar os juros o bastante para garantir estabilidade financeira, existirá o risco de que a economia se desacelere demais. E, se o seu foco for manter o crescimento necessário a cumprir a meta de inflação, existirá risco de alta ainda maior do endividamento e nos preços dos ativos, o que prepararia o terreno para futuros problemas.

É um equilíbrio difícil de encontrar. Exceto nos períodos que se seguem a recessões, faz muito tempo que a economia dos EUA não cresce bem com uma fundação financeira estável.

História

A história determinará o grau de estabilidade das condições financeiras dos últimos anos. Antes disso, estávamos em recuperação da recessão de 2008/2009, que foi precedida por um período de excessos financeiros no mercado da habitação e outros. Antes desses excessos, tivemos a recessão e a recuperação de 2001, por sua vez precedida pelas bolhas da internet e do mercado de ações no final dos anos 1990.

Com isso, já faz uma geração que a economia dos EUA desfrutou pela última vez de crescimento estável e financeiramente sustentável, sobre uma base forte. Boa sorte, senhor presidente.

Tradução de PAULO MIGLIACCI

Washington Post

Comentários

Os comentários não representam a opinião do jornal; a responsabilidade é do autor da mensagem.