Descrição de chapéu Consumo Consciente

Criança vendendo para criança é como Black Mirror, diz publicitária

Vídeos de demonstração de brinquedos são duplamente perversos, afirma

Mara Gama
São Paulo

Monitorar as crianças e discutir a publicidade com elas são as armas mais eficazes que pais e professores têm para combater o consumismo infantil no país hoje.

"Quando uma mãe e um pai têm capacidade crítica e informação sobre os mecanismos usados para vender os produtos eles devem conversar com as crianças. Nós fazemos isso no jantar, no almoço, nos trajetos e quando estamos em lojas", conta a publicitária Mariana Sá, uma das fundadoras do Milc - Movimento Infância Livre de Consumismo, grupo que acaba de completar 6 anos.

Mariana tem dois filhos, uma de 13 anos e um de 8 anos. Trabalha como servidora pública na Bahia e atua como ativista pela regulamentação da comunicação mercadológica dirigida à criança.

Para ela, os vídeos que mostram crianças desempacotando brinquedos para mostrar detalhes, peças e funcionalidades mostram que "o espaço demarcado da publicidade não existe mais". "A publicidade permeia todas as nossas comunicações. Os anunciantes se aproveitam da ingenuidade da criança que propaga e da criança que recebe. É duplamente perverso. É um "Black Mirror"", diz ela, se referindo à série de ficção da TV britânica que especula sobre decorrências da incorporação das novas tecnologias na vida contemporânea.

Consumo Infantil - Dicas de segurança
Vídeos de "unpacking" e "unboxing" são duplamente perversos - Núcleo de imagem

 A seguir, trechos da entrevista:

ATUAÇÃO DO MOVIMENTO

Em 2012, começamos a debater com um grupo de publicitários. Mas toda a comunicação desse grupo era baseada na ideia de que os pais têm de proibir. E os publicitários poderiam continuar a fazer o que quisessem. Começamos a questionar e se formou um movimento de pais. Foi a primeira vez que os pais chegaram ao debate demonstrando indignação contra a publicidade infantil. Fundamos o Milc, participamos de discussões e temos bastante alcance no Twitter, no Facebook. Nosso blog tem mais de 500 textos analíticos e de reflexão sobre os prejuízos que a comunicação mercadológica causa nas famílias, nas crianças e no planeta. Acabamos de completar 6 anos.

UNBOXING E UNPACKING - DESEMPACOTAMENTO DE BRINQUEDOS

Ele é perverso com a criança que assiste e com a criança que faz. As crianças que fazem mimetizam um comportamento adultizado. Elas estão trabalhando, mas é como se não estivessem. Esse tipo de atividade a gente não está acostumado a entender como trabalho infantil. Mas é. Os atores mirins e modelos crianças que estão em estúdios de TV são protegidos por algum tipo de legislação. O Ministério Público pode investigar. Os produtores têm de cumprir determinadas regras. Mas, para as crianças que fazem esses vídeos divulgados na internet não há legislação. Eles estão com os pais, muitas vezes em casa. Trabalham sem nenhuma fiscalização. São crianças que modelam suas vidas com a ideia de performance, sucesso, com a fama precoce. As crianças que assistem não têm capacidade cognitiva para saber que a criança que está ali mostrando um brinquedo não está dando sua opinião sincera sobre aquele produto. Ela está fazendo propaganda.

PUBLICIDADE VELADA

Como a discussão sobre ética na publicidade tem avançado no mundo todo, os anunciantes estão buscando essa forma de exibir seus produtos que é perversa, a publicidade velada, escamoteada como se fosse conteúdo. As TVs abertas e fechadas estão com a audiência caindo. Então os anunciantes vão para a internet. Mas quando você coloca criança falando com criança até o Conar [Conselho Nacional de Autorregulamentação Publicitária ] fica contra. Ele não defende a comunicação de criança para criança, que é o que está sendo feito nessas peças de "unboxing".

PROTEÇÃO 

Existe algo a fazer além de monitorar as crianças? Acho que, no momento, não existe mais nada. A sociedade mudou e não há legislação capaz de disciplinar esse tipo de mensagem. É impossível saber se aquela que está sendo dita é uma opinião sobre um produto ou se foi pago ou estimulado pela marca. O direito, em tese, precisa acompanhar as dinâmicas sociais, no entanto, não existe celeridade em reconhecer estas necessidades e muito menos interesse dos legisladores em incomodar as corporações. Somado a isso, poucos grupos vêem problemas neste tipo de mensagem.

REGULAMENTAÇÃO

Existem projetos tramitando no Congresso Nacional e acredito que um debate mais responsável sobre o tipo de restrição que precisamos, como sociedade, é fundamental. O Conar existe para proteger a  publicidade, e não a sociedade. Basta observar a composição do conselho que julga as denúncias para compreender que é impossível que eles estejam sensíveis aos vulneráveis. Para a maioria dos publicitários, abrir mão de anunciar para criança é impensável, já que exercem grande influência nas decisões de consumo dos pais. Além disso, Conar, Estado e Procon agem sob demanda. Então é cachorro correndo atrás do próprio rabo. Não sei se o Estado poderia fornecer uma legislação capaz de dar conta. Mas é desesperador. É uma distopia. O espaço demarcado da publicidade não existe mais. Ela está permeando todas as nossas comunicações. Para os adultos já é grave. Quando se fala em criança, então, é bem pior. Os anunciantes se aproveitam da ingenuidade da criança que propaga e da criança que recebe. É duplamente perverso. É um “Black Mirror” em que você não consegue separar o que é publicidade do que é informação.

Mara Gama

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