Memórias de quando o mundo se reúne em Davos

É a maior concentração de personalidades por metro quadrado em um mesmo edifício

Shimon Peres e o líder palestino Yasser Arafat se cumprimentam durante o Fórum Econômico Mundial em Davos, em 2010 - Michele Limina-21.nov.2011/ AFP
Clóvis Rossi
São Paulo

Devo ser o jornalista que há mais tempo cobre os encontros do Fórum Econômico Mundial, cuja edição regional latino-americana começa nesta terça (13).

Acompanho o Fórum de Davos desde 1992, um quarto de século. O que me permite a presunção de achar que tenho as duas melhores maneiras de defini-lo.

Uma é o fato de que se trata da maior concentração de personalidades por metro quadrado que o mundo é capaz de colocar em um mesmo edifício, o Centro de Congressos de Davos.

Outra é um curso de pós-graduação em mundo engarrafado em quatro dias.

Para um jornalista brasileiro, é uma chance imperdível de conhecer os que são notícia no mundo, muitos dos quais inacessíveis de outra forma.

Uma vez, conversei, por exemplo, com Hamid Karzai, então presidente do Afeganistão. Papo em grupo pequeno de jornalistas, o que até permitiu que ele brincasse comigo: "Você bem que poderia dizer ao Lula [então presidente] para me ceder alguns aviões da Embraer".

Outro papo em grupo pequeno foi com Mohammad Javad Zarif, chanceler do Irã, que soltou: "O Irã está aberto para negócios com o Brasil". O Brasil, aliás, está interessadíssimo até hoje em negócios com o Irã dos aiatolás.

Seguem algumas memórias desses encontros:


Lula foi a Davos uns 20 dias depois de assumir pela primeira vez. Seu discurso fez sucesso, entre outras razões, porque falou a língua que o povo dos mercados entende (o Brasil do PT também estaria aberto para negócios).

Quando a delegação deixava o plenário, saí logo atrás de Antonio Palocci, então ministro da Fazenda. Com ele ia Caio Koch-Weser, à época vice-presidente do Deutsche Bank.

Palocci perguntou se o discurso estivera OK. Koch-Weser (nascido no Brasil, ex-ministro alemão) disse que sim, mas que faltara uma menção mais clara à abertura comercial.

Ficou claro que Palocci combinara parte do discurso presidencial com um banqueiro alemão.


Henrique Meirelles, então presidente do Banco Central, chegou antes de Lula naquele 2003. Cruzamos no corredor e perguntei como ele conseguira convencer o presidente a aumentar os juros, dos já obscenos 25% para 26,5%. Meirelles contou que dissera ao presidente que, sempre que a inflação chega a dois dígitos, ela dispara.

A conversa foi manchete da Folha. No dia seguinte, Meirelles disse que queria conversar comigo sobre a reportagem. Antes do encontro, no entanto, ele escorregou no gelo, sofreu uma fratura e nunca mais conversamos a respeito.


Quando a Argentina era a queridinha dos mercados, pelo sucesso (efêmero) de seu câmbio fixo, atrelado ao dólar, o presidente Carlos Menem brilhava em Davos. Em um almoço, entusiasmou-se a ponto de anunciar que o Mercosul estava indo tão bem que pensava até em criar uma moeda única, nos moldes do euro. Deu até o nome tentativo: "gáucho" (na pronúncia em espanhol).

Na saída do almoço, perguntei a Fernando Henrique Cardoso, então presidente, se era verdade. Respondeu: "Puro delírio".

Uma espécie de antecipação de por que o Mercosul continua sem moeda única e sem coesão interna.


Os grandes executivos, que formam a maior parte do público de Davos, têm seus momentos de tietes, até de personagens insuspeitados. O maior exemplo que vi foi Yasser Arafat (1929-2004), o líder palestino: na primeira vez em que foi a Davos, os executivos se acotovelavam para vê-lo passar, como se fosse uma Angelina Jolie, que também esteve no fórum, mas provocou menos frisson.


Quando o real derretia, no início do segundo mandato de FHC, houve um jantar sobre o Brasil com a participação de Lawrence Summers, então subsecretário do Tesouro dos EUA (depois seria o titular), arrogante intelectual.

Durante o evento, Summers brincou: "A moeda brasileira deveria chamar-se virtual, não real".

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