Premiê chinês promete abertura de mercado para evitar guerra comercial 

Li Keqiang disse que a China tratará empresas estrangeiras e locais igualmente

O primeiro-ministro da China, Li Keqiang, durante conferência em Pequim
O primeiro-ministro da China, Li Keqiang, durante conferência em Pequim - Greg Baker - 20.mar.2018/AFP
Pequim

O primeiro-ministro chinês, Li Keqiang, disse nesta segunda-feira (26) que a China e os Estados Unidos devem manter negociações e reiterou promessas de facilitar o acesso às empresas norte-americanas, enquanto a China luta para evitar uma guerra comercial.

Li disse em uma conferência que incluía presidentes-executivos globais que a China tratará empresas estrangeiras e locais igualmente, não forçará empresas estrangeiras a transferir tecnologia e fortalecerá os direitos de propriedade intelectual, repetindo promessas que falharam em tranquilizar Washington.

"Com relação aos desequilíbrios comerciais, a China e os Estados Unidos devem adotar uma atitude pragmática e racional, promover o equilíbrio por meio da expansão do comércio e manter negociações para resolver diferenças e atritos", disse Li na conferência em Pequim, segundo a rádio estatal.

Os Estados Unidos pediram à China em uma carta na semana passada que reduza a tarifa sobre automóveis americanos, compre mais semicondutores fabricados nos EUA e dê às empresas americanas maior acesso ao setor financeiro chinês, informou o jornal The Wall Street Journal nesta segunda, citando pessoas familiarizadas com o assunto.

As autoridades chinesas estão correndo para concluir até maio mudanças de regulamentação que permitirão que grupos financeiros estrangeiros assumam participação majoritária em empresas de valores do país.

De acordo com pessoas informadas sobre as discussões, Pequim também ofereceu comprar mais semicondutores dos Estados Unidos, reduzindo suas compras junto a fornecedores da Coreia do Sul e Taiwan, como parte de um esforço para reduzir o superávit de US$ 375 bilhões que a China registra em seu comércio de bens com os Estados Unidos.

Na semana passada, o presidente norte-americano Donald Trump ameaçou impor tarifas sobre US$ 60 bilhões de exportações industriais chinesas, em retaliação por a China supostamente forçar empresas estrangeiras a transferir tecnologias e outras formas de propriedade intelectual a parceiros chineses em joint ventures compulsórias.

Pequim delineou sua resposta à ameaça de Trump, falando em tarifas sobre US$ 3 bilhões em produtos americanos. As medidas tinham por intenção alertar os Estados Unidos de que a China responderá à altura se Trump levar adiante sua ameaça de agir de forma muito mais ampla contra as exportações industriais chinesas.

CARTA E TELEFONE

As discussões para evitar uma guerra comercial estão sob o comando de Liu He, primeiro-ministro assistente da China e assessor econômico de maior confiança do presidente Xi Jinping, e do secretário do Tesouro americano Steve Mnuchin. 

No sábado, a agência de notícias oficial chinesa Xinhua anunciou que Liu havia dito a Mnuchin em conversa telefônica que as medidas americanas eram violações das normas de comércio internacional, advertindo de que Pequim estava preparada para defender seus interesses.

O Tesouro americano confirmou a conversa no domingo e disse que os dois haviam discutido maneiras reciprocamente satisfatórias de reduzir o déficit dos Estados Unidos no comércio com a China.

Em uma carta a Liu He, Mnuchin e o representante comercial americano Robert Lighthizer listaram as medidas que desejam que a China implemente, disse o WSJ.O  jornal informou que Mnuchin estava considerando uma visita a Pequim para buscar negociações.

Autoridades chinesas estariam trabalhando inicialmente para autorizar até 30 de junho o controle majoritário estrangeiro sobre companhias chinesas de valores mobiliários, mas Liu teria por objetivo uma aprovação da mudança pelo Conselho de Estado já em maio.

A liberalização, que elevaria o limite de participação estrangeira nessas empresas de 49% para 51%, foi delineada inicialmente pelo Ministério das Finanças chinês em novembro.

Naquele momento, Zhu Guangyao, vice-ministro das Finanças chinês, disse que a limitação à participação estrangeira seria eliminada dentro de três anos.

As autoridades chinesas disseram às suas contrapartes nos Estados Unidos que esse cronograma de três anos seria acelerado —assim como planos adicionais para relaxar os limites sobre o investimento estrangeiro em bancos comerciais e em joint ventures de seguro de vida, em prazo de três a cinco anos.

"Mas isso não pode ser feito do dia para a noite, porque tudo tem que passar por um processo", disse uma pessoa próxima às negociações.

Novas medidas para relaxar os limites ao controle estrangeiro de bancos comerciais e seguradoras na China podem ser reveladas na semana que vem, quando Xi discursará no Boao Forum for Asia, uma reunião anual inspirada pelo Fórum Econômico Mundial que o governo chinês promove na ilha de Hainan, uma província no sul do país.

Ainda não está claro como Washington reagirá à proposta chinesa de que companhias da China adquiram mais semicondutores de fabricantes americanos, reduzindo suas compras na Coreia do Sul e Taiwan, porque isso poderia criar desentendimentos entre os Estados Unidos e dois de seus aliados tradicionais na região.

"Os Estados Unidos estariam basicamente roubando do superávit entre esses países e a China", disse um observador.

A China importou US$ 2,6 bilhões de semicondutores dos Estados Unidos no ano passado.

PROMESSAS

No final de semana, importantes dirigentes chineses conversaram com executivos internacionais em um fórum anual sobre o desenvolvimento em Pequim, e muitos deles prometeram novas medidas, ambiciosas mas vagas, de abertura de mercado.

Wang Shouwen, vice-ministro do Comércio Internacional chinês, disse no domingo que a China relaxaria ou eliminaria as restrições a controle estrangeiro nos setores de telecomunicações, saúde e educação.

Em seu primeiro pronunciamento depois de ser confirmado como presidente do banco central chinês, Yi Gang afirmou que o banco tinha o compromisso de abrir o setor financeiro do país, acrescentando que empresas chinesas e estrangeiras viriam a receber tratamento igual.

Mas o governo chinês é sensível a possíveis críticas internas, caso pareça estar cedendo facilmente à pressão estrangeira. Em declaração postada no domingo à noite em sua conta no serviço de mídia social WeChat, o ministro chinês do Comércio, Zhong Shan, disse que a China determinaria sozinha o ritmo das novas medidas de abertura.

Falando mais ou menos no mesmo momento, em Washington, Mnuchin disse à rede de TV Fox News que os Estados Unidos não têm medo de uma guerra comercial com a China e que levariam adiante seus planos de impor tarifas, se necessário. 

Tradução de PAULO MIGLIACCI

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