Descrição de chapéu Mark Zuckerberg

'Sou bode expiatório', diz criador do app usado para obter dados no Facebook

A Cambridge Analytica teria usado ferramenta de Aleksandr Kogan para fins eleitorais nos EUA

Foto com o logo do Facebook em Washington
Foto com o logo do Facebook em Washington - Karen Bleier/AFP
Londres

O psicólogo que desenvolveu o aplicativo usado pela empresa Cambridge Analytica para obter os dados de milhões de usuários do Facebook para fins eleitorais afirmou que o sistema era legal e estava de acordo com os termos de uso.

Aleksandr Kogan, professor de psicologia da Universidade de Cambridge, disse à BBC que o que ele fez era "perfeitamente legal e ajustado aos termos de serviço". Ele diz lamentar ter sido acusado, pelo Facebook e pela Cambridge Analytica, de uso ilegal de dados pessoais. 

"Minha opinião é que estou sendo usado basicamente como um bode expiatório", afirmou Kogan, que está no centro de um escândalo que provocou a queda de 9% das ações do Facebook na Bolsa de Nova York em dois dias.

"Honestamente, pensava que estávamos agindo de maneira apropriada, acreditava que fazíamos algo normal", disse o psicólogo, nascido na Moldávia e criado na Rússia até os sete anos, quando sua família se mudou para os Estados Unidos, de acordo com dados biográficos citados pelo Varsity, um jornal de Cambridge.

O pesquisador desenvolveu o aplicativo "This is Your Digital Life" (Esta é sua vida digital).O "This is Your Digital Life" era uma das centenas de pesquisas que circulam no Facebook e outras redes sociais, do tipo "Quais são as palavras mais usadas por você?".

A pesquisa de Kogan era um teste de personalidade que perguntava aos usuários se eles são extrovertidos, vingativos, se concluem os projetos que começam, se têm a tendência da preocupação ou se gostam de arte, entre várias outras coisas.

O método foi usado para reunir dados de 270 mil usuários do Facebook, mas também para obter os dados de seus "amigos" na rede social.

DENÚNCIA

De acordo com um ex-funcionário da Cambridge Analytica, a empresa conseguiu informações de 50 milhões de pessoas, que acabaram sendo usados para criar um programa destinado a prever e influenciar o voto dos eleitores.

Kogan foi contratado pela Cambridge Analytica, que teve entre seus fundadores Steve Bannon —ele acabaria trabalhando como estrategista na campanha de Donald Trump.

Os resultados básicos obtidos com a pesquisa seriam combinados com dados retirados dos perfis do usuário e de seus amigos do Facebook para conseguir uma longa lista de características da pessoa, à quem poderia ser enviada uma mensagem eleitoral mais ou menos sob medida  —chegaram a dispor de 175 mil mensagens diferentes.

O escândalo da Cambridge Analytica arrastou o Facebook, cuja proteção de dados dos usuários passou a ser questionada.

Nos Estados Unidos, a FTC (Federal Trade Commission), comissão que regulamenta o comércio, iniciou uma investigação e abriu dois processos em Nova York e Massachusetts. 

Os Parlamentos britânico e europeu solicitaram que o fundador e presidente-executivo do Facebook, Mark Zuckerberg, explique como foi possível a utilização dos dados de seus usuários com fins eleitorais. 

O tema estava na agenda de uma reunião dos responsáveis pela proteção de dados em Bruxelas, destacou a Comissão Europeia. 

A rede social proibiu que a Cambridge Analytica e Aleksandr Kogan utilizem a plataforma e na terça-feira (20) se declarou escandalizada por ter sido enganada, assegurando entender a gravidade do problema.

REALEZA

O interesse nas atividades de Cambridge Analytica aumentou após a exibição de reportagens do Channel 4 em que os diretores, entre eles o presidente executivo Alexander Nix, ofereciam a um jornalista que se fez passar por cliente potencial desacreditar seus rivais políticos envolvendo-os com prostitutas ou subornos.

A empresa britânica anunciou na terça a suspensão de Nix "com efeito imediato, à espera de uma investigação completa e independente".

A Cambridge Analytica é uma filial do grupo de marketing britânico SCL (Strategic Communication Laboratories), que o jornal britânico The Times define como uma companhia "conectada à realeza, aos ricos e aos poderosos, com vínculos sociais e empresariais com o coração do Partido Conservador, a realeza e as Forças Armadas britânicas".  


QUEM É QUEM

Conheça os principais envolvidos no caso

O cérebro  - Aleksandr Kogan

  • Jovem psicólogo e pesquisador desenvolveu o teste de personalidade digital "thisisyourdigitallife", que coletou dados pessoais no Facebook transmitidos para a Cambridge Analytica

O CEO - Alexander Nix

  • Foi suspenso do posto de presidente da Cambridge Analytica, após a rede de TV britânica Channel 4 mostrar Nix se gabando de seus métodos para desacreditar um adversário político e do papel de sua empresa na eleição do presidente americano, Donald Trump

O lançador de alertas - Christopher Wylie

  • Canadense de 28 anos de cabelo cor-de-rosa, era um antecipador de tendências. Contou ao jornal "The Observer" como teve a ideia de ligar o estudo de personalidade ao voto político. Ele então se encontrou com Alexander Nix, que lhe ofereceu um emprego na Cambridge Analytica. Wylie disse ter-se reunido com Steve Bannon, ex-conselheiro estratégico do presidente Donald Trump,

O Financiador - Robert Mercer

  • O empresário americano de 71 anos fez fortuna nos fundos de investimento e é um dos principais doadores do Partido Republicano. Financiou a Cambridge Analytica em cerca de US$ 15 milhões. Fez fortuna, graças a algoritmos complicados. Programador na IBM, ele se uniu ao administrador de fundos especulativos Renaissance Technologies.

O ideólogo - Steve Bannon

  • Era um conselheiro próximo de Donald Trump até ser demitido da Casa Branca em 2017. Segundo o dominical "The Observer", estava no comando da Cambridge Analytica. Dirigiu o site de notícias da extrema direita Breitbart News até se tornar diretor de campanha de Trump e, então, conselheiro estratégico na Casa Branca até agosto de 2017. Foi repudiado pelo presidente em janeiro, depois da publicação do livro de Michael Wolff, "Fogo e fúria", que continha declarações explosivas do ex-assessor.
AFP
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