UE responderá a tarifas de Trump se não houver isenção permanente

Parece que os EUA querem negociar com um revólver na nossa cabeça, disse o primeiro-ministro belga

O primeiro-ministro belga, Charles Michel, chega ao encontro de líderes da União Europeia
O primeiro-ministro belga, Charles Michel, chega ao encontro de líderes da União Europeia - Olivier Matthys/AP
Bruxelas | agências de notícias

Os líderes da União Europeia pediram aos Estados Unidos, nesta sexta-feira (23), uma isenção permanente das tarifas sobre as importações de aço e alumínio, advertindo que se reservam o direito de responder às medidas promovidas pelo presidente Donald Trump.

"A UE pede uma isenção permanente das tarifas americanas", tuitou o presidente do Conselho Europeu, Donald Tusk, após um debate dos presidentes um dia depois de Trump ter autorizado a suspensão até 1º de maio dessas medidas para o bloco europeu, Argentina, Brasil, Coreia do Sul e Austrália, além dos já anunciados Canadá e México.

Os Estados Unidos se encontram em negociação com esses países "sobre medidas alternativas satisfatórias diante da ameaça à Segurança Nacional [americana] constituída pela importação do aço", e os parceiros de Washington ficarão, no momento, isentos das tarifas sobre suas importações, indicou a Casa Branca em um comunicado.

"Essas medidas não podem ser justificadas em fundamentos de segurança nacional, e a proteção setorial nos EUA é um remédio inapropriado para os problemas reais de excesso de capacidade", informa um comunicado conjunto dos 28 líderes da UE reunidos em Bruzelas

O grupo tomou nota dessa isenção temporária nas conclusões da cúpula, mas pediu que seja permanente.

Eles advertiram que o bloco "se reserva o direito, em acordo com a Organização Mundial do Comércio, de responder às medidas americanas, de maneira apropriada e proporcional".

No Twitter, a comissária europeia do Comércio, Cecilia Malmström, afirmou que as opções da UE para preservar seus direitos estão abertas.

Entre essas alternativas, Bruxelas preparou uma lista de produtos americanos emblemáticos, como a manteiga de amendoim, as motos Harley-Davidson, ou as calças jeans Levi's, que poderiam ser sobretaxados.

"As discussões entre aliados e parceiros não deveriam ser objeto de datas-limite artificiais", tuitou Malmström.

"Dá a impressão de que o presidente dos Estados Unidos quer negociar com a União Europeia colocando um revólver na nossa cabeça", disse o primeiro-ministro belga, Charles Michel.

"Não é uma maneira muito leal de negociar entre sócios históricos", acrescentou.

Os participantes da cúpula reiteraram o "compromisso com fortes relações transatlânticas como pedra angular de segurança e prosperidade tanto nos Estados Unidos como na União Europeia".

OMC

As tarifas de Trump enfrentaram uma enxurrada de críticas na reunião da OMC (Organização Mundial de Comércio) nesta sexta, com União Europeia, Brasil, Japão, Austrália e outros juntando-se ao debate iniciado por China e Rússia.

O representante da UE rejeitou as afirmações dos EUA de que as medidas são necessárias para proteger a segurança nacional, dizendo que Washington está apenas tentando apoiar sua indústria, disse uma autoridade comercial de Genebra.

O diretor-geral da OMC, Roberto Azevêdo, afirmou que era positivo ver a discussão acontecer dentro da OMC, já que levar as disputas para fora aumentou muito "o risco de escalada em um confronto que não terá vencedores".

"Interromper fluxos de comércio prejudicará a economia global em um momento no qual a recuperação econômica, ainda que frágil, tem sido cada vez mais evidente ao redor do mundo", disse em um comunicado. "Mais uma vez peço moderação e diálogo urgente como o melhor caminho à frente para resolver esses problemas."

China e Rússia já disseram que estão elaborando planos de retaliação para compensar o impacto das tarifas. Durante a reunião da OMC, a China disse que as tarifas eram "infundadas" e violaram as regras da OMC de várias maneiras.

O representante chinês disse que a experiência da década de 1930 mostrou que as barreiras comerciais faziam o oposto de proteger a segurança nacional, uma referência à Grande Depressão dos EUA e à preparação para a Segunda Guerra Mundial.

A Rússia questionou a base para isenções temporárias das tarifas, que Washington concedeu à UE, Argentina, Austrália, Canadá, México, Coreia do Sul e Brasil.

Outros países ecoaram as preocupações sobre um efeito dominó e disseram que isso poderia prejudicar o consenso da OMC, sob o qual os Estados evitaram invocar a segurança para justificar as barreiras.

O Brasil disse que a questão só poderia ser abordada multilateralmente, mas acrescentou que foi encorajado pelos esforços dos EUA para negociações bilaterais sobre o assunto, afirmou uma autoridade.

O representante dos EUA na reunião não respondeu diretamente às críticas, mas disse que suas tarifas eram "consistentes" com o Acordo Geral sobre Tarifas e Comércio da OMC.

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