Novo juro do BNDES salva banco de se 'desmilinguir'

Sem fontes seguras, como FAT e tesouro, instituição ampliará presença no mercado de capitais, afirma novo presidente

Dyogo Oliveira, que assumiu a presidência do BNDES
Dyogo Oliveira, que assumiu a presidência do BNDES - Pedro Ladeira/Folhapress
 
Mariana Carneiro Julio Wiziack
Brasília

O novo presidente do BNDES, Dyogo Oliveira, disse que a TLP, nova taxa de juros do BNDES, salvará o banco de se "desmilinguir". O FAT (Fundo de Amparo ao Trabalhador) está deficitário, e o Tesouro Nacional tenta gerenciar sua própria falta de recursos.

Dyogo, que deixou o Ministério do Planejamento para assumir o banco, disse que, sem poder contar com essas fontes, o BNDES terá que buscar dinheiro no mercado. Segundo ele, a primeira captação será feita nos próximos meses, e se tornará rotina.

Dyogo assume o BNDES na ressaca da Lava Jato, com grandes tomadores de empréstimos ainda enredados em delações e processos judiciais. Em 2016, o banco congelou desembolsos para obras que estavam em curso no exterior. Isso poderá levar a calotes de países que exigem que os serviços contratados sejam concluídos.

O risco é que sejam bancados pelo próprio Tesouro, que garante esses contratos. As empresas reclamam, mas Dyogo afirma que elas não têm conseguido comprovar que o dinheiro do banco foi usado conforme o combinado.

Folha - O que dá para entregar em oito meses?

Dyogo Oliveira - Buscaremos alternativas criativas a exemplo do BNDES Giro. Vamos fazer as coisas de um jeito mais digital e isso permite que os processos sejam totalmente diferentes. E não é que vai de seis para quatro meses. Terá outro padrão. No BNDES Giro, eram 60 dias para a aprovação do BNDES. Agora são três segundos porque é digital. Já no processo de análise do crédito, podemos compactar [etapas] ou eliminar porque, com as informações digitais, não precisa mais fazer determinado tipo de análise.

Isso vai levar quanto tempo?

É um projeto de médio e longo prazo. Mas a cada 30 dias terá uma etapa concluída. Outra coisa importante é mostrar que o banco tem opções de funding [recursos para empréstimos]. Umas das coisas que tocaremos é uma captação de mercado para mostrar que o banco não tem dificuldade. Dá para fazer uma captação considerável ainda neste ano. Não posso abrir o jogo, mas estamos adiantados.

Essa captação é para cobrir os R$ 130 bilhões que o banco tem que devolver neste ano para o Tesouro Nacional?

Não será dessa ordem. É uma captação para testar o caminho. Haverá captações periódicas no mercado. Temos que pagar o Tesouro e o banco ainda vai ficar com margem de caixa muito boa. Essa é a hora boa para fazer uma captação.

O banco poderá devolver mais para o Tesouro em 2019?

O BNDES já deu contribuição não só relevante como suficiente. Para 2019, mesmo com o BNDES, a devolução não seria suficiente [para cumprir a regra de ouro]. Será necessário escolher outras alternativas. Isso já está conversado com todo mundo [do governo], para que, em 2019, não haja o uso do BNDES.

O banco perdeu com a TLP [nova taxa de juros do BNDES, sem subsídios do Tesouro]?

Com a TLP, o banco hoje tem mais instrumentos para captar, fazer hedge, securitização, reciclagem de funding. O banco não tem mais limite. Antes o limite era o dinheiro do FAT [fonte de recursos do BNDES]. Quando o FAT não deu, veio o Tesouro. Agora o banco não tem FAT, que está deficitário, nem Tesouro. Se não fosse a TLP, o banco iria desmilinguir porque não teria funding.

O sr. tem dito que priorizará pequenas empresas, mas hoje a carteira é muito concentrada nas grandes. Como mudar?

O banco não vai induzir, ninguém está proibido de pegar dinheiro do BNDES. As grandes empresas vão optar por fazer negócios com instituições privadas, até porque elas são mais ágeis. Ao longo do tempo, o banco se concentrará em infraestrutura; micro, pequena e média empresa; e comércio exterior, áreas em que o mercado tem menos apetite. A grande tem opção de captar a custos competitivos. Não justifica o BNDES fazer isso.

Então foi um erro a política dos campeões nacionais?

O papel do BNDES não é escolher os vencedores, é abrir a competição para que os que têm potencial se desenvolvam. A ideia de escolher os vencedores acaba se tornando injustificável porque a capacidade que a gente tem de escolher é limitada.

O banco congelou desembolsos para empreiteiras pegas na Lava Jato. Hoje, estão assinando a leniência [tipo de delação premiada para empresas]. As liberações serão retomadas?

As empresas têm de cumprir as exigências de cada caso. Em alguns, leniência. Em outros, informações adicionais que têm de ser prestadas para o banco.

Um parecer da AGU (Advocacia-Geral da União) recomendou ao BNDES a retomada dos desembolsos com a leniência.

Isso é a AGU dizendo que não tem restrições. O banco tem normas internas, cláusulas contratuais [com as empresas] que têm de ser cumpridas. Não é só fazer leniência e no dia seguinte passar na boca do caixa.

Mas já passou muito tempo. As empresas não garantiram a lisura exigida pelo banco?

Algumas sim, outras não. Quem cumprir, terá cumprido o lado do banco. Aqueles que não cumpriram não terão recursos. São desde questões operacionais, o que pode gastar, onde, como é a transparência dos contratos com os prestadores de serviço.

Como saber se casos como estes não se repetirão?

Os cuidados foram reforçados. Em toda nova operação, tem de dar declaração de que não só não há problema de corrupção no Brasil como no país onde a empresa atua.

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