Onda de fusões movimenta mais de US$ 120 bilhões em um dia

Oferta da cadeia de supermercados britânica J Sainsbury para adquirir a Asda puxa negócios

Consumidores em unidade da Asda em Londres; cadeia de supermercados, a terceira do Reino Unido, se uniu à segunda, a Sainsbury's
Consumidores em unidade da Asda em Londres; cadeia de supermercados, a terceira do Reino Unido, se uniu à segunda, a Sainsbury's - Justin Tallis - 10.jan.18/AFP
Eric Platt Arash Massoudi
Financial Times

A maré febril de aquisições se acelerou nesta segunda-feira (30), com a confirmação de mais de US$ 120 bilhões em tomadas de controle acionário, entre as quais transações transformadoras nos setores de telecomunicações, energia e varejo, dos dois lados do Atlântico.

Um total de uma dúzia de transações com valor superior a US$ 100 milhões cada uma foi anunciado no dia, o que acelerou o total já recorde de transações em 2018, que hoje atinge US$ 1,7 trilhão, superando o ritmo que prevalecia antes da crise financeira, de acordo com a companhia de pesquisa Dealogic.

Os consultores financeiros e legais afirmam que o ritmo acelerado de fusões e aquisições deve continuar, porque o crescimento econômico mundial está estimulando as empresas, os preços das ações estão altos, e continua a existir ampla disponibilidade de crédito a baixo custo.

As transações incluem planos para criar a maior cadeia de supermercados do Reino Unido, com uma oferta formal da J Sainsbury para adquirir a Asda, controlada pelo grupo de varejo americano Walmart, por US$ 10 bilhões, incluindo dívidas.

Enquanto isso, os investidores reagiram negativamente a uma proposta para a aquisição da operadora de telefonia móvel americana Sprint pela T-Mobile, uma rival de maior porte, em uma transação paga em ações e avaliada em US$ 59 bilhões.

A transação foi anunciada na noite de domingo (29) e causou forte queda nas ações de ambas as empresas.

Como a fusão entre as redes de supermercados Sainsbury e Asda, o acordo que formaria o segundo maior grupo de telefonia móvel americano mostra a disposição das grandes empresas de promover consolidação agressiva em setores nos quais o número de concorrentes já é bastante baixo.

Executivos envolvidos em ambas as transações aproveitaram o momento em que elas foram anunciadas para apresentar às autoridades regulatórias seus argumentos em favor de que as ofertas sejam aprovadas, em razão do desordenamento trazido pela tecnologia e do surgimento de um conjunto mais amplo de concorrentes.

"Ainda resta muito a fazer", disse Lee LeBrun, vice-presidente de fusões e aquisições do banco de investimento Rothschild na América do Norte.

"A única coisa que impediria que isso aconteça seria um choque exógeno, ou um choque político, uma alta [do risco]. Mas, enquanto a música tocar, vai haver gente dançando."

LeBrun apontou que o fluxo de transações estava se acelerando a despeito de um ambiente regulatório que continua indefinido, na gestão do presidente Donald Trump, porque este se mostrou disposto a bloquear diversas fusões usando ferramentas a que seus predecessores não recorreram.

A mais recente onde de transações inclui a tomada de controle do grupo de refinarias petroleiras Andeavor pela Marathon Petroleum, por US$ 36 bilhões; a proposta permite que os acionistas da empresa optem entre receber pagamento em dinheiro ou em ações. A transação criaria um gigante no setor de refinarias dos Estados Unidos, e é a maior no setor de energia desde que a GE fechou acordo para adquirir a Baker Hughes em 2016.

Os preços altos das ações convenceram as empresas a usá-las como meio de pagamento em proporção cada vez maior das transações. Entre as transações aprovadas neste ano, 40% incluíram pagamento parcial em ações e 14% foram fechadas com pagamento integral em ações, de acordo com a Dealogic. Isso reduziu a proporção de transações pagas só em dinheiro à sua marca mais baixa em três anos.

"Apesar da possibilidade de guerras comerciais, o mercado de ações, embora volátil, continua forte, e os preços mais fortes para as ações podem ser usados como moeda em aquisições ou fusões entre iguais", disse John Bick, diretor da divisão empresarial internacional do escritório de advocacia Davis Polk.

"E, ainda que as taxas de juros tenham subido... o custo de financiamento continuará baixo [o bastante] para que empresas possam tomar dinheiro emprestado para realizar aquisições significativas."

Hernan Cristerna, codiretor da divisão internacional de fusões e aquisições do banco JPMorgan, acrescentou que "se você estiver em uma posição na qual pode haver superestimativa quanto ao valor da companhia que está adquirindo, usar ações da empresa [combinada] como pagamento é um grande equalizador para garantir que você não pague mais do que gostaria".

Outras transações anunciadas na segunda-feira foram a aquisição do grupo imobiliário industrial DCT pela operadora de armazéns Prologis, por US$ 8,4 bilhões; a aquisição da ILG, uma empresa que controla imóveis de férias, pela Marriott Vacations, por US$ 5,1 bilhões; e a tomada de controle da consultoria de investimento Financial Engines pelo grupo de capital privado Hellman & Friedman, por US$ 3,2 bilhões.

Tradução de PAULO MIGLIACCI

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