Entenda crise cambial que levou a Argentina de novo ao FMI

Valorização mundial do dólar atinge país em momento de fragilidade política e econômica

Painel de casa de câmbio com cotações de moedas em Buenos Aires
Painel de casa de câmbio com cotações de moedas em Buenos Aires - Juan Mabromata/AFP
Mariana Carneiro
Brasília

Uma combinação de tropeços internos com cenário externo mais turbulento levou a Argentina à atual crise cambial.

A valorização global do dólar provocou uma desvalorização nas moedas dos países emergentes como Brasil, Colômbia e Turquia. Mas a onda pegou a Argentina em um momento de particular fragilidade política e econômica. 

No campo das finanças, o país tem uma taxa de inflação muito mais elevada do que a do Brasil e a de demais países latino-americanos, à exceção da Venezuela. No ano passado, foi de 25%. No Brasil, de 2,95%.

Nos primeiros quatro meses do ano, uma seca severa ajudou a inflamar os preços dos alimentos e baixou expectativas de receitas com a exportação de grãos. Isso elevou a insatisfação dos argentinos, que já estavam sob o impacto de reajustes nos preços das tarifas de energia e de transportes, congelados durante anos nas gestões de Néstor e Cristina Kirchner.

O resultado é uma inflação que está rodando acima de 2% e que, nos primeiros três meses do ano, foi de 6,7%. 

No campo político, o impopular aumento de tarifas provocou fissuras na coalizão política que sustenta Mauricio Macri, o que deixou investidores desconfiados sobre a capacidade de o presidente executar as transformações econômicas que prometeu.

Um exemplo é o avanço de um projeto de lei, proposto pela oposição mas com apoio de governistas, de limitar aumentos de tarifas.

Além disso, a desconfiança de investidores cresceu com a suspeita de que o banco central da Argentina esteja sofrendo influência política, desde que o governo decidiu rever a meta de inflação deste ano. 

Em dezembro, em um pronunciamento que uniu políticos e técnicos, o governo anunciou que a meta servia elevada de um intervalo de 8% a 12% para 15%. Em seguida, a autoridade monetária baixou as taxas de juros, em movimento contraindicado em um momento de inflação ascendente.

O economista Marcos Buscaglia, da consultoria Alberdi Partners, afirma que o pedido de socorro ao FMI gerou certo assombro entre estrangeiros, que buscam informações para tentar entender a crise argentina. 

Afinal, Macri é considerado um dos presidentes mais reformistas no poder hoje, aprovou mudanças na Previdência Social e já enviou ao Congresso proposta para alterar as regras trabalhistas.

"Há pouco mais de duas semanas, em encontro do FMI (Fundo Monetário Internacional) em Washington, a Argentina era um dos países-estrela, com investidores demonstrando interesse e otimismo com o país”, disse. 

A seu ver, a administração Macri cometeu erros, como a mudança da meta de inflação de maneira desastrada, além de dificuldades em fazer um ajuste fiscal mais duro, como forma alternativa aos juros para conter o aumento de preços.

“O peso se depreciou muito em janeiro e em um país dolarizado como a Argentina, as pessoas pensam em dólar, poupam em dólar e se assustam. Quando o dólar sobe, o argentino compra dólar [o que reforça o impulso de alta]”, diz. 

Segundo o economista Dante Sicca, da consultoria Abeceb, recorrer ao FMI dá força à economia argentina para resistir à corrida por dólares. Mas pode ter reações políticas negativas para Macri.

O governo Kirchner, lembra ele, vendeu a saída do país do fundo como uma espécie de “independência” financeira, após a grande crise de 2001. 

“Melhor que esse efeito sobre a opinião pública ocorra neste ano, e não no ano que vem, quando há eleições”, afirma. O peronismo da ex-presidente Cristina Kirchner aspira voltar ao poder e Macri tentará a reeleição.

Para Dante, o importante neste momento é estabilizar a cotação da moeda americana, para acalmar o argentino e evitar nova corrida ao dólar. Por ora, a principal pressão de saída vem de grandes estrangeiros e de não residentes, diz Dante. Mas pode engajar os argentinos.

“Assim que a volatilidade diminua, sai a angústia e as pessoas podem se planejar melhor, sabem o quanto têm que pagar nas tarifas e deixam de pensar nisso como um fantasma”, diz.

Em um segundo momento, afirma, a tarefa é recuperar a credibilidade na economia. 

“O urgente agora é frear a pressão, estabilizar o câmbio, e depois a tarefa é recuperar a credibilidade. Em parte confirmando a atual política econômica, e depois avaliando se vale a pena trocar algum ministro. Talvez não seja um bom sinal fazer uma troca neste momento, tem que avaliar assim que os mercados se estabilizem."

Buscaglia afirma que a primeira prova será no próximo dia 16, quando vence um volume elevado de contratos de câmbio no mercado financeiro argentino. 

Para os dois economistas, o risco de contágio no Brasil pelo lado financeiro inexiste, pois o país, ao contrário da Argentina, tem reservas e inflação baixa. Para o Brasil e os vizinhos da América Latina, o principal problema é comportamento dos preços das matérias-primas em um cenário de valorização global do dólar, além da incerteza eleitoral no Brasil.

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