Descrição de chapéu opep

Cinco fatores que impulsionam o preço do petróleo

Preços subiram até os US$ 75 por barril pela primeira vez em quatro anos

Extração de petróleo no Texas, nos Estados Unidos
Extração de petróleo no Texas, nos Estados Unidos - Ernest Scheyder/Reuters
David Sheppard
Financial Times

Os preços do petróleo subiram até os US$ 75 por barril pela primeira vez em quatro anos. Mas o que impulsionou a alta? E ela vai continuar?

Confira cinco áreas cruciais a observar para tentar responder a essas perguntas.

OFERTA E PROCURA

O motivo mais simples para a alta nos preços do petróleo é que os mercados passaram por aperto considerável nos últimos 18 meses. Os estoques de petróleo cru acumulado durante o período de produção superior à demanda, em 2014-2016, já foram praticamente eliminados, por conta da demanda forte gerada por uma economia mundial em alta e do corte na produção da Rússia e da Opep (Organização dos Países Exportadores de Petróleo).

A Agência Internacional de Energia informou na semana passada que a Opep poderia em breve declarar "missão cumprida", se o seu objetivo era reduzir os estoques mundiais de petróleo à sua média dos últimos cinco anos.

Há quem acredite que isso represente uma subestimativa quanto ao aperto real do mercado, porque a demanda subiu em mais de cinco milhões de barris diários, ou mais de 5%, nos últimos três anos, e o consumo mundial de petróleo cru deve exceder os 100 milhões de barris diários pela primeira vez, ainda este ano. Isso significa que estoques mais altos seriam necessários para garantir o mesmo número de dias de consumo pelas refinarias de petróleo.

"O excedente foi claramente eliminado", disse Olivier Jakob, do site de informações petroleiras Petromatrix. "O mercado ainda não enfrenta aperto extremo, mas com o fim do estoque excedente existem condições para melhora do preço".

OPEP E RÚSSIA

Assim, se os estoques de petróleo estão de volta ao nível normal, será que a Opep e a Rússia pensarão em encerrar seu programa de redução da oferta, que tirou do mercado ao menos 1,8 milhão de barris de petróleo ao dia, do começo de 2017 para cá?

A maioria dos negociantes e analistas acredita que não. Embora Moscou tenha expressado maior preocupação sobre os efeitos do petróleo a mais de US$ 70 sobre as fontes rivais de suprimento, como o petróleo de xisto betuminoso nos Estados Unidos, por enquanto os russos parecem contentes com acompanhar a Opep, cuja líder efetiva, a Arábia Saudita, indicou que acredita ainda haver trabalho a fazer.

Khalid al-Falih, o ministro da energia saudita, falou sobre a necessidade de estimular um maior investimento em novas fontes de produção. O reino também está preparando uma abertura do capital da estatal petroleira Saudi Aramco, que provavelmente se beneficiaria de preços mais altos para o petróleo. As autoridades também estão introduzindo amplas reformas sociais e econômicas, no país altamente conservador.

"Não surgiram sinais da Opep de que eles desejem travar essa alta", disse Bill Farren-Price da consultoria Petroleum Policy Intelligence.

"A Arábia Saudita tem interesse de curto prazo em que o petróleo suba, por motivos múltiplos, entre os quais a Aramco. Mas o país também está passando por um período delicado de reformas, e existem grupos de interesse que não as encaram positivamente. Obter receita adicional agora definitivamente ajuda".

 

RISCOS GEOPOLÍTICOS

O mercado de petróleo sempre acompanha de perto o risco de perturbações no suprimento, que podem desordenar o delicado equilíbrio entre oferta e procura. Mas em um momento no qual a oferta já é relativamente apertada, esses riscos podem assumir importância desproporcional.

O risco mais imediato é a possibilidade muito real de que o presidente americano Donald Trump escolha abandonar o acordo nuclear com o Irã e reaplicar as sanções que vigoravam contra as exportações de petróleo do país. Ele decidirá sobre isso em maio, e Emmanuel Macron, o presidente da França, declarou na semana passada que sua expectativa é de que os americanos abandonem o acordo.

O segundo risco é a Venezuela, cuja produção de petróleo caiu em pelo menos 500 mil barris ao dia por conta da crise econômica e política do país, e há poucos sinais de que a estatal petroleira PDVSA conseguirá reverter a tendência.

Também existem riscos de sanções adicionais dos Estados Unidos contra o governo de Nicolas Maduro, e elas poderiam afetar a oferta de petróleo, depois da eleição venezuelana deste mês.

O terceiro risco é o conflito entre a líder da Opep, a Arábia Saudita, e os rebeldes houthi no Iêmen. Os houthis, que contam com apoio do Irã —também membro da Opep mas principal rival saudita na região— reforçaram seus ataques à infraestrutura petroleira saudita, o que é visto como tentativa direta de prejudicar a economia do país inimigo.

Com mísseis disparados pelos houthis contra a capital saudita Riad, a probabilidade de problemas de suprimento ou de uma explosão das tensões entre Arábia Saudita e Irã é real.

Por fim há a Líbia, cuja produção de petróleo se recuperou para a casa do milhão de barris diários, mas continua altamente instável sete anos depois que irrompeu sua guerra civil.

Todos esses cenários ajudaram a pressionar os preços do petróleo, e um conhecido analista alerta os riscos que existem hoje no mercado petroleiro são os mais graves de que ele se recorda.

"Temos um cenário que tornaria muito fácil uma alta, com a retomada das sanções contra o Irã, a eleição venezuelana de 20 de maio, e a situação do Iêmen e da Líbia", disse Gary Ross, diretor mundial de petróleo na S&P Global Platts e fundador da Pira Energy. "O risco de que um desordenamento assimétrico da oferta se materialize agora é ainda maior do que era durante a Primavera Árabe".

FUNDOS DE HEDGE

Os fundos de hedge e outros especuladores se viram atraídos ao petróleo este ano, mas apenas em parte por conta dos riscos geopolíticos. Os investidores já estavam apostando no mercado, tendo construído posições recordes em contratos de petróleo cru no começo do ano.

Embora uma grande posição especulativa normalmente seja sinal de um mercado em desequilíbrio, elevando o risco de uma onda de vendas quando os operadores realizam lucros em massa, isso não aconteceu este ano, até agora.

O motivo, dizem financistas, é que boa parte do dinheiro investido em petróleo vem de investidores de prazo mais longo tentando operar com ativos de "ciclo tardio", como as commodities, que tendem a se sair bem depois de um período prolongado de expansão econômica.

O argumento, em linhas gerais, é de que embora as commodities possam estar distendidas, diante de uma tendência de alta iniciada em 2009, elas se saem melhor no período tardio de um ciclo econômico, quando o crescimento em alta testa a capacidade da oferta para se manter equiparada à procura.

Os fundos de hedge também estão colhendo os benefícios de uma mudança na estrutura do mercado causada por um aperto na oferta, que leva os contratos spot a serem negociados por valores mais altos que os contratos futuros. Isso oferece rendimento regular aos investidores por meio da rolagem dos contratos para o futuro a cada mês.

O PETRÓLEO DE XISTO BETUMINOSO NOS EUA

As expectativas de crescimento do petróleo de xisto betuminoso nos Estados Unidos estão sendo excedidas, e a produção americana total deve se expandir em cerca de 10%, ou 1,4 milhão de barris ao dia, este ano.

Os produtores de petróleo nos Estados Unidos também estão gerando fluxo de caixa livre, por conta da alta nos preços. Até agora isso não bastou para brecar a alta, já que a oferta ampliada vem sendo absorvida pela procura ascendente.

"A situação econômica do petróleo de xisto betuminoso deixou de ser o fator mais importante para a formação de preços", disse Paul Horsnell, do banco Standard Chartered.

Problemas de infraestrutura na bacia de xisto betuminoso de Permian também estão dificultando o transporte do petróleo extraído no oeste do Texas para as refinarias e tanques de armazenagem, ou para a costa, de onde ele poderia ser exportado.

Tradução de PAULO MIGLIACCI

Tópicos relacionados

Comentários

Os comentários não representam a opinião do jornal; a responsabilidade é do autor da mensagem.