Produtores falam em risco de faltar comida e pressionam governo por prisões

Representantes de 18 entidades dizem haver terroristas infiltrados e relatam perdas milionárias

Brasília

Representantes de 18 entidades de produtores agropecuários e empresas transportadoras foram ao Congresso nesta terça-feira (29) pressionar o governo por prisões do que chamaram de terroristas infiltrados nas mobilizações. Além disso, afirmaram que o risco de faltar comida no país é real se a paralisação das rodovias, que já está no nono dia, não for suspensa.

"Há bandidos infiltrados nestes movimentos que não estão deixando o povo trabalhar. Isso não é justo. A polícia, o governo, o Exército, a Polícia Federal, seja quem for, não há nenhuma prisão até agora e os relatos estão sendo todos passados para o gabinete de crise. Está na hora de agir. Os frigoríficos estão parados e vai faltar comida", disse Ricardo Santin, diretor-executivo da  ABPA (Associação Brasileira de Proteína Animal), que esteve com o presidente Michel Temer no domingo (27), horas antes do anúncio do acordo com os caminhoneiros.

Segundo ele, mais de um milhão de aves estão morrendo por falta de alimentação e isso pode afetar o Brasil no exterior, já que o país tem 40% do mercado global.

"Esta situação está passando do limite. Agora, já não é uma situação de protesto ou não. É uma situação política, exacerbada, de gente oportunista se infiltrando contra os bons caminhoneiros que agora querem voltar a trabalhar", afirmou Santin.

 
 

Elizabeth Farina, diretora-presidente da UNICA (União da Indústria de Cana-de-Açúcar) disse que, a partir desta terça-feira, as 150 usinas de cana-de-açúcar estão deixando de operar, o que deixa em risco 310 mil empregos.

" O desabastecimento, nós não conseguimos recuperar ele a curto prazo. Hoje estamos com 100% das usinas de açúcar e álcool paradas. O etanol vai custar no bolso mais caro porque não tem como abastecer tanto de etanol como a mistura de combustível", afirmou Fábio de Sales Filho, presidente do IPA (Instituto Pensar Agro).

No setor de laticínios, o impacto já é de R$ 1,2 bilhão por falta de matéria-prima e insumos. Até agora, a Associação Brasileira de Laticínios estima que 360 milhões de litros de leite já foram jogados fora. A associação estima que, a partir do momento que a paralisação for desfeita, só será possível voltar ao normal depois de um mês.

A Associação Brasileira de Produtores de Soja (Aprosoja) disse que 400 mil toneladas do produto estão deixando de ser escoadas todos os dias.

"Negócios estão sendo desfeitos, estamos com dificuldades. Outros países querem negociar com o Brasil, infelizmente eles estão tendo que buscar essa soja em outros países", disse Fabrício Rosa, da Aprosoja.

Segundo a CNA (Confederação da Agricultura e Pecuária), em noves dias de paralisação, a perda no setor de produção primária já ultrapassa R$ 6,6 bilhões.

"A situação chegou num limite. Já está um caos generalizado e a população vai pagar por isso, não só o produtor", disse o superintendente-técnico da CNA, Bruno Luque.

Presidente da Abcam (Associação Brasileira dos Caminhoneiros), José Fonseca Lopes, também reuniu-se com os produtores e voltou a pedir o fim da paralisação, dizendo que os que continuam nas estradas são terroristas.

"Precisamos acabar com este terrorismo que está aí fora. Não é mais o caminhoneiro autônomo que está fazendo isso. Quem está fazendo isso é bandido. Isso tem que acabar. O caminhoneiro fez aquilo que tinha que fazer. Agora, estas infiltrações, este terrorismo que está aí, querem fazer o quê? Botar fogo neste país?", disse Lopes.

"Isso, para mim, é terrorismo e alguém tem que fazer alguma coisa para resolver isso. O caminhoneiro, que fique claro para todo mundo, não está mais na greve", disse o presidente da Abcam.

A associação é um dos alvos de investigação do Cade (Conselho Administrativo de Defesa Econômica). O objetivo é verificar se essas entidades agiram em conjunto com o intuito de "dificultar a operação de equipamentos destinados a produzir, distribuir ou transportar".

O presidente da Associação Nacional do Transporte de Cargas e Logística, José Hélio Fernandes, negou a participação de empresários nas mobilizações, o locaute.

"O setor empresarial está absolutamente à disposição para fazer aquilo que nós sempre fizemos, que é transportar, que é trabalhar e fazer tudo o que o setor fez para este país. Quero deixar muito claro: não tem o setor empresarial atrás. E, se tem um empresário participando, é por conta e risco, e responda pelos seus atos", afirmou.

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