Redução do diesel pela Petrobras reacende debate sobre investir em estatal

Investidores voltam a temer interferências políticas na definição de preços

O presidente da Petrobras, Pedro Parente
O presidente da Petrobras, Pedro Parente - Reuters
Anaïs Fernandes
São Paulo

"Sim, aconteceu de novo", escreveu o banco suíço UBS em seu relatório após a Petrobras afirmar que congelaria o preço do diesel por 15 dias, numa tentativa de encerrar o movimento de caminhoneiros que paralisa o país.

Foi um desagradável déjà vu para o mercado, e as ações da Petrobras despencaram 15% desde quarta (23), quando a petroleira anunciou a medida.

Investidores voltaram a temer interferências políticas na definição de preços da estatal, prática comum nos anos do PT na Presidência, quando o governo passou a determinar o preço dos combustíveis no país.

Na gestão de Dilma Rousseff, a variação dos preços internacionais era repassada com defasagem para o mercado interno, mecanismo usado para tentar conter a inflação, que subia desde 2012 e atingiu 10,7% em 2015.

A prática de vender abaixo do preço de mercado gerou grandes prejuízos financeiros à estatal —em 2014, o endividamento líquido chegou a US$ 106,2 bilhões.

"Quando uma empresa pública torna-se de capital aberto, assume o compromisso de agir no melhor interesse dos acionistas, isso é responsabilidade fiduciária. O conflito surge quando as companhias são usadas como instrumento político", afirma Clemens Nunes, professor da EESP (Escola de Economia de São Paulo) da FGV.

Rumores de que o atual presidente da Petrobras, Pedro Parente, poderia renunciar em meio à crise da semana passada também ajudaram a derrubar as ações da empresa.

Ele é visto com bons olhos pelo mercado exatamente por ter interrompido, em 2016, o controle de preços, além de tocar um plano de desinvestimentos que vem reduzindo a dívida da companhia.

"Ele deixou bem claro que ia gerir a empresa para dar retorno aos acionistas", afirma Nunes.

Em teleconferência com analistas na quinta-feira (24), o executivo negou que sairia, mas frisou que, caso o governo quisesse retomar o controle de preços, teria de encontrar "uma diretoria alinhada a esse decisão."

"Se o movimento terminar no curto prazo, não deve haver grande impacto à economia, a inflação não vai subir por isso. O que fica mesmo de maior preocupação é com a Petrobras e sua governança", avalia Alvaro Bandeira, economista-chefe da Modalmais.

Analistas apontam que o risco de interferência política é inerente a estatais e, consequentemente, a seus papéis na Bolsa.

Em 2012, Dilma pressionou o Banco do Brasil a reduzir juros, para estimular os bancos privados a reduzirem suas taxas e aquecer a economia. As ações do banco estatal caíram 6% no dia em que ele anunciou uma corte agressivo.

As ações preferenciais da Eletrobras subiram 32% em agosto do ano passado quando o governo anunciou a intenção de privatizá-la.

"É um sinal positivo para o mercado quando se tira a 'mão do governo' da empresa. Muitas acabam sendo usadas como cabide de emprego ou barganha de algumas classes", diz Lucas Claro, analista da Ativa Investimentos.

Na quarta-feira, os papéis da elétrica caíram quase 10% após o presidente da Câmara dos Deputados, Rodrigo Maia, afirmar que deixaria caducar a medida provisória que trata da privatização.

Quando ações caem de maneiras bruscas assim, é comum que investidores menos experientes ajam no impulso, seja para vender papéis ou entrar no mercado. Nessas horas, especialistas recomendam cautela.

"Decidir se vai vender ou não depende do horizonte. Se for de longo prazo —três ou quatro anos—, como deveriam ser os investimentos em ações, não é hora de sair. Aquele prejuízo já foi contabilizado. Mas, se a pessoa opera no curto prazo e precisa do dinheiro para a semana que vem, aí não tem dúvida, tem de vender e vai realizar [assumir] esse prejuízo", diz Nunes.

Na outra ponta, a queda nos preços pode tornar o ativo interessante para quem ainda não investe na empresa.

Os especialistas lembra, no entanto, que o cenário brasileiro no médio prazo também é volátil, principalmente com as indefinições políticas a respeito da eleição presidencial de outubro.

"Os preços da Petrobras chegaram a um patamar interessante, mas é preciso alertar o investidor dos riscos. Até outubro, o cenário político incerto deve levar a oscilações fortes na Bolsa. O momento é de ter um pouco de cautela", afirma Claro.

E a decisão dos petroleiros de paralisar as atividades nas refinarias por 72 horas a partir da próxima quarta (30) pode voltar a pressionar os papéis da Petrobras nesta segunda.

Para o investidor que topar arcar com os riscos, a recomendação do professor da FGV é que as posições sejam montadas de forma gradual. "Se você quer investir R$ 100, comece com R$ 10. Espere algumas semanas e coloque mais R$ 10."

Claro reforça também que há formas de buscar proteção, por exemplo, com uma opção de venda —um "prêmio" que garante ao investidor a opção de vender, em uma data futura, determinadas ações pelo valor preestabelecido.

Apesar dos cuidados, ações de estatais que podem dar bons retornos não precisam ser descartadas do portfólio.

"Bons investimentos são feitos quando o investidor compra papéis cujos preços descontam o suficiente o risco que a empresa carrega. Ingerência política certamente é um fator de risco, mas não deve dissuadir ninguém de investir, porque o preço que reflete ou não isso"​, afirma Nunes.

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