Argentina assina acordo de US$ 50 bilhões com FMI

Fundo pede que país baixe a inflação a 9% progressivamente até 2021

Sylvia Colombo Estelita Hass Carazzai
Buenos Aires e Washington

O governo argentino anunciou nesta quinta-feira (7) que concluiu um financiamento de US$ 50 bilhões com o FMI (Fundo Monetário Internacional).

É o maior empréstimo já negociado pelo país com o Fundo, uma instituição altamente controversa entre a população argentina, que ainda a associa a cortes brutais de orçamento e a um passado de protestos violentos.

O acordo valerá por 36 meses, ou três anos. É mais do que o restante do mandato do presidente Maurício Macri, eleito até o final de 2019.

Argentinos participam de manifestação em frente ao monumento Obelisco, em Buenos Aires, contra o pedido de ajuda ao FMI - Martín Zabala - 25.mai.2018/Folhapress

O governo defende que a operação era necessária para superar a volatilidade do mercado internacional, em especial a recente desvalorização do peso que fez escalar a inflação do país.

“Finalmente chegamos a um acordo em que mostramos a confiança que a instituição tem em nós. Mas temos de entender que a solução dos problemas depende dos argentinos. Temos de cumprir algumas metas que fazem parte de um programa”, disse o ministro da Fazenda, Nicolás Dujovne.

As metas são obrigatórias em empréstimos do tipo “stand by”, o clássico socorro do FMI a países em dificuldades.

Esse tipo de acordo envolve valores elevados –que, nesse caso, superaram em 11 vezes a cota da Argentina no Fundo–, tem juros mais altos e exige que o país assuma compromissos, assinando um memorando de política econômica.

Entre eles, está a já difícil tarefa de baixar a inflação da Argentina.

O FMI pede que as metas para a inflação sejam de 17% para 2019; 13% para 2020; e de 9% para 2021. Atualmente, o indicador é de 23%, bem acima da meta do governo para o ano, de 15%.

“Sabemos que [a inflação] corrói as fundações da prosperidade econômica da Argentina e recai diretamente sobre os segmentos mais vulneráveis da população”, afirmou a diretora-gerente do FMI, Christine Lagarde, que celebrou o acordo e disse apoiar “energicamente” as reformas do presidente Macri.

Com relação ao déficit fiscal, Dujovne disse que a meta imposta pelo FMI para 2019 será de 1,3%. O objetivo é zerar o déficit público até 2020.

Ciente das celeumas que o FMI desperta entre a população argentina, Lagarde destacou que as metas foram “concebidas e desenhadas pelo governo” de Macri, e disse que o país se comprometeu a manter um piso de gastos com assistência social pelos próximos três anos.

No passado, cortes na área social estiveram entre os principais motivos da revolta dos argentinos contra o FMI, alvo de protestos no início dos anos 2000. Empréstimos negociados com o Fundo exigiram cortes de gastos e fim de subsídios a serviços como eletricidade e gás, num momento em que cerca de metade da população vivia na pobreza.

O acordo estipulado nesta quinta estabelece que as despesas na área social devem permanecer iguais, em porcentagem do PIB, enquanto durar o empréstimo.

“Se as condições econômicas piorarem, há dispositivos para incrementar os recursos destinados às prioridades sociais”, afirmou Lagarde.

A aprovação formal do empréstimo ainda depende de uma reunião da diretoria do FMI, a ser realizada no próximo dia 20. É quando será divulgado, na íntegra, o memorando assinado pelo governo argentino e as condições detalhadas do empréstimo.

O FMI projeta que o crescimento da Argentina em 2018 seja de 1,7%, enquanto o governo havia anunciado no fim do ano passado que a meta seria de 3%.

“Temos de considerar que outros países também estão com dificuldades; o Brasil também deve crescer menos”, disse o ministro Dujovne.

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