Declarações de presidente da Qatar Airways esquentam debate sobre gêneros

Akbar Al Baker afirmou que seu cargo "precisa ser ocupado por um homem"

Josh Spero
Do Financial Times

Akbar Al Baker, presidente-executivo da Qatar Airways, jogou lenha na fogueira do debate sobre a igualdade entre os gêneros, na terça-feira, ao declarar que só um homem seria capaz de fazer o trabalho que ele faz.

Os comentários dele expõem um problema quanto à diversidade de gêneros nas posições de liderança do setor de aviação, e surgem em um momento desconfortável para a indústria do transporte aéreo, porque Baker acaba de se tornar presidente do conselho da Associação Internacional de Transporte Aéreo (Iata, na sigla em inglês).

Akbar al-Baker posa com comissárias de bordo, da Qatar Airlines - Murad Seze - 25.abr.2018/Reuters

Em resposta a uma questão sobre a baixa representação das mulheres nos postos executivos das companhias de aviação do Oriente Médio, Baker disse, sobre seu posto como líder da Qatar Airways, que "ele evidentemente precisa ser ocupado por um homem, porque se trata de uma posição muito desafiadora".

Baker afirmou mais tarde que não estava se referindo às mulheres em geral, e sim ao fato de que não existia alguma mulher específica pronta para sucedê-lo à frente da Qatar Airways. Ele acrescentou que mais de um terço dos funcionários da companhia são mulheres, e que elas ocupam cargos importantes, como o de vice-presidente sênior.

Baker estava falando em Sydney, na assembleia anual da Iata, durante a qual Alexandre de Juniac, o diretor geral da organização, havia se referido anteriormente a questões de gênero em seu discurso anual.

Juniac reconheceu que "como se pode ver nesta sala, temos trabalho a fazer quanto à igualdade entre os sexos". Ele disse que a organização agora requeria listas de candidatos diversificadas em termos de gêneros, para selecionar funcionários.

Mas entre os 31 membros do conselho da Iata, só existem duas mulheres: Christine Ourmières-Widener, presidente-executiva da companhia de aviação regional britânica Flybe Group, e María José Hidalgo Gutiérrez, presidente-executiva da Air Europa, da Espanha.

O número total de mulheres empregadas como pilotos comerciais é baixo. Nos Estados Unidos, em 2016, apenas 6,3% dos 96 mil pilotos comerciais empregados eram mulheres, de acordo com dados da Administração Federal da Aviação (FAA) americana.,

Brian Strutton, secretário-geral da Associação de Pilotos de Companhias de Aviação Britânicas (Balpa), enfatizou que o gênero do candidato não deveria influenciar no processo de seleção de pilotos. "A Balpa acredita que, para ser piloto, ou para dirigir uma companhia de aviação, é a competência para fazer o trabalho que importa, e ponto final".

No entanto, as companhias de aviação registraram forte disparidade entre a remuneração dos homens e a das mulheres, em resposta a uma iniciativa de transparência adotada pelo governo britânico. O pagamento médio por hora para as mulheres que pilotam para a EasyJet era 46% mais baixo que o dos homens, e na Ryanair elas recebem pagamento médio por hora 72% mais baixo. Na British Airways, a disparidade é de 10%. No Reino Unido como um todo, a disparidade na remuneração é de 9,7% em favor dos homens.

Na Ryanair, entre os 25% mais bem pagos dos funcionários da empresa, apenas 3% são mulheres.

Willie Walsh, presidente-executivo da IAG, que controla a British Airways, disse recentemente que "não vejo o problema como uma questão setorial, mas como uma questão social".

Ele disse que se tratava de "uma questão de oferta", e que as coisas seriam mais fáceis se mais meninas se dedicassem a matérias como ciência, tecnologia, engenharia e matemática, na escola.

Walsh acrescentou que não espera solução rápida. "A Aer Lingus demorou 40 anos para elevar sua proporção [de pilotos mulheres] de zero a 10%, e isso em um ambiente no qual eles estavam recrutando mulheres ativamente, antes de diversas outras companhias de aviação".

O Qatar ficou em 117º lugar entre os 122 países estudados para o Índice de Progresso de Gênero da escola de administração de empresas Insead, em 2016, Lá, 96% dos homens e apenas 51% das mulheres participam da força de trabalho.

Mas o Qatar e seus vizinhos estão tentando recuperar o atraso diante de outras regiões, promovendo mulheres a posições de poder na política e nos negócios.

Tradução de PAULO MIGLIACCI

Tópicos relacionados

Comentários

Os comentários não representam a opinião do jornal; a responsabilidade é do autor da mensagem.