Juros altos deterioram contas públicas sem conter a alta do dólar

Discussão sobre o aumento da taxa básica pelo Banco Central voltou à pauta nesta semana

Danielle Brant
New York

Usar a taxa básica de juros como arma para frear a desvalorização do real tem efeito inócuo sobre os fatores que estão por trás desse movimento, além de agravar as contas públicas do país.

Gabriela Santos, estrategista de mercado global da JPMorgan Asset Management, diz que a ferramenta, no caso brasileiro, pode ser até contraproducente no combate à alta do dólar.

"A subida de juros em si não cura a preocupação com a visibilidade sobre a questão fiscal [decorrente das incertezas sobre a matriz econômica a ser seguida pelos principais pré-candidatos a presidente na eleição]", diz.

A discussão sobre o aumento de juros pelo Banco Central voltou à pauta nesta semana.

A turbulência causada pelos protestos dos caminhoneiros mergulhou o mercado financeiro brasileiro em uma crise. A situação impactou os contratos de juros futuros, que refletem as expectativas de economistas com a taxa.

O contrato com vencimento em outubro de 2018, antes do primeiro turno eleitoral, era negociado a 6,845% nesta sexta-feira (8).

Com a Selic —taxa básica de juros— atualmente em 6,5% ao ano, esse valor de contrato significa que os investidores estão prevendo implicitamente uma alta de pelo menos 0,25 ponto percentual em alguma das reuniões do BC até lá.

O presidente da instituição, Ilan Goldfajn, rejeita, porém, usar os juros para conter a volatilidade cambial.

Ilan Goldfajn, presidente do Banco Central - AFP

Para Santos, cogitar aumento de juros no caso brasileiro realmente não faz sentido.

A inflação está sob controle --em 12 meses, o índice acumula avanço de 2,86%, abaixo da faixa inferior da meta fixada pelo CMN (Conselho Monetário Nacional), de 4,5%, com 1,5 ponto percentual para cima ou para baixo.

E o país ainda enfrenta dificuldade para controlar gastos. Aumentar juros, embora possa ajudar a reter investidores no país, elevaria a dívida do governo em um momento em que a situação fiscal preocupa.

Nesse sentido, a flutuação do real seria a melhor maneira de absorver esses choques, diz Santos. "Uma depreciação de moedas às vezes conserta alguns problemas."

Edward Kane, professor de finanças do Boston College, também critica o uso de juros como forma de controlar volatilidade cambial.

"Altos níveis de instabilidade política não podem ser superados manipulando instrumentos tradicionais de política controlados pelo BC", diz.

Segundo ele, enquanto houver incertezas, os investidores vão trocar sua posição em ativos brasileiros por ativos de outros países, "porque eles estão com medo de que um novo governo radical possa destruir valor da moeda local".

Em relatório, a equipe de análise do banco Goldman Sachs afirma que o BC apenas usaria o aumento de juros caso o real atingisse um nível suficientemente fraco que pudesse alterar a expectativa de inflação para acima das metas em dois anos.

Apesar disso, há quem veja espaço para o BC voltar atrás em sua política e subir juros.

Mike Moran, responsável pela área de macroeconomia para Américas do Standard Chartered Bank, não descarta a possibilidade refletida pelas taxas de juros futuros. "No curto prazo, é importante saber como o BC vai lidar com a situação. A intervenção que vimos com o aumento dos contratos de swap não teve o efeito desejado", afirma.

Para ele, o grande risco é saber se isso vai forçar o BC a tomar "ações mais agressivas". "Mesmo que isso signifique reverter alguns dos cortes vistos mais cedo no ciclo de cortes", diz.

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