Mercado vive incerteza política global, diz Credit Suisse

Volatilidade brasileira é acompanhada de perto pelos investidores, segundo James Amine

James Amine e Bruno Fontana, da área de banco de investimentos do Credit Suisse
James Amine (à esq.) e Bruno Fontana, da área de banco de investimentos do Credit Suisse - Karime Xavier/Folhapress
 
Ana Paula Ragazzi
São Paulo

A atual volatilidade dos ativos brasileiros é acompanhada de perto pelos grandes investidores, segundo James Amine, chefe global da área de banco de investimentos do Credit Suisse.

Amine, que esteve no Brasil na semana passada, diz que, por causa da paralisação de caminhoneiros, revisões de projeção do PIB (Produto Interno Bruto), dólar disparando, incertezas sobre os juros e muito sobe e desce na Bolsa, o investidor tem feito mais perguntas sobre o ambiente macroeconômico. 

“Os investidores estão tentando imaginar qual o impacto das eleições. Ou seja, devo investir agora ou devo esperar para investir depois de conhecido o resultado?”, resume Amine. “Mas há uma grande verdade: investidores têm de investir em algum lugar. E em muitos deles, hoje, o componente político está presente.”

Segundo ele, as incertezas geradas pelo ano eleitoral pesam não apenas no Brasil, pois questões políticas são o grande tema global em 2018. 

“Todas as regiões convivem com questões políticas, que estão trazendo maior volatilidade aos mercados. E isso tende a ser muito relevante para a tese de investimentos de qualquer um”, diz. 

Amine cita a China, com um líder que tem o mandato vitalício; os pleitos recentes na Rússia, na Itália e na Espanha; o Reino Unido, com uma primeira-ministra fraca, e, os EUA, com um presidente que se mostra “interessante”, descreveu, após escolher a palavra antes de dizê-la. Na América Latina, há eleições no Brasil e no México, além de uma Venezuela em crise.

Olhando para os emergentes, a perspectiva piora em razão da alta dos juros americanos, que sempre traz o temor de que os recursos migrem de países menores para lá.

A elevação dos juros nos EUA era esperada, mas ainda assim Amine considera que o fato de os títulos do Tesouro americanos de dez anos terem batido os 3% abalou o psicológico dos mercados. Foi nesse momento que Argentina e Turquia tiveram suas crises cambiais e catapultaram as taxas de juros para reter investimentos.

Apesar do cenário incerto, Amine reforça que o Brasil demonstra estar no radar de negócios muito relevantes na seara das fusões e aquisições. Na sexta (15), a Odebrecht informou que negocia a venda da Braskem para a holandesa LyondellBasell. 

No início do mês, a gigante americana Walmart, em vez de sair do Brasil, entregou o comando das suas operações no país ao fundo de participações Advent. 

“É o que estava dizendo sobre a importância de conhecer os ciclos de altas e baixas dos emergentes. O fundo de participações pode ter essa visão mais de longo prazo”, afirmou Amine. O Credit Suisse assessorou o Advent na operação. “O que acontece nas economias em desenvolvimento é que há, constantemente, esses ciclos de volatilidade”, diz. 

Segundo Bruno Fontana, chefe da área de banco de investimentos do Credit Suisse Brasil, apesar da volatilidade e da imprevisibilidade eleitoral, o Brasil tem demonstrado estrutura para suportar solavancos.“Não há evidência de que o país esteja sofrendo uma crise cambial, com saída expressiva de recursos”, diz.

Até pela presença relevante há muitos anos no país, a perspectiva do banco suíço no médio e no longo prazos é avaliada como positiva. 

“Apesar da volatilidade atual, estamos com uma visão muito positiva do ambiente macro brasileiro. Juros baixos, inflação baixa e crescimento em alta —mesmo que ele não seja no patamar esperado no início do ano”, diz Fontana. “No geral o novo presidente herdará um país em condições muito melhores do que o atual.”

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