Descrição de chapéu Análise

O que se busca são remédios para manter a essência da XP após união com Itaú

Ideia preferida do BC é impedir que o banco assuma o comando da companhia de investimento

Julio Wiziack Ana Paula Ragazzi
Brasília e São Paulo

O Banco Central pretende impor restrições mais severas para aprovar a compra da XP Investimentos pelo Itaú. A mudança de rumo pelo BC foi revelada pelo jornal Valor Econômico e confirmada pela Folha.

Pessoas que acompanham as conversas afirmam que a ideia preferida do BC é impedir que o banco assuma o comando da companhia.

O negócio, que já foi aprovado pelo Cade (Conselho Administrativo de Defesa Econômica) com ressalvas, prevê a compra de 49,9% da XP pelo Itaú em uma primeira etapa, que envolve R$ 5,7 bilhões.

Agência do banco Itaú no Rio de Janeiro - Pilar Olivares/Reuters

Pelo acordo, em 2022, os sócios da XP terão a opção de vender suas ações para o banco. Se isso não ocorrer, a partir de 2033, será o Itaú que terá direito de comprar essas ações. Para aprovar o negócio, o Cade determinou que a segunda etapa terá de ser novamente submetida ao tribunal.

Entre as soluções possíveis avaliadas pelo BC está travar a participação do Itaú na XP em 49,9%, exigindo que as partes cancelem essas opções de compra e venda.

Uma outra alternativa, revelada pela Folha no final de abril, é proibir que o Itaú tenha representantes no conselho de administração da XP, mesmo adquirindo o controle.

A operação entre XP e Itaú é a primeira em que Cade e BC atuam em conjunto. O BC, entretanto, tem interpretação diferente da decisão do Cade e mais alinhada com a dos conselheiros do Cade Cristiane Alkmin e João Paulo de Resende, que viram na operação riscos à independência da XP.

No acordo com o Cade ficou acertado que o Itaú não poderá ter capacidade de decisão na XP até concretizar a compra do controle. Mas poderá indicar dois dos sete conselheiros previstos para a XP.

A reportagem apurou que o BC acha que essa possibilidade não será suficiente para garantir a autonomia da XP.

Na próxima sexta (15), XP e e Itaú deverão se reunir com os técnicos do BC para retomar discussões para destravar o negócio. A resposta final do BC sairá em meados de julho.

Dentro da XP, apurou a Folha, a percepção é que, se o BC está propondo "remédios" é porque deverá aprovar o negócio, com ajustes. Mas existe também a preocupação de que a solução final seja dura demais, a ponto de levar o Itaú a desistir do negócio.

As discussões envolvem os méritos da XP: o pioneirismo de colocar de pé no Brasil uma plataforma de investimentos retirando clientes dos bancos _ só na área de investimentos, uma vez que a XP não oferece contas correntes.

Ao liberar a operação, o Cade não viu problemas de concorrência porque a XP continuará oferecendo produtos de diversas instituições financeiras, não apenas do Itaú.

Se o Cade liberou o negócio, dizem especialistas, o BC deveria então agora avaliar somente se ele traria algum risco potencial de liquidez para o sistema financeiro, o que também não se confirmaria.

O ponto que agora vem sendo levantado, a partir de entrevista de Armínio"‚Fraga, ex-presidente do BC, ao jornal Valor, é que liberar o negócio seria tirar do jogo a única instituição que conseguiu incomodar os bancos, ao arrancar deles 500 mil clientes das aplicações financeiras.

Sob esse aspecto, o curioso é que, após o anúncio da compra da XP pelo Itaú, em maio de 2017, o mercado brasileiro passou a ver agentes de fato querendo aumentar a concorrência oferecidas aos bancos.

Em junho, a Globo anunciou investimento na Órama. Em julho, o Brasil Plural ingressou na Genial. Em setembro, a chinesa Fosun comprou 70% da Guide. Todas as empresas que receberam os investimentos nasceram para concorrer pelo cliente que é hoje atendido pela XP. Neste mês, o BTG Pactual também consolidou a entrada no segmento.

Procurados, Itaú, XP e BC não quiseram comentar.

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