Descrição de chapéu Latino América 21

Investidores estão de olho na América Latina, mas previsões não são animadoras

O fluxo de IED na região subiu 8%, chegando a US$ 150 bilhões

Ricardo Aceves

Depois de seis anos de estagnação, em 2017 os IDE (investimentos estrangeiros diretos) na América Latina voltaram com força, subindo nitidamente em relação ao ano anterior. Segundo o informe mais recente da Unctad (Conferência das Nações Unidas sobre Comércio e Desenvolvimento), o fluxo de IED na região subiu 8%, chegando a US$ 150 bilhões.

Esse resultado formou um contraste notável com a tendência mundial: o fluxo global de IED caiu 23% no mesmo período, puxado para baixo basicamente por uma queda de cerca de um terço nas economias desenvolvidas e de mais de 20% na África, enquanto nos países asiáticos o fluxo de investimentos estrangeiros diretos praticamente estancou.

Na América Latina, os investimentos estrangeiros cresceram atraídos pela recuperação gradual da atividade econômica regional e a alta dos preços das matérias-primas. Separando os dados por país, quem recebeu mais investimentos foi o Brasil, que registrou a chegada de US$ 63 bilhões, marcando um crescimento de 8%, e em segundo lugar a Argentina, que recebeu investimentos de US$ 12 bilhões --um aumento maciço de 264% no ano. Os fluxos de IED também subiram vertiginosamente no Caribe, puxados por um aumento forte sobretudo na República Dominicana e no Haiti. Este último possivelmente reflita investimentos chineses em infraestrutura.

Em outras partes da América Latina a situação foi menos animadora. Apesar de o fluxo de IED ter mostrado sinais de crescimento moderado na Colômbia, os investimentos estancaram no México e no Peru e diminuíram no Chile, em decorrência de disputas trabalhistas no setor de extração mineral.

Na América Central os investimentos subiram cerca de 2%, se bem que com disparidades marcantes entre diferentes países, com grande crescimento na Costa Rica e El Salvador.

Como vem ocorrendo historicamente, a parte maior dos investimentos estrangeiros diretos na América Latina se destinou aos setores produtores de matérias-primas. As commodities que receberam os maiores investimentos foram a soja, os metais básicos e o setor extrator, principalmente o petróleo. Mas 2017 mostrou que também houve fluxos grandes de inversões em bens de consumo e comércio com descontos, especialmente na América do Sul, onde a demanda interna começa a se recuperar após um longo período de fraqueza.

Outros setores que apresentaram melhoras foram o automotivo e o energético, não apenas nas fontes de energia tradicionais, mas também nas fontes de energia renovável. As infraestruturas, principalmente de transportes e logística, também se destacaram por terem recebido mais investimentos, graças ao fato de vários governos da região terem fortalecido os regulamentos para a formação de alianças público-privadas, em um esforço para cobrir as lacunas de infraestrutura que dificultam a produtividade e o crescimento.

Apesar da evolução muito positiva dos IEDs em 2017, as perspectivas para este ano são incertas, na melhor das hipóteses. De acordo com o relatório, a previsão é que apresentem uma queda pequena ou, no melhor dos casos, se mantenham estáveis. Apesar da expectativa de recuperação econômica de algumas das grandes economias da região, como Chile, Peru e Colômbia, os especialistas consultados pela FocusEconomics reavaliaram recentemente suas previsões de crescimento para a Argentina, em função da estiagem grave e do enfraquecimento da moeda, e para o Brasil, devido à incerteza eleitoral.

Contudo, mais além das incertezas em relação a este ano e 2019, a política comercial pode ser um grande impulsor de IEDs maiores na região, incluindo investimentos intrarregionais. Estes, graças aos esforços para diversificar as relações comerciais e os esforços para fortalecer e aprofundar a integração regional através do CPTPP (Tratado Amplo e Progressivo de Parceria Transpacífico, na sigla em inglês), do acordo discutido entre a União Europeia e o Mercosul (a União Alfandegária do Cone Sul) e de uma cooperação maior entre o Mercosul e a Aliança do Pacífico.

Se essas negociações –além de outros acordos menores que estão sendo discutidos— se confirmarem, as perspectivas de IEDs maiores certamente vão melhorar no médio e longo prazo. Por enquanto, o que estamos vendo é que o baixo crescimento econômico e a incerteza política e geopolítica prevalecente estão freando os fluxos de capital.

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Ricardo Aceves é economista mexicano especializado em temas macroeconômicos latino-americanos e analista da agência de classificação italiana CRIF Ratings. Trabalhou anteriormente como economista sênior para a América Latina na consultoria FocusEconomics. 

Tradução de Clara Allain

 

   

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