Mercado ainda não mediu risco de guerra comercial, diz banco UBS

Para diretor de investimentos, há rupturas na cadeia de fornecimento e menos contratações

Danielle Brant
Nova York

O mercado ainda não está precificando os efeitos secundários da guerra comercial entre Estados Unidos e China, e isso é motivo para preocupação, afirma, em relatório Mark Haefele, diretor de investimento do UBS Global Wealth Management, área de gestão de fortunas do banco suíço.

Entre esses efeitos estão rupturas nas cadeias de fornecimento, diminuição da contratação de funcionários, redução de investimentos ou intensificação do conflito.

No final de maio, o presidente americano, Donald Trump, disse que os EUA imporiam tarifas de 25% sobre US$ 34 bilhões em produtos chineses, medida que entrou em vigor no dia 6 de julho. Depois, anunciou sanções adicionais de 10% sobre outros US$ 200 bilhões.

A primeira reação dos mercados foi de apreensão. Pouco depois, as Bolsas de valores se recuperaram. Desde 29 de maio, o índice Dow Jones sobe 1,3%, enquanto as ações globais têm alta em torno de 2%. O Ibovespa, principal índice da Bolsa brasileira, avança 4,3%.

No relatório, Haefele afirma que esse recente fortalecimento nos mercados acionários pode significar que os investidores não estão precificando o aumento do risco de efeitos secundários da imposição de tarifas.

Segundo ele, se as tarifas forem suficiente abrangentes, elas vão, inevitavelmente, quebrar cadeias de fornecimento e reduzir a habilidade de encontrar substitutos.

Ele também não exclui a possibilidade de a China retaliar com medidas não tarifárias, como desvalorizando o yuan ou vendendo títulos do Tesouro americano –a China é o maior detentor estrangeiro de dívida americana, segundo dados de maio do governo dos EUA.

Haefele considera ainda que o governo chinês poderia retardar a entrega de componentes-chave para a produção nos EUA ou impor burocracia adicional para companhias americanas.

“Medidas de segunda ordem ou não-tarifárias podem ter um impacto negativo mais significativo no crescimento econômico e no lucro de empresas, particularmente se elas restringirem a habilidade da China de administrar suas reformas estruturais e sua desalavancagem”, afirma.

Haefele lembra que não há certeza de que as novas tarifas serão implementadas. Além disso, com a sólida recuperação econômica dos Estados Unidos, há fundamentos para que os indicadores acionários americanos subam, com a perspectiva de lucros maiores das empresas. Ele estima que os ganhos devem crescer de 23% a 25%, na base anual.

“Mas os mercados subiram mais, enquanto os riscos de baixa em torno das tarifas aumentaram. Nós estamos preocupados que os mercados estejam, se tanto, precificando os impactos de primeira ordem de tarifas que estão para começar a ter efeito.”

Com isso, com a ameaça de tarifação adicional e o efeito nos negócios e na confiança do consumidor, o banco acredita que há um risco pouco compensatório nos mercados acionários caso a disputa continue ou ganhe escala. Por isso, decidiu diminuir a exposição a ações globais.

Segundo ele, a exposição a ativos globais mais arriscados está neutra, e compreende pequenas posições em ações globais e em títulos de dívida de mercados emergentes, e pouca exposição a crédito de juro elevado no mercado europeu.

O diretor de investimento diz que vai continuar buscando sinais que poderiam ajudar a indicar as intenções da administração Trump. Também ressalta que será importante avaliar se a guerra comercial está começando a afetar a decisão de investimento ou a expectativa de contratação das empresas.

“Se as companhias demonstrarem que estão dispostas a olhar além das incertezas, isso limitaria os riscos de segunda ordem”, diz.

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